Por que o SAMU demora tanto na capital paulista?

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Num dos protestos, organizados pelos trabalhadores do SAMU e Sindsep, intervenção sobre alguns dos problemas causados pela reestruturação.

Foto: Facebook Sindsep/SP

06/06/2019

 

 

Além de problemas crônicos, como a falta de equipes nas ruas, reestruturação feita pela prefeitura aumentou o tempo de resposta.

 

 

Por Marcos Hermanson, para Saúde Popular

Laís Gonsalves Silva Conceição, de 23 anos, foi atropelada por uma motocicleta quando atravessava na faixa de pedestre da rua Doutor Pereira Vergueiro, na Vila Nhocuné, zona Leste de São Paulo. Mesmo com dor intensa pelas fraturas na perna e pé direito, sob forte chuva e sem poder ser removida do local, a jovem teve que aguardar por mais de duas horas até que um veículo de Resgate do Corpo de Bombeiros chegasse, na última sexta-feira (31).

Logo após o acidente, por volta das 20h, a família ligou para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192), mas nenhuma ambulância veio em socorro. Pior: o SAMU informou que “não atende acidentes de trânsito”, segundo Juliana Gonçalves, prima da vítima. Um veículo da Polícia Militar e um caminhão para combater incêndios do Corpo de Bombeiros estiveram no local sem que pudessem socorrer a vítima. Mais tarde, um funcionário do SAMU, de saída do trabalho, estava de passagem e decidiu parar para prestar os primeiros socorros.

Se o acidente tivesse ocorrido antes do dia 25 de fevereiro, o atendimento a Laís talvez fosse mais rápido, mas desde então 31 bases de atendimento do SAMU foram fechadas pela prefeitura. Uma delas situava-se na rua Doutor Nelson Madureira, a 800 metros do local do atropelamento.

Base do SAMU Água Rasa, na zona Leste, fechada este ano. | Foto: André Kuschar

Tempo vale a vida

Andréia Martins é enfermeira na equipe da ambulância SAMU de Suporte Avançado à Vida (SAV), baseada no Hospital Municipal Dr. Cármino Caricchio, conhecido Hospital do Tatuapé. Cada vez mais frequente, ela vê situações em que um tempo resposta menor poderia ter salvado a vida de pacientes nas ocorrências.

“Na semana passada, uma paciente teve um ataque ventricular [ataque cardíaco]. Ela estava ao lado de uma base modular [do SAMU] desativada. E eu vim de outra região, demorei 20 a 30 minutos para chegar. Eu estava sozinha, usei todos os recursos em mãos, mas não conseguimos reverter”. A paciente, segundo a enfermeira, morreu dentro da ambulância, com uma parada cardíaca.

O SAMU da capital paulista dispõe de aproximadamente 1.587 funcionários e atende, diariamente, cerca de cinco mil ligações. Aproximadamente 500 delas se transformam em atendimentos reais, com deslocamento de ambulâncias e equipes.

De acordo com dados fornecidos pela Prefeitura de São Paulo, via Lei de Acesso à Informação (LAI), o tempo médio de demora na chegada do SAMU em ocorrências de alta gravidade – paradas cardiorrespiratórias, por exemplo – é de 24 minutos.

Em casos considerados menos graves, a espera pode chegar a duas horas. Os dados são de 2018, antes da administração municipal implementar a reestruturação do serviço, prometendo diminuir a longa demora no tempo de chegada das ambulâncias.

“A gente não consegue atender todos os chamados assim que eles entram na tela, então nós precisamos classificar de acordo com a gravidade”, diz o médico Laélcio dos Santos, que trabalha na central de regulação do SAMU.

Experiente em Atendimento Pré-hospítalar (APH), Laélcio aponta o tempo-resposta ideal para salvar uma vida. “Para atender bem uma parada cardiorrespiratória, você deve chegar até o local em 12 minutos. Esse é o ideal para todos os serviços de atendimento pré-hospitalar no mundo”, alerta.

Os dados de dezembro de 2018, da tabela, demonstram o dobro do tempo-resposta recomendável para o atendimento de uma parada cardiorrespiratória.

Antes da Portaria nº 190/2019, que instituiu as “diretrizes de descentralização das equipes assistenciais do SAMU”, os “samuzeiros” ficavam em postos separados, preparados especificamente para a rápida saída das equipes. Com a mudança, mais da metade destas bases foram fechadas, e suas equipes foram deslocadas para equipamentos de saúde municipais, como hospitais, assistências médicas ambulatoriais (AMAs), unidades básicas de saúde (UBS) e centros de atendimento psicossocial (CAPS).

Representantes do Sindicato dos Servidores Públicos do Município de São Paulo (Sindsep) argumentam que a mudança pode aumentar ainda mais o já elevado tempo-resposta do SAMU. Por isso, desde o anúncio da “reestruturação”, os funcionários do serviço fizeram sucessivas paralisações parciais na tentativa de reverter o fechamento das bases.

