Vizinhos do agronegócio, acampados tem que esperar até outubro para poder plantar feijão 

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Maria Moureira, do acampamento Dom Tomás Balduíno, foi quem trouxe para Formosa os primeiros oito caroços de feijão Jalo Roxo, de Minas Gerais.

Foto: Simonny Santos

4/04/2019

 

Além do feijão, acampamento Dom Tomás Balduíno também trabalha com outras variedades de sementes crioulas.

 

Por Simonny Santos em Formosa (GO), para o Brasil de Fato

Todo ano, os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), esperam a chegada das primeiras chuvas da primavera para lançar as sementes crioulas do feijão Jalo Vermelho sob as produtivas terras do acampamento Dom Tomás Balduíno, em Formosa, a 84 quilômetros da Capital Federal.

Eles precisam esperar até outubro para iniciar a plantação, pois são vizinhos de um grande produtor de soja, que utiliza agrotóxicos em sua lavoura para combater a mosca branca, e, com isso, a praga se alastra para as terras dos acampados. Após testes, os pequenos produtores identificaram que para garantir a pureza da semente crioula, o momento ideal para o plantio é antes do início do cultivo da soja.

Maria Moureira, dirigente da área I do acampamento Dom Tomás, explica que a distância de 10 quilômetros não é o suficiente para deixá-los livres dos problemas causados pelo agronegócio.

“Quando eles plantarem a soja e baterem o veneno, mesmo tendo a distância, a praga vem e ataca. Se nós plantarmos nessa época, nós fizemos o teste durante o tempo que estamos aqui e constatamos que não tem a praga, então dá uma boa colheita. Não trabalhamos com adubo e nem com veneno porque aqui não há necessidade”.

As primeiras sementes do feijão Jalo Vermelho vieram de uma feira de troca de sementes crioulas, realizada em Uberlândia, no interior de Minas Gerais, em 2017. A princípio, foram levados oito caroços para o Dom Tomás, e hoje a colheita gira em torno de 300 litros de feijão. Parte da produção fica para consumo interno dos acampados e o restante é guardado para um novo plantio. Eles também reservam uma quantidade para levar aos eventos de troca de sementes puras. Enquanto os trabalhadores vivem um impasse na regularização das terras, o feijão não pode ser destinado às vendas, mas o objetivo é que quando acontecer a liberação formal por parte da justiça, eles consigam expandir a produção e os alimentos garantam a renda das famílias.

Foi o senhor Jair Gomes que plantou o feijão no primeiro ano e exceto pelos riscos da mosca, o Jalo Vermelho “se adaptou bem à região, só que a gente planta ele na primeira semana de outubro, por conta da soja que pode transmitir a praga. Ele não é plantado juntinho não, ele é 40cm/40cm”, conta o agricultor.

Também conhecido como Jalo Roxo, essa variedade de feijão possui mais massa e é muito utilizado em sopas e saladas nas cozinhas paulista, mineira e goiana.

Sementes crioulas

Além do feijão, o acampamento Dom Tomás Balduíno também trabalha com outras variedades de sementes crioulas, como milho, cana, amendoim etc.

“A obrigatoriedade da semente crioula para nós aqui do campo é o resgate da qualidade. Como a semente crioula não tem química, você está se alimentando com mais saúde”, defende a acampada Julieta Gomes.

As sementes agroecológicas possuem um grande valor histórico, cultural e social e são passadas de geração para geração. Elas são parte do patrimônio de diversos povos que resgata, conserva e valoriza as variedades, mantendo a agrobiodiversidade adaptada a cada região.

 

Edição: Daniela Stefano

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