O “primeiro mundo” propaga desinformação

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Foto: Pauline Bartolone/Capital Public Radio

19/06/2019

 

 

Estudo mostra que vem de Europa e EUA a maior desconfiança em vacinas; lema feminista “meu corpo, minhas regras” é cooptado em campanha.

 

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

Um estudo lançado ontem mostrou que a confiança nas vacinas é mais alta nos países mais pobres e mais fraca nos mais ricos. A pesquisa foi conduzida pela Gallup e financiada pelo Wellcome Trust; avaliou 140 mil pessoas em mais de 140 países.

A Europa tem alguns dos piores números, com apenas metade das pessoas na porção oriental  do continente e 59% na ocidental concordando “fortemente” ou “de certa forma” com a afirmação de que as vacinas são seguras. Por outro lado, 97% das pessoas em Bangladesh acham que as vacinas são seguras, e esse número permanece alto em todo o sul da Ásia. Na África oriental, o número é de 92%.

E vem da França uma das piores rejeições: naquele país, um terço da população acredita que vacinas não são seguras, e 20% acham que elas não são eficazes. Mesmo assim, o país onde mais pais declararam não vacinar seus filhos não foi a França, mas a China, com 9% do total. Em seguida vem a Áustria (8%) e o Japão (7%). No mundo todo, o percentual é 6%.

“Meu corpo, minhas regras”: o slogan feminista foi usado por Robert Kennedy Jr, conhecido ativista ambiental e antivacinas nos EUA, em uma entrevista na semana passada para justificar sua postura. Os dizeres também têm estampado cartazes em protestos e petições online contra a obrigatoriedade da vacina. O problema, como lembra a Vice, é que a imunização não é uma questão individual, mas de saúde pública – a comunidade só é protegida quando o grupo todo (ou quase todo) se vacina. É o famoso efeito rebanho.

Individualmente, uma das razões para não vacinar é o pavor de efeitos adversos e sequelas (há discussões infinitas sobre isso em fóruns na internet). Mas, nos EUA, dados do programa destinado a indenizar pessoas prejudicadas por vacinas mostram como essas alegações são raras. Nos últimos 12 anos, as pessoas receberam 126 milhões de doses contra o sarampo no país – uma doença que matou de 400 a 500 pessoas por ano. No período, houve apenas 284 registros de danos causados por essa vacina. E só 143 pedidos foram deferidos.

Mais longe do bang bang

A diferença não foi pouca: ontem, por 47 votos contra 28, os senadores votaram pela derrubada do decreto de armas editado por Jair Bolsonaro em maio. Não deram a palavra final, contudo. O texto que torna a canetada presidencial sem efeito precisa passar também pela Câmara dos Deputados. Deve ser votado em comissão, para depois ir a plenário. De qualquer forma, é uma derrota para o governo. E uma tentativa de freio no hábito adquirido pelo presidente de decidir temas complexos por decreto.

Um dos motivos para a derrubada, aliás, é justamente este: os parlamentares sentiram que Bolsonaro atropelou a competência do Legislativo ao assinar um texto que, claramente, vai contra lei aprovada no Congresso e em vigor: o Estatuto do Desarmamento.

Outra razão para o clima insurgente, que pode fazer com que, afinal, o decreto caia pelas mãos dos deputados federais é, ironicamente, um tiro pela culatra dado por Bolsonaro. Ao instar sua base a pressionar os parlamentares pelo “direito” do cidadão de “bem” ter uma arma, o presidente certamente incentivou a onda de ameaças dirigidas a diversos senadores. “Falam que a arma defende a democracia, mas com palavras ameaçadoras querem colocar a população contra nós”, resumiu Rose de Freitas (PODE-ES).

Os escolhidos

Os três mais votados pelos procuradores para assumir a PGR foram: Mário Bonsaglia, subprocurador-geral que concorre pela terceira vez, Luiza Frischeisen, também subprocuradora-geral e única mulher a disputar a vaga, Blal Dalloul, procurador regional considerado um aliado de Rodrigo Janot. A lista tríplice segue para o Planalto.

Mas… Segundo Guilherme Amado, da Época, o nome preferido de Bolsonaro para o comando da PGR não é nenhum desses, mas sim a atual procuradora-geral, Raquel Dodge. E, de acordo com a coluna Painel da Folha, o favorito da família Bolsonaro é o ex-procurador-geral da Justiça Militar, Marcelo Weitzel. Sim, você já ouviu esse nome: Weitzel teria sido a identidade escolhida por um hacker para conversar com o ex-presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República, José Robalinho.

E começou mesmo

Ontem falamos que o MEC nomeou uma reitora temporária que sequer concorreu à eleição da Universidade Federal da Grande Dourados. Alguém poderia argumentar que isso aconteceu porque o processo eleitoral foi judicializado. Pois bem: ontem, o governo quebrou tradição de pelo menos 15 anos e nomeou o segundo colocado na eleição pelo comando da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. O primeiro colocado era Fábio Fonseca, professor de filosofia e ciências sociais que já foi filiado ao PT e ao PSOL. O ministro da Educação Abraham Weintraub preferiu o professor de engenharia Luiz Fernando Resende dos Santos Anjo, vice-reitor na gestão anterior, que não demonstra constrangimento com a nomeação.

