Atendimento médico em comunidade vulnerável de Fortaleza é prejudicado por burocracia

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São realizados aproximadamente 100 atendimentos por semana a pacientes crônicos, idosos, recém-nascidos e gestantes.

Foto: Arquivo Associação

4/07/2019

 

 

Enquanto posto de saúde da Goiabeiras não é entregue, população quer continuidade da assistência em associação.

 

 

Por Cecília Figueiredo, do Saúde Popular

Uma das quatro equipes da Unidade Básica de Saúde (UBS) Lineu Jucá, na Barra do Ceará, em Fortaleza, que vem oferece há mais de 13 anos atendimento à comunidade Goiabeiras, numa sala reformada da Associação Pequeno Cidadão, vem enfrentando problemas de ordem administrativa por parte da Secretaria Municipal de Saúde. De acordo com moradores, trabalhadores e políticos, a Coordenadoria de Saúde determinou que fosse suspenso o atendimento na associação em razão da ausência de ponto eletrônico na entidade.

A prefeitura assinou em abril passado a ordem de serviço autorizando a construção de um novo posto de saúde em Fortaleza, que funcionará na comunidade Goiabeiras. O equipamento tem previsão de entrega para 2020 e visa desafogar o atendimento de outros serviços como o posto na Barra do Ceará, zona Oeste de Fortaleza.

Negligência

Roberto Ribeiro Maranhão, que é médico desde 2013 da equipe amarela de Estratégia Saúde da Família (ESF) na UBS Lineu Jucá, e responsável por acompanhar a comunidade Goiabeiras, explica que se trata de um território negligenciado pelo Poder Público. Segundo ele, a comunidade reivindica a implantação de uma nova unidade, enquanto isso não ocorre, a assistência e o acolhimento a 3 mil pessoas do Goiabeiras ocorre na Associação Pequeno Cidadão.

“Somente na Associação fazemos em torno de 100 atendimentos por semana, das mais diversas questões. São pacientes crônicos, idosos, recém-nascidos, gestantes, às pessoas de uma maneira geral”, diz o médico da equipe que atua no local.

Francisco Hildon Carlos Pereira, presidente da Associação Pequeno Cidadão, onde funciona a sala de assistência da equipe de saúde, explica que a assistência à população ocorre às segundas, terças e quintas, das 8h às 12h, e mesmo sem uma parceria formal entre a administração municipal e a entidade, o atendimento foi interrompido somente em junho, após a comunicação da coordenadora de saúde de que o ponto eletrônico dos funcionários em atendimento na associação não seria mais abonado.

A parceria da saúde não é documentada com a Coordenadoria [de Saúde] e é por isso que estou achando que há esse impasse”.

Pereira se refere à reativação da assistência na associação, prometida pela Coordenadoria de Saúde da Secretaria Municipal, após a entrega de abaixo-assinado em junho pelos moradores.

Para que não sofram penalizações posteriores, como falta ou desconto de salário, a equipe reivindicou um documento da Coordenadoria de Saúde para respaldar o atendimento na sala da entidade, sem ter descontos no salário ou penalizações futuras. “Ou ainda um ponto eletrônico no posto em construção, que é mais próximo”, sugere o médico de família. No entanto, até o dia 3 de julho este documento não foi enviado pela pasta.

Apesar de neste momento o atendimento ter voltado em função do ponto eletrônico na UBS Lineu Jucá estar com problemas, o líder comunitário disse que os moradores estão chateados com o impasse.

“Tem muita gente idosa [na comunidade], pessoas com mobilidade reduzida. Eu sou um que tenho problema físico e aqui eu posso me locomover com cadeira de rodas, o atendimento é melhor, tem mais espaço do que o posto de saúde. O atendimento é mais humano e organizado”.

O transporte entre a comunidade e o posto de saúde, abastecido por uma única linha, demora 40 minutos, segundo o médico de família e comunidade da UBS Lineu Jucá, Roberto Ribeiro Maranhão, da equipe amarela, responsável pelo território da Goiabeiras, onde estão cadastrados mais de 3 mil pessoas.

A Agente Comunitária de Saúde (ACS) da equipe, Maria Atatian Pereira dos Santos, que atua no atendimento reforça as dificuldades.

