Osmar Terra diz que pesquisa Fiocruz “tem viés ideológico de liberação das drogas”

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Ministro da Cidadania diz que levantamento deve se basear em evidências.

Foto: Fiocruz

29/05/2019

 

 

Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas, feito durante três anos, envolveu 500 pesquisadores e mais de 16 mil entrevistados.

 

 

Por Redação*

Entre 2014 e 2017, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) desenvolveu o 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, com financiamento de R$ 7 milhões do total de R$ 8 milhões disponibilizados pelo edital do governo federal. O estudo ficou pronto no final de 2017, a prestação de contas foi enviada ao órgão financiador em junho de 2018, mas o levantamento foi engavetado e, por enquanto, não pode ser divulgado. Uma cláusula no contrato diz que a pesquisa só pode ser publicizada com a autorização da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), órgão ligado ao Ministério da Justiça responsável por encomendar o levantamento.

Para o ministro da Cidadania Osmar Terra, a validade científica do estudo é questionável. Em entrevista ao jornal O Globo, publicada na última terça (28), o ministro declarou que a Fiocruz: “é prestigiada para fazer vacina, para fazer pesquisa de medicamento. Agora, para droga, ela tem um viés ideológico de liberação das drogas”. O ministro disse também, na mesma entrevista, não confiar na Fiocruz. “Temos que nos basear em evidências”.

O estudo traz dados do consumo de substâncias lícitas e ilícitas no Brasil. Coordenado por Francisco Inácio Bastos e Neilane Bertoni, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT) da Fiocruz, o levantamento contou com a participação de pesquisadores de outras unidades e instituições, com apoio da Fiotec (Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde). Trabalharam no estudo 500 pesquisadores e técnicos, 351 cidades foram contempladas no levantamento, 16.273 entrevistas realizadas, na pesquisa que resultou em 520 páginas.

A Fundação informou que respeita o edital e não divulgará o relatório antes da aprovação do órgão, mas que acionou a Advocacia Geral da União (AGU) para realizar o intermédio de ‘conflitos entre órgãos públicos’.

Vai-se decidir se a pesquisa será divulgada com a chancela da Senad, ou rejeitada. Neste caso, a Fiocruz pode ter de refazer o estudo ou devolver os R$ 7 milhões ao governo.

Recentemente vitorioso pela aprovação no Senado de seu próprio projeto de lei que altera a Política Nacional de Drogas no Brasil, Osmar Terra insiste na tese da ‘epidemia de drogas’ e, aparentemente, teme ser desmentido com os dados analisados pela Fundação Oswaldo Cruz.

Solidariedade

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) manifestou, em nota, sua solidariedade com a equipe de pesquisadores responsável pelo 3° Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira da Fiocruz. “Pesquisadores de diversas áreas do conhecimento científico, gestores do Sistema Único de Saúde e profissionais da saúde de nosso país reconhecem a contribuição da área da Saúde Coletiva para a identificação e dimensionamento dos problemas de saúde da população brasileira. O mencionado levantamento reafirma esta atuação, que busca subsidiar tanto a elaboração quanto a implantação de ações, programas e serviços de saúde capazes de enfrentar tais problemas adequadamente”.

Conforme a nota, “não é possível reagir com indiferença às afirmações que questionam a conduta de pesquisadores e de uma instituição como a Fiocruz”.

A Abrasco reafirma a defesa dos pesquisadores e instituições de ensino e pesquisa. Também “convoca a comunidade da Saúde Coletiva a participar, com engajamento ainda maior, da resistência aos sucessivos ataques à pesquisa científica e ao ensino superior do nosso país”.

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