Sem domingo, nem feriado

Hospitais, clínicas, casas de saúde e ambulatórios estão entre os estabelecimentos listados na portaria que autoriza, em caráter permanente, o trabalho aos domingos e feriados. A medida deve ser publicada no Diário Oficial hoje e é assinada pelo secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Rogério Marinho. Ele, que relatou a reforma trabalhista quando deputado, repete o mantra de que a autorização vai gerar empregos. A portaria atinge ainda trabalhos relacionados à alimentação de animais destinados à realização de pesquisas para preparo de soro e outros produtos farmacêuticos.

Falando em Marinho, ele declarou ontem que a Organização Internacional do Trabalho, a OIT, precisa ser “completamente reestruturada”. Não é preciso queimar nenhum fusível para adivinhar o argumento: suposto viés político e ideológico.

Pra ficar bem

E vejam só: já faz um tempo que pesquisas associam o fato de uma pessoa estar empregada com uma melhora em sua saúde mental. Mas ainda não se sabia o quanto era preciso trabalhar para ter essa melhora. Um artigo publicado no Social Science and Medicine quantificou: um dia por semana é suficiente. E não há benefício extra na saúde mental quando se trabalha mais do que isso. O resultado veio a partir de entrevistas conduzidas desde 2009 com mais de 70 mil pessoas que forneceram respostas por ao menos dois anos.

Recorde de refugiados

Novo relatório da Acnur, a agência da ONU para refugiados, contabiliza que nada menos do que 70,8 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas em 2018 para fugir de guerras, violência, perseguições políticas e crises humanitárias. É o dobro do número contabilizado 20 anos atrás, e um aumento de mais de dois milhões em relação a 2017.

Temperatura máxima

Se as emissões de gases do efeito estufa continuarem a subir rapidamente, 58% da superfície da Terra terão temperaturas recordes a cada ano, segundo uma pesquisa do Australian Bureau of Meteorology. Vejam só: até o fim do século, uma região inóspita da Sibéria deve se tornar habitável.

Uma foto que está cruzando o mundo mostra sete cães puxando um trenó, mas ao invés de neve, eles andam na água. Foi tirada na Groenlândia, onde a temperatura atingiu a casa dos 17,3º C. E ainda não é nem verão. No mês de junho, a média era 3,2º C. E o verbo é este mesmo: era. A imagem é o avatar perfeito de um mundo sob um regime climático caótico e, quem sabe, um gatilho para que se faça alguma coisa a respeito do aquecimento global.

Terapêuticos

Depois da legalização da maconha medicinal em vários lugares do globo, parece estar chegando  a vez dos cogumelos alucinógenos. Alguns estados americanos já aprovaram a descriminalização do fungo – seus defensores afirmam que há um potencial medicinal inexplorado tão grande quanto o da Cannabis. Até agora, houve estudos sobre seus efeitos em ansiedade, depressão e para parar de fumar e beber. Uma empresa londrina chamada Compass Pathways já realiza testes clínicos em larga escala na Europa e na América do Norte.

E um estudo publicado no Molecules sugere que o canabidiol, que tem sido usado para tratar crianças com epilepsia, é tão prejudicial ao fígado quanto o álcool e outras drogas. Pesquisadores da Universidade do Arkansas analisaram o efeito em camundongos, administrando doses diferentes a grupos diferentes. Os que receberam doses mais altas apresentaram sinais de danos no fígado em 24 horas, e, em poucos dias, 75% destes haviam morrido ou estavam à beira da morte.

Consciente

A OMS lançou ontem uma campanha global convocando os governos a adotarem um instrumento para reduzir a resistência antimicrobiana. A ferramenta, chamada AWaRe, classifica os antibióticos em três grupos – acesso, vigilância e reserva – e especifica quais devem ser usados para as infecções mais comuns e graves; quais devem estar disponíveis em todos os momentos no sistema de saúde; e aqueles que devem ser usadas com parcimônia ou preservadas e usadas apenas como último recurso.

Duas boas notícias

Pesquisadores do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) obtiveram sucesso em estudo que combinou uso de medicamento quimioterápico e vírus modificado geneticamente para combater câncer de próstata em camundongos. Segundo eles, a associação deixou as células tumorais mais sensíveis ao tratamento, reduzindo a carga de quimioterapia necessária. Na próxima fase da pesquisa, o objetivo é verificar se a terapia pode evitar o risco de metástase.

E, na Universidade Estadual Paulista, em Botucatu, foi desenvolvido um método cirúrgico que recupera a capacidade de ereção em homens que tiveram de retirar a próstata. Os médicos conseguiram ligar nervos responsáveis pela sensibilidade do pênis. Dos 63 pacientes que se submeteram ao procedimento, 60% tiveram recuperação completa das funções sexuais. O restante relatou melhora.

Relatou ameaças

Na semana passada, falamos por aqui da CPI da Fundação para o Remédio Popular, a Furp, ligada ao governo paulista. Ontem, o operador de empilhadeira que fez a denúncia que levou à abertura do inquérito disse ter recebido ameaças às vésperas de depor na CPI.

 

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