“Atendemos aqui na Associação Pequeno Cidadão devido o nosso posto [de Saúde] ser muito longe de nossa comunidade. A Associação nos cedeu uma sala, que a comunidade junto com a equipe [de saúde] conseguiu reformar para deixar em condições de atendimento, que fazemos três dias na semana, segunda-feira é o grupo de puericultura [crianças], na terça-feira o grupo de hipertensos e diabéticos e na quinta-feira, grupo de gestantes”, conta.

Segundo ela, as condições de trabalho na entidade para oferta de assistência são melhores do que no posto de saúde. “Nosso posto [Lineu Jucá] não tem estrutura para todas as [sete] equipes ficarem atendendo. Para ter uma ideia, nesses 16 anos que a nossa equipe está aqui [Associação Pequeno Cidadão] desafoga o posto Lineu Jucá. Os pacientes da equipe amarela vão ao posto para fazer exame, receber remédios ou fazer prevenção, o que agora não está fazendo porque a sala está sem condições”, conta Atatian.

Funcionários da equipe amarela da UBS Lineu Jucá contam ainda que médicos e enfermeiros têm, em algumas ocasiões, que esperar vagar uma sala para atender aos pacientes na UBS.

Histórico

UBS Lineu Jucá, na Barra do Ceará, tem 30 mil cadastrados e prevê 7 equipes de Estratégia Saúde da Família, mas atualmente três delas estão sem médicos, conforme o relato de funcionários. Por ser uma unidade que concentra uma população numerosa, sem espaço físico para assegurar a assistência adequada, a comunidade Goiabeira, uma das mais vulneráveis na zona Oeste de Fortaleza criou sua própria alternativa.

Com uma forte participação popular, segundo o médico e a ACS da equipe, a população reivindicou uma equipe da UBS Lineu Jucá e assim o atendimento passou a ser feito três manhãs por semana na sede da Associação Pequeno Cidadão.

O presidente da Associação Pequeno Cidadão conta que a entidade até o início de 2017 recebia apoio do Poder Público para oferecer oficinas de cidadania e direitos humanos para crianças e adolescentes, em razão do local protagonizar altos índices de homicídios de jovens. Lá funcionavam oficinas de surf, capoeira, dança e música, mas em razão da suspensão do apoio institucional, há dois anos a sede da entidade passou a oferecer somente os grupos de estímulo ao autocuidado, autoestima, promoção de saúde e prevenção de doenças das ACSs com os idosos, além das consultas três vezes por semana.

O médico de família Roberto Maranhão durante campanha de apoio à entidade, em 2017.

Atatian conta que é a comunidade que tem defendido a atuação no local.“Os grandes fiscais desse trabalho é a própria comunidade. Tu achas que se a comunidade não visse a equipe trabalhando, ali de segunda terça e quinta trabalhando, dando o seu melhor, eles iriam defender?”, questiona.

Atuam no território quatro agentes comunitárias de Saúde, um médico e um enfermeiro para cobrir cinco microáreas. Ou seja, além do atendimento nas manhãs de segunda, terça e quinta, na comunidade Goiabeiras, a equipe atende a população de outras áreas na unidade básica de saúde.

Atualização

A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) de Fortaleza informou, por meio de nota enviada um dia após o fechamento da reportagem, que a comunidade das Goiabeiras, atendida pela Unidade de Atenção Primária à Saúde (UAPS) Dr. Lineu Jucá “continua sendo atendida por equipe do Programa Saúde da Família”.

A SMS esclareceu também que “o atendimento extensivo da UAPS se realiza por meio de acordo entre a própria equipe do PSF e a Associação Pequeno Cidadão e que a suspensão temporária dos serviços de saúde naquele local se deu por resistência da equipe em cumprir a determinação administrativa de adesão ao Sistema de Controle de Frequência, ferramenta de gestão implantada pela Prefeitura de Fortaleza que permite maior transparência e qualidade no atendimento dos serviços públicos municipais”.

De acordo com a pasta, “após rodada de reuniões entre a SMS e os profissionais de saúde estes retomaram às atividades realizadas na Associação”.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira

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