Artigo | O modelo não era soviético, era de Rockefeller: Crítica ao texto de Gervás

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Foto: Reprodução SBMFCoficial

16/10/2019

 

Medicina Social Latino Americana e a saúde coletiva brasileira sempre foram críticas a matrizes de pensamento eurocêntrico.

 

 

 

Por Vinicius Ximenes*

Hoje consegui ler o texto do médico de família espanhol Juán Gervás, publicado no site Acta Sanitaria, pessoa que muito estimo, respeito e tenho como referência, que foi recompartilhado em diversas redes sociais de comunicação nos últimos dias.

Mas o texto tem várias imprecisões.

Veja, o modelo de policlínicos não era soviético. Ele já existia não só na Rússia czarista antes da Revolução Russa, como em outros países, pois foi um modelo implantado em vários lugares do mundo pela Fundação Rockefeller, no início do século 20 – claro –, onde havia força de trabalho para tal intento, ou mudanças na formação médica, patrocinada pela própria Fundação Rockefeller, que davam substrato à mudança.

Esse mesmo modelo foi experimentado no Brasil, no inicio do século 20, com várias modelagens, na criação dos primeiros centros de saúde, ou na estruturação do Serviço Especial de Saúde Pública, da Fundação SESP, a partir da década de 1940.

Era também uma medicina de setor, pois era baseada em distritos sanitários, e foi muito importante porque construiu a cultura moderna de centros de saúde, onde os famosos policlínicos eram algumas modalidades destes.

Modelo rockefelleriano melhorado

Dawson, um cirurgião, ganhou prestígio na Primeira Guerra Mundial porque adotou estes princípios da medicina de setor, organizando hospitais de campanha no front europeu, e tendo uma estratégia de tendas descentralizadas, apoiadas por estes hospitais de campanha regionalizados.

Quando convidado pelo governo inglês para desenvolver uma proposta de reforma na saúde do Reino Unido combalido pela Grande Guerra, com seu grande afluxo de doentes pós confronto, Dawson propôs um relatório, que levou o seu nome, onde adotou os mesmos princípios da medicina de setor, inclusive incorporando noções de territorialidade e tendo referência nos centros de saúde, mas capilarizando uma ideia de rede de saúde e prestação de assistência em saúde com serviços de atenção domiciliar, baseados em clínicos gerais, ligados a estes centros de saúde.

A “sacação” de Dawson foi “radicalizar” a exploração das potencialidades de vínculo e responsabilização sanitária dentro de um território definido com equipes, clientelas menores, moduladas, adscritas a um profissional, tendo retaguarda de toda outra qualidade de serviços.

Assim, o modelo britânico foi um melhoramento do modelo rockefelleriano, e não uma “vertente distinta”, como o texto do Gervás pode levar a sugerir.

Na época do fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), diante da grande insatisfação popular com os rumos de meados do governo Yeltsin, nos anos 1990 não esqueçamos que o fim da URSS foi um Golpe de Estado; a maior parte da população queria abertura política e econômica, mas sem o fim da URSS, e não queriam implantação de uma plataforma neoliberal radical como foi feita , um dos maiores fatores de críticas que se tinha foi o desmantelamento do sistema de saúde soviético. Mesmo com modelo de trinca de especialistas na porta e policlínicos era considerado um excelente modelo. A medicina russa foi suporte de incorporação técnico-científica para vários países das Américas (Cuba), Leste Europeu, Ásia e África.

Modelo de trinca de especialistas

A questão é que o modelo de trinca de especialistas na porta dos policlínicos, sem serviços de atenção domiciliar ou consultórios de família é um modelo mais oneroso em perspectiva de custo-efetividade, mas se você tiver muitos recursos disponíveis ele pode ser eficiente, pois tem também noção de territorialidade. Claro que clinicamente tende a ser menos integral, mas ao mesmo tempo pode proporcionar maior disponibilidade de força de trabalho se bem desenhado. No Brasil há gente achando que estamos fazendo “o máximo” colocando um clínico/médico de família e comunidade para atender 5 mil pessoas ou mais, em áreas extremamente vulneráveis, achando que estamos superando o “modelo bolchevique”. Pura propaganda ideológica neoliberal.

Cuba até o final dos anos 1970 tinha um modelo semelhante ao soviético. Mas vivia já as dificuldades dos custos crescentes de seus serviços, o que gerava grande pressão ao seu sistema. No famoso discurso de Fidel aos estudantes de Medicina, no inicio dos anos 1980, iniciou uma importante mudança na formação médica cubana, valorizando a formação de médicos gerais integrais, e iniciou a reforma de seu sistema em 1984, sob liderança de sanitaristas como o doutor Ordoñez e outros.

Graças a esta mudança e à expansão de seu aparelho formador, a partir de uma outra lógica, conseguiram ter um sistema de saúde mais efetivo, uma prática clínica menos biomédica e mais integral, e isto os auxiliou a superar os difíceis anos do período especial, após a queda do Muro de Berlim.

Sabemos que um dos importantes fatores de legitimidade do regime cubano são suas conquistas e avanços na saúde pública, podendo um país pobre se dar ao luxo de práticas inclusive de internacionalismo médico.

Interessante pensar que a não viabilização da proposta de Dawson, no Reino Unido, ainda na década de 1920 se deu por um elemento político, que consistia na oposição da maior parte dos médicos, em especial dos clínicos gerais, que foram os principais opositores, inclusive mais tarde na criação do NHS, em 1948. Tensão que só conseguiu ser superada com as reformas no ensino médico inglês em 1957 e vinda de dezenas de milhares de médicos das ex-colônias britânicas nos anos 1960.

Portanto, sempre houve uma tensão entre o liberalismo político e econômico e a socialização da medicina e da saúde, algo que toma contornos mais dramáticos em plena ascensão de ultraliberalismo, da extrema-direita no mundo todo, e disputas baseadas em “guerras híbridas”, com batalhas que envolvem informação, manipulação e pós-verdade.

Preconceitos ideológicos

Acredito que apesar de um excelente texto trazido pelo Gervás, que dá elementos para uma crítica ao pacote de “nova cesta básica de saúde”, onde fundações internacionais e a própria OMS, hoje refém dos EUA, apontam como “alternativa”, no escamoteado debate de cobertura universal de saúde (que só parece ser algo “bem intencionado”), o texto peca pela pouca precisão com o elemento histórico, e uma certa reprodução de preconceitos políticos e ideológicos.

Esta crítica a matrizes de pensamento eurocêntrico sem uma melhor noção de historicidade sempre foi feita pela Medicina Social Latino Americana e pela Saúde Coletiva brasileira.

Nesse sentido, meu texto se filia a uma reflexão feita por um médico de família e comunidade, mas que bebe das fontes e elementos das ciências sociais e humanas de nossa latinoamerica.

* Vinicius Ximenes é sanitarista, médico de Família e Comunidade, servidor da Secretaria de Saúde do DF – MFC Recanto das Emas e professor universitário.

 

*Publicado originalmente pelo Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes)

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