Como resposta, a prefeitura abriu uma mesa de negociações e concordou com a formação de uma comissão mista – entre funcionários e gestores da Secretaria de Saúde – para analisar os novos “pontos de assistência”, apontando deficiências estruturais e falhas decorrentes da mudança.

No período entre 30 de abril e 16 de maio último, 60 locais foram visitados. Segundo a pesquisa do Sindsep, 67% dos funcionários entrevistados relataram que “frequentemente” há “grande atraso” entre a chamada do paciente e o acionamento das equipes, feito pela Central de Atendimento 192.

Ao mesmo tempo, apenas 50% dos pontos de assistência tem todas as ambulâncias funcionando 24h por dia, enquanto que 43% dos profissionais entrevistados disseram que não há facilidade para a saída das ambulâncias.

“No hospital do Campo Limpo, as equipes estão no quinto andar, com tempo-resposta de 10 a 15 minutos. Nossa hora de ouro, quando havia condições de reverter um quadro mais extremo, já foi naquele momento”, explica Andreia.

Ao instituir a reorganização, em fevereiro, a Prefeitura alegava que a alocação das equipes em equipamento públicos de saúde diminuiria o tempo de resposta, pois os pacientes poderiam ser levados diretamente ao mesmo local de onde as ambulâncias partiriam nos próximos atendimentos, mas isso não se confirma na prática. Pelo relatório, 55% das unidades de saúde onde as ambulâncias estão alocadas não recebem pacientes atendidos pelo SAMU.

Lentidão e desorganização

Nos Estados Unidos, uma ambulância demora em média oito minutos para chegar até o paciente. No Equador, essa demora é de 18 minutos. Lá, a meta do Ministério da Saúde é atingir a marca dos 10 minutos. Em um documento do órgão análogo no Chile sobre o Sistema de Atención Médica de Urgencia, os responsáveis estipulam oito minutos como tempo meta de resposta em áreas urbanas.

Além dos efeitos da reestruturação – que levou as equipes do SAMU para locais sem estrutura e, muitas vezes, mal localizados -, os trabalhadores e representantes sindicais ouvidos pela reportagem argumentam que também há problemas com o quadro funcional e com a própria Central 192.

“SAMU SP tem hoje cerca de 250 carros, mas rodando efetivamente temos em média 45 a 60 carros”.| Foto: Divulgação

O médico, que trabalha na central do SAMU, afirma que não há problema com relação ao número de ambulâncias, mas faltam funcionários. “Não faltam viaturas na cidade de São Paulo. O SAMU São Paulo tem hoje cerca de 250 carros, mas rodando efetivamente nós temos em média 45 a 60 carros. Não tem, não rodam mais ambulâncias, carros ficam parados, por falta de pessoal”.

A diretora do Sindsep, Lourdes Estevão, disse que a reestruturação prejudicou a organização trabalho e reforça o diagnóstico apontado por Laélcio sobre o RH. “Falta trabalhador. Falta gente para completar a equipe para ela poder sair. O que nós precisamos é de concurso público, tanto para o SAMU quanto para toda a rede [pública municipal]”.

Estevão aponta que as falhas no fluxo do atendimento das chamadas também são responsáveis pelo aumento no tempo de resposta. “É uma desorganização na [central de] regulação do SAMU, antigamente era mais rápida. [Hoje] O paciente faz o chamado e o chamado fica retido na central. A equipe está de prontidão e não recebe a chamada”.

A sindicalista acrescenta que a demora em preencher todo o questionário, feito pelos funcionários na central com quem pede o socorro, chega em algumas situações a ultrapassar os cinco minutos. “Depois disso, eles vão ver se tem alguma ambulância disponível. Agora imagina: cinco minutos para o questionário, depois o radioperador transmitir isso para a equipe, mais o tempo necessário para a equipe sair”, calcula.

Outro lado

A reportagem do Saúde Popular solicitou informação a respeito de alterações no protocolo de atendimento do SAMU em São Paulo, para a prefeitura, mas até o fechamento desta matéria a assessoria não havia respondido.

De acordo com o site do Ministério da Saúde, já que se trata de programa federal, cabe ao SAMU 192 chegar precocemente à vítima após ter ocorrido alguma situação de urgência ou emergência que possa levar a sofrimento, a sequelas ou mesmo à morte. “O SAMU 192 realiza os atendimentos em qualquer lugar” e pontua: “residências, locais de trabalho e vias públicas”.

“O SAMU 192 realiza os atendimentos em qualquer lugar”, segundo site do ministério. | Foto: Prefeitura de João Pessoa (PB)

 

Edição: Cecília Figueiredo

 

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