Médico alerta: Cidades desordenadas, seres humanos doentes

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Paulo Saldiva é diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP.

Foto: TV Cultura

27/09/2019

 

No livro “Vida Urbana e Saúde”, o patologista Paulo Saldiva alerta que más condições urbanas são privilégios de cidades pobres e países pobres

 

Por Redação*

No mundo, 54% da população habita a área urbana. No Brasil, esse percentual atinge os 84%. Os dados são tratados no livro Vida Urbana e Saúde – Os Desafios dos Habitantes das Metrópoles, da Editora Contexto, assinado pelo médico patologista Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), que traça os impactos dos problemas da vida urbana para o corpo humano.

Em entrevista para a Rádio Brasil de Fato, Saldiva se despe dos jargões da profissão para trazer de forma simples o que enxergou no exercício de observação desses dois pacientes: o ser humano e a metrópole. Na análise, ele relata que, ao longo da vida, as cidades foram acumulando doenças e disfunções.

“Eu comecei a ver que as artérias que nos conduzem estão obstruídas por trombos metálicos. Existe uma diarreia aquosa para os rios, um uso de energia perdulário, como se fôssemos diabéticos. Não filtramos a água adequadamente, então temos uma insuficiência renal. Quando chove, inunda, faz edema. Quando não chove, desidrata. E, principalmente, uma ação de curta duração, como se fosse um Alzheimer. Como se os neurônios dirigentes esquecessem rapidamente o que foi feito na administração anterior, ou mesmo haviam prometido nas eleições, impedindo ações de longo prazo que possam retornar a cidade a um nível de dignidade e equidade”.

Sem controle

Neste cenário, a saúde não tem muito controle, em sua opinião. “A gente vai bem até o mosquito, e mesmo assim pouco, porque a gente não controla o lixo urbano onde se fazem os criadouros naturais. No máximo é possível pedir às pessoas a tirar a água excedente dos vasos, mas não pedir que limpem os lixos das ruas”.

Ele explica que o desordenamento urbano é uma questão que adoece e a saúde sozinha não pode resolver. “[As pessoas] ou trabalham demais ou perdem tempo demais se locomovendo em distâncias cada vez maiores, por vias cada vez menos fluídas”, destaca o patologista.

O remédio para tratar tais males, em sua avaliação, é investimento público num outro modelo de cidade. “Numa cidade, quando você toma decisões: quem vai ocupar as ruas? Carros ou transporte coletivo? Vai ser pneu ou vai ser trilho? Que combustível vai ser? Não tem consenso. Então, esse consenso precisa ser decidido em cima do bem comum e não de falsas informações”, avalia.

O pesquisador garante que o custo de investimento em uma cidade ordenada é menor do que o ganho obtido, por evitar o adoecimento, os gastos com saúde e as mortes prematuras. “Não tem sentido manter uma cidade como nós temos. Más condições urbanas são privilégios de cidades pobres e de países pobres”.

Mudança à vista

Admirador da cidade, por proporcionar a cultura, o encontro, a mistura “mágica” de pessoas, Saldiva define o território como “ponto de elevação do espírito humano”, mas acredita na possibilidade de obtenção desses recursos oferecidos por ela “com menos sacrifício”.

Otimista, ele enxerga transformação nas condições políticas da sociedade. “Está mudando o espírito das pessoas por uma questão reeducacional. Se você for comparar um jovem hoje, o apego que ele tem por um carro, é muito menor do que tinha há 20 anos. Ele quer usar mais o transporte coletivo ou veículo compartilhado. Está mudando e ela trará uma mudança das condições políticas. A opinião pública está mudando e consequentemente a nossa política vai mudar”.

Membro do comitê que estabeleceu os padrões de qualidade do ar, Paulo Saldiva também integrou o comitê que definiu o potencial carcinogênico da poluição atmosférica, ambos da Organização Mundial de Saúde.

Entrevista: Katarine Flor

Edição: Cecília Figueiredo

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