Trabalhadores do SAMU podem manter greve contra a reestruturação imposta por Prefeitura

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“Cada umas das 53 bases do SAMU abrigava 2 ou 3 equipes, enquanto os novos pontos de assistência dispõem de apenas uma equipe”, denunciam trabalhadores.

Foto: André Kushar 

10/04/2019

 

 

Plano de reorganização do serviço na capital gera a paralisação de 50% dos trabalhadores do SAMU, segundo Sindsep

 

 

 

Por Marcos Hermanson, para Saúde Popular

Das 80 ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) que atualmente circulam na cidade de São Paulo, apenas 45 estavam nas ruas para o socorro de chamados de urgência e emergência nas últimas 48 horas e deve se manter nas próximas horas. Motivo: a reestruturação nas bases do SAMU imposta pela Prefeitura de São Paulo e à falta de negociação por parte do prefeito Bruno Covas (PSDB).

Atualmente o SAMU, programa federal de atendimento móvel de urgência instituído pelo governo Lula há exatos 15 anos, atende 5 mil ligações diárias na cidade de São Paulo e encaminha até 600 veículos para atendimento na capital, isso inclui de paradas cardíacas, solapamentos, acidentes de trânsito, até crises psiquiátricas com riscos de morte.

Um médico que trabalha em Atendimento Pré-hospitalar desde 1996, e está no SAMU desde a formalização do programa, conta que o desfalque nas equipes do serviço faz com que muitos veículos não circulem. A denúncia já foi motivo de averiguação da Controladoria Geral da União (CGU) entre os anos de 2014 e 2015.

Os problemas foram intensificados pela Portaria 190, assinada pelo prefeito Bruno Covas (PSDB), publicada em 22 de março, por meio da qual a Prefeitura extinguiu 31 das 55 bases do SAMU na cidade, realocando equipes para 75 equipamentos públicos de saúde, como hospitais, Ambulatórios de Atendimento Médico (AMA) e unidades básicas de Saúde (UBS).

Em entrevista ao portal G1, o coordenador da regulação do SAMU no município, Marcelo Takano, argumentou que a mudança traria melhoras significativas no atendimento das ocorrências, aumentando o número de ambulâncias em serviço de 80 para 122 e “otimizando” as escalas de trabalho.

Essas alegações são questionadas pelos trabalhadores em greve. Segundo eles, cada umas das 53 bases do SAMU abrigava 2 ou 3 equipes, enquanto os novos pontos de assistência dispõem de apenas uma equipe. Eles também argumentam que a realocação pode criar “vazios assistenciais”, ao mesmo tempo em outras áreas ficariam com excesso de viaturas disponíveis.

Prejuízos ao trabalhador

Glauce Fernandez trabalha na base do SAMU da Vila Isa, região sudeste da capital. Mãe solteira, ela mora em Guarulhos, a 35 quilômetros do trabalho, e reclama da reorganização.

“Interferiram diretamente na nossa vida particular, tirando a nossa possibilidade de possuir um outro vínculo empregatício. Cerca de 80% das funcionárias [do SAMU] são mulheres e arrimos de família, assim como eu”.

No entanto, a técnica afirma que se recusou a assinar a imposição feita pela gestão Covas, de mudança de base. “Permaneci no Jardim Isa porque fui uma das pessoas que não quiseram assinar a imposição feita pela direção do SAMU. Não sei até quando [permaneço], mas para mim seria inviável qualquer unidade que não seja lá”, ressalta.

Sindicato

O presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep-SP), Sérgio Antiqueira, destaca que a alteração foi injustificada e sem critérios.

“Reorganizaram as equipes sem critério, sem justificativas, para locais que não tem as condições das equipes estarem”.

Segundo Antiqueira, tratam-se de locais inadequados para a utilização. “Locais que não funcionam durante o período da noite, onde eles – que tem contato com sangue, urina, fezes – não podem fazer higiene [própria], de suas ambulâncias e de seus equipamentos”.

Risco de mais mortes

Outro problema dos novos locais é a falta de celeridade na saída para um chamado, em função de ter pessoas circulando próximas, o que poderia causar atropelamentos e outros acidentes. “Um dos exemplos é o Hospital do Campo Limpo, onde o entorno tem carros o tempo todo, dificultando a saída, e a maioria dos lugares é assim. Tem lugares em que [eles] tem que validar tíquetes de estacionamento…” , completa o dirigente sindical.

Recentemente, o diretor de comunicação do Sindicato dos Médicos do Estado, Gerson Salvador, disse em reunião da Comissão de Saúde da Câmara Municipal de São Paulo que a principal preocupação é que a reorganização leve a um aumento no número de mortes. “A cada minuto nós perdemos 10% de chance de salvar uma vida em uma ocorrência grave. Após 10 minutos, a chance de salvar uma pessoa infartada é zero. A prefeitura chama de reorganização, mas é um desmonte”, explicou.

Em audiência realizada, nesta terça-feira (10), no Salão Nobre da Câmara Municipal, representantes do sindicato apresentaram fotos destes novos pontos de assistência, para onde os funcionários do SAMU foram alocados. A maioria dos pontos tem graves problemas de estrutura: falta de espaço, ausência de áreas de descanso e chuveiro, fiação exposta e barulho excessivo são alguns deles.

Ponto de Assistência do SAMU na AMA Capão Redondo (foto: Sindsep) 

Paralisação atinge 50%

Ainda nesta terça-feira, após a audiência na Câmara de Vereadores, os grevistas devem se reunir novamente para decidir se o movimento seguirá por mais um dia. Segundo informações do Sindsep, a paralisação atingiu 50% da categoria, sem que os atendimentos de média e alta complexidade ficasse prejudicado.

“Em nenhum momento os profissionais querem fazer greve. A paralisação é para que o governo nos ouça, porque até agora só foram feitas imposições. Nós que somos do SAMU trabalhamos com paixão. Tem muito amor envolvido, porque o salário em si não cobre as necessidades dos profissionais. Em nenhum momento a gente quer prejudicar a população”, salienta a técnica de enfermagem.

Outro lado

Até o fechamento da matéria, a Secretaria de Saúde da Prefeitura de São Paulo não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem a respeito da “eficiência” que a Portaria 190 produzirá para o serviço, conforme afirmado por agentes da gestão municipal. Também não houve resposta se haverá aumento da frota de ambulâncias, contratação de equipes do SAMU e providências com relação aos problemas nas novas bases, que são denunciados pelo Sindsep-SP.

Edição: Cecília Figueiredo

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