Artigo | As mortes políticas e o desmonte das universidades

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Em 20 de setembro, mais um jovem negro tirou sua vida no território universitário.

Foto: Marcelo Camargo/EBC 

03/10/2019

 

 

Psicóloga comenta as tentativas e suicídios recentes no ambiente acadêmico e a influência do cenário político e econômico do país.

 

 

 

Por Luana Lima*

Semana passada fui acionada por uma aluna a respeito de uma tentativa de suicídio na nossa universidade. O rapaz sobreviveu. Foi hospitalizado. No dia seguinte, notícias de uma nova tentativa de suicídio no campus. Na mesma semana, terceiro dia consecutivo, a ocorrência de um suicídio. O mesmo método da primeira tentativa, na mesma instituição, próximo à Reitoria – um ato dirigido ao Estado? Isso tem nome e é esperado. O efeito Werther seguiu seu fluxo sem maiores impedimentos.

O que essas tentativas e suicídio denunciam? O que esses jovens estão tentando nos dizer? O que tem gerado tamanho conflito e impossibilidades de manutenção da(s) existência(s)?

Considerando o cenário de desamparo da juventude contemporânea, a escassez de produção de dados específicos e que nem todo suicídio ocorrido dentro ou ligado à universidade tenha completa associação com essa realidade, há uma forte impressão suscitada pelas ocorrências, que vêm mobilizando as universidades em torno do problema: o crescente número de casos, perdas irrefreáveis em seus quadros, notadamente de discentes.

Pressão da ideologia dominante

Ainda que a realidade universitária tenha avançado em políticas afirmativas, em especial as cotas, gerando um cenário mais democrático – conjuntura atual e politicamente ameaçada em seu caráter inclusivo e orçamentário – a produção do conhecimento é perpassada pela ideologia da classe dominante, detentora dos valores da formação e qualificação da força de trabalho das novas gerações (NETTO & SOUZA, 2015).

O imperativo capitalista cria exigências que recaem sobre a futura força de trabalho dos estudantes, que devem funcionar sob a ótica de “mentes sãs em corpos sãos” e, qualquer desarmonia com essa prescrição se converte em defeito e/ou anomalia, desencadeando possíveis situações de violência (NETTO & SOUZA, 2015). Para esses autores, com frequência, as características são transmutadas em patologias. Esse estatuto costuma restringir a responsabilidade do fenômeno ao indivíduo, aos seus transtornos/fatores biológicos, sem apreciação das influências sociais e políticas.

A colonialidade do saber molda subjetividades e políticas de afeto. Como nos lembram Flor do Nascimento & Garrafa (2011), “na medida em que os ditames hegemônicos de produção de conhecimento estão ancorados e produzidos na lógica da colonialidade, temos de pensar de que maneira os conceitos de vida estão em jogo para a elaboração de outros conhecimentos e políticas sobre a vida.”

Estratégia de genocídio

A importância do enfrentamento e compreensão crítica sobre o fenômeno do suicídio são como um passo decisivo para criar outras formas, mais sustentáveis, de existência.

A colonialidade da vida, o desmonte das universidades, o corte de verbas, a restrição financeira às pesquisas científicas brasileiras, as mortes simbólicas e políticas, etc. são como balas atravessadas nos sonhos e nos corpos dos mais vulnerados. No último dia 20 de setembro perdemos mais um jovem negro no território universitário, cujo pressuposto é cultivar sementes do amanhã. O amanhã não existe mais pra ele. O amanhã sequer existiu para muitos como ele.

Perdemos jovens negros diariamente das formas mais violentas possíveis, mas o suicídio é uma estratégia de genocídio que pouco falamos. Como afirmou oportunamente o historiador Phelipe Cunha, essas estratégias genocidas matam os que morrem e os que ficam. Ficamos e seguimos um tanto menos vivos.

Luana Lima é psicóloga (UFBA), doutoranda e mestra em Bioética (UnB), membro-fundadora da Associação Brasileira de Estudo e Prevenção do Suicídio e pesquisadora no Observatório do Direitos Humanos dos Pacientes.

1. NETTO, N; SOUZA, T. Adolescência, educação e suicídio: uma análise a partir da psicologia histórico-cultural. Nuances: estudos sobre Educação, Presidente Prudente-SP, v. 26, n. 1, p. 163-195, jan./abr. 2015
2. FLOR DO NASCIMENTO, W; GARRAFA, V. Por uma vida não colonizada: diálogo entre bioética de intervenção e colonialidade. Saúde Soc. São Paulo, 2011;2(20):287-299.
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