Mais de 22 mil educadores municipais foram afastados por sofrimentos mentais em 2018

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“É uma categoria que está ameaçada”, afirma a presidente da Anamt.

Foto: Arquivo Saúde Popular

12/06/2019

 

 

Uma média diária de 62 afastamentos médicos, decorrentes de estresse, depressão, ansiedade e síndrome do pânico.

 

 

 

Por Redação*

Passa de 22 mil o número de afastamentos por transtornos mentais entre professores e outros servidores da Secretaria Municipal da Educação, em 2018. O dado foi divulgado no dia 10 de junho, em reportagem do jornal Agora São Paulo, que obteve um levantamento exclusivo obtido via Lei de Acesso à Informação (LAI).

Foram concedidas, em média, 62 licenças médicas a educadores municipais da gestão Bruno Covas (PSDB) por problemas de estresse, depressão, ansiedade e síndrome do pânico, entre outros problemas que atingiram a saúde mental.

Como comparativo, também no ano passado, a Polícia Militar (PM) concedeu dois afastamentos por dia, em média, por problemas psiquiátricos, no estado.

De acordo com a reportagem, Educação municipal e PM têm tamanhos semelhantes –ambas com aproximadamente 82 mil integrantes cada e é a determinação médica que define os afastamentos nos dois casos.

Afastamentos decorrentes de sofrimentos mentais, conforme especialistas ouvidos, não são de apenas um dia, mas de longa duração. Em casos que demandarão mais tempo, precisam do aval de peritos da Cogess (Coordenação de Saúde do Servidor), responsável por validar as licenças.

E nem sempre os trabalhadores retornam para as funções de origem, mas acabam readaptados – exercendo outros cargos, não mais em sala de aula, por exemplo.

Os transtornos mentais podem levar tanto às explosões em sala de aula quanto à “implosão” do indivíduo, como o ocorrido neste mês com uma professora de uma escola estadual em Carapicuíba (Grande SP), onde alunos acabaram apreendidos por ofenderem a educadora e atirarem, entre outros, carteiras.

Professores que adquiriram depressão ou síndrome do pânico por lecionarem em três turnos, para compensar o baixo salário pago, são alguns dos exemplos que a reportagem traz.

Impactos da readaptação

A readaptação não é a saída desejada para muitos educadores. Para alguns traz o desencanto, para outros a redução da renda familiar e/ou os dois problemas num só tempo.

Para Márcia Bandini, presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), o levantamento do jornal desperta preocupação. O fato de quase a totalidade das doenças mentais diagnosticadas serem relacionadas com transtornos do humor ou ao estresse são agravantes.

“Os números são alarmantes e estão alinhados com a realidade que a gente observa por meio de relatos, notícias de violência, desvalorização e precarização. É uma categoria que está ameaçada”, afirma a presidente da ANAMT ao jornal.

Segundo a médica, a precarização do trabalho afeta diretamente categorias como a dos professores, pelo “comprometimento quase vocacional” com o serviço.

O cenário de pobreza, desnutrição e violência doméstica exposto aos professores nas salas de aula é outro agravante para os educadores. “Tem uma situação de violência na própria escola. É um ciclo perverso de adoecimento mental. O professor quer fazer bem feito, não consegue e encontra situações desafiadoras, contra as quais não tem condição de reagir”, diz a médica.

A especialista fala que o presente também não colabora com a saúde mental dos professores. “O Brasil meio que perdeu a estratégia de desenvolvimento da educação. Um terreno frágil se torna ainda mais pantonoso com corte de verbas e mais condena o professor do que o incentiva”, diz.

Para o professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Nelson Fragoso, a pressão é muito grande, mas o professor precisa separar a vida profissional da pessoal e não tomar para si todos problemas.

Prefeitura

Já a administração Bruno Covas (PSDB) informou ao jornal que a Secretaria de Gestão constituiu um grupo de trabalho intersecretarial para discutir causas e soluções para diminuição de afastamentos.

“Em comparação entre 2017 e 2018, o índice caiu de 7,31% para 6,09%, representando economia de R$ 101.857.339,00”, afirma, em nota.

A gestão diz entender a natureza do trabalho do professor e seus desafios, “especialmente quanto ao contato direto com crianças e adolescentes”. Segundo a prefeitura, é por isso que a Cogess faz encontros com diretores de escola, programas de promoção à saúde, e de orientação aos readaptados.

* Com informações do jornal Agora São Paulo

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