Na sala de espera, declamação de cordéis ajuda a popularizar a medicina

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Luiza Alves, 28, amamenta o filho enquanto aguarda atendimento.
Foto: Alana Soares/Saúde Popular

07-05-2019

 

Estudantes de medicina recitam versos, encantam e informam mulheres que aguardam atendimento em Centro de Saúde Materno Infantil em Barbalha (CE)

 

Por Alana Soares, especial para o Saúde Popular

Depois que aprenderam a rimar, metrificar e dar coesão às estrofes, escrever e declamar cordel se tornou a paixão desses estudantes de medicina. Há três anos, eles fazem parte do projeto “Cordel e Saúde”, coordenado pela professora doutora em biologia molecular e cordelista, Sally Lacerda, da Universidade Federal do Cariri, em Barbalha, no Ceará.

Com acervo de 40 cordéis originais, a cada semana o projeto visita uma unidade de saúde para declamar os versos temáticos e conversar sobre saúde e cuidados com o corpo com a população. Fomos acompanhar uma destas ações e ver de perto como o “cordel do doutor” pode impactar no cotidiano das pessoas.

Eram quase 8 horas quando eles chegaram ao Centro de Saúde Materno Infantil, murmurando entre si, para depois sacar sorrisos e um “bom dia” em voz alta às pacientes de cara fechada, que lá estavam desde as 6 horas aguardando consulta.

Enquanto enfermeiras andavam para lá e para cá e atendentes chamavam a próxima pessoa para a sala de consultas, os estudantes se espalharam na tentativa de conversar com as pacientes, em sua totalidade mulheres, grávidas ou com crianças de colo.

Foto: Alana Soares/Saúde Popular

Liderando o grupo, Gabriella Moreira, 21, aproveitou uma roda de mulheres e pediu licença para falar sobre a relação da diabetes gestacional, aleitamento e saúde bucal. O bate-papo informativo é o primeiro momento. Logo o assunto interessou as mulheres, que voltaram seu olhar para a moça. Gabriella falou em imunidade, tipos de doenças relacionadas, cuidados e prevenções necessários, desvendou mitos populares e fez perguntas para interagir.

Observando a colega em ação, Ítalo Constâncio, 20, explica a estratégia: “A gente senta com eles, sem jaleco, sem jargão técnico e com o cordel em mãos – que é uma coisa absolutamente nordestina e nossa -, que aproxima muito. Recitamos o cordel. O contato é horizontal. Olhos nos olhos. Fazemos perguntas e pedimos experiências”.

Como a medicina tradicional, com suas palavras e conceitos difíceis, ainda se mantém distante e quase inatingível para grande parcela da população, o projeto busca métodos para torná-la popular. Daí vem o cordel, a roda de conversa, a declamação, o olho no olho. “A popularização em saúde é importante justamente por isso, para criar um vínculo entre a equipe de saúde e o usuário”, Ítalo ressalta.

A declamação do cordel começa. A atenção se volta para ele. Naquela manhã o tema foi aleitamento e o texto, falado em voz alta, unia características da cultura regional com ciência e saúde. Até Padre Cícero foi reivindicado. De folheto em mãos, as mulheres na sala de espera acompanharam a leitura.

Bem melhor que o mingau
O aleitamento materno
Traz benefício eterno
É a opção ideal
Tem um efeito especial
Ajuda na digestão
Protege de infecção
Tem tanta da vitamina
Que você nem imagina
Ajuda inté na dentição
Trecho do cordel “Aleitamento Materno”.

Pouco tempo depois, o debate já está colocado. As mulheres conversam entre si sobre a necessidade e a importância do leite materno nos primeiros meses de vida do bebê. “Acho que a mãe deve pensar primeiramente na saúde do filho, né? E não dá leite (artificial) , mas o peito até a criança rejeitar”, comenta Luana Carla de Sousa, 25, sobre a prática. “Às vezes dá-se o leite (artificial) sem orientação médica e a criança acaba adoecendo. E quem se prejudica depois não é a mãe?”.

Larissa de Souza, 24, está na primeira gestação e ouviu a conversa e declamação à distância | Foto: Alana Soares/Saúde Popular

A gestante Amanda Valéria, 24, também acompanhou de perto a conversa. Ao final, avaliou positivamente: “Eu já sabia de algumas coisas que eles falaram, mas é bom e importante trazer para outras pessoas que não tem conhecimento dessas coisas.”. “Ela (a estudante) falou sobre a diabetes gestacional e como eu tenho policistos, perguntei se por isso eu iria desenvolver a diabetes e ela explicou que não. Eu não tinha noção disso. É interessante. Ter mais conhecimento”, disse Amanda, que admite ser curiosa e fazer muitas perguntas ao médico sempre que vai ao pré-natal.

Diferentes assuntos são abordados nos cordéis: saúde bucal, menopausa, depressão, hipertensão. A ideia é falar fácil sobre assuntos recorrentes à população | Foto: Alana Soares/Saúde Popular

Toda a ação dura entre 30 minutos e uma hora, podendo levar mais tempo quando o grupo é mais curioso ou são muitas pessoas e a declamação precisa ser feita para dois grupos. “Para mim foi incrível, uma experiência maravilhosa de ver realmente as mulheres interessadas sobre o que estávamos falando”, declara a estudante Gabriella. “Nosso objetivo aqui é fazê-las entender todo o processo da doença. Percebemos que a partir do cordel, com uma linguagem mais acessível, seria melhor para elas entenderem”, atesta a eficácia.

Quem também ficou satisfeita foi a enfermeira-chefe Maria Darcilene, 45, que viu tudo de perto. Mestre em Educação e Saúde e responsável pelo projeto de Saúde da Mulher naquela unidade, Darcilene caracterizou como “excelente” a iniciativa e não poupou elogios: “Eu achei belíssimo e fiquei encantada com o cordel que vi hoje. Impressionada. Isso faz a grande diferença na vida das pessoas. Alegria de você pode trazer algo novo, diferente e ao mesmo tempo extremamente acessível. A gente sabe que às vezes sabemos muito e temos dificuldade na transmissão e como chegar no outro”.

Para ela, o projeto representa na prática o que a teoria da Educação e Saúde ensina: promover saúde em uma troca de experiências e conhecimentos, ensinando e, ao mesmo tempo, aprendendo com o paciente. O toque especial fica pelo instrumento: o cordel, que “faz com que as pessoas se interessem. Tem uma abordagem totalmente simplificada. Ele é agregador. Traz afinidade”, comenta ainda encantada.

Ao final, a vovó Maria Alice, 61, foi agradecer a futura médica. “Ah, eu gostei, viu?”. Ela havia visto tudo, caladinha. “Gostou mesmo? Deu para entender o que estávamos falando?”, Gabriella pergunta. “Entendi e é muito bom mesmo. Aprendi, vou sair aprendendo e dizendo para as vizinhas”.

Gabriella Moreira, Elaíne Apolinário e Ítalo Constâncio, membros do projeto Cordel & Saúde | Foto: Alana Soares/Saúde Popular

 

Edição: Daniela Stefano

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