Agroecologia torna unidade do Cras em Florianópolis (SC) mais agradável e acolhedora

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Madalena, Emelda e Santalina botam a mão na terra e ajudam a tornar CRAS Capoeiras mais acolhedor.
Fotos: Bob Barbosa
06/03/2019

Usuárias se aproximam do Cras e adquirem sentimento de pertencimento ao trabalhar em horta agroecológica

 

 

Por Bob Barbosa, para o Saúde Popular

No bairro de Capoeiras, em Florianópolis, capital de Santa Catarina, os princípios da agroecologia vem sendo implementados para tornar um Centro de Referência de Assistência Social (Cras), num lugar mais agradável e acolhedor aos usuários e usuárias.

Alvira Bossy, psicóloga da unidade, lembra que em volta do terreno “acabava acumulando lixo, juntando caramujos, e gerava um mal-estar para as pessoas que a gente atendia aqui, porque elas chegavam e tinham que atravessar um mar de lixo e de entulho.”

Diante do desafio de transformar esse espaço, a equipe do Cras Capoeiras convidou uma ONG que atua com agroecologia e usuários e usuárias da unidade, para que juntas botassem a mão na massa, ou melhor dizendo, na própria terra.

Madalena de Lima, moradora da Vila Aparecida, foi uma das usuárias que atendeu ao chamado e participou da mobilização. “Foi combinado com o pessoal aqui da Assistência Social da gente fazer uma horta e a jardinagem, pra ficar mais bonita a frente do Cras, que era meio feio, não tinha muita vida. E aí a gente começou pela jardinagem e depois surgiu a história da horta. A gente ajudaria a plantar e cultivar.”

Para capacitar as pessoas que trabalham ou que são usuárias deste Cras, a ONG Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro) realizou, no ano passado, uma oficina que despertou ainda mais o interesse pela agroecologia.

A engenheira agrônoma Karina de Lorenzi foi uma das integrantes do Cepagro que colaborou na condução da oficina. “No primeiro momento nós fizemos uma conversa, explicando de forma bem simples o que é agroecologia e demos exemplos inspirados na própria natureza e como isso seria aplicado na nossa prática da horta. Como é que seria com o cuidado do solo, porque há diversidade das plantas que usaríamos e explicando a função de cada uma.”

Desde então, vem aumentando o interesse das pessoas que utilizam o Cras que querem participar e cuidar da horta agroecológica, dos canteiros de flores e da compostagem, que agora fazem parte do cotidiano da unidade. “Então a horta agroecológica foi uma forma de fazer com que as pessoas ajudassem a construir esse espaço. E cuidando desse espaço, cuidariam das relações delas com o espaço que frequentam, até mesmo as relações de cidadania”, explica a psicóloga Alvira.

Oriunda de uma comunidade rural, mas hoje morando em Capoeiras, Emelda Tiel sente-se em casa quando entra no Cras. “Um ano que eu estou aqui, mexendo na terra, eu sou acostumada, mas aprendi muita coisa com as amigas. Ajudei a plantar couve, flores, nos vasinhos. Planta-se de tudo um pouco ali dentro, o que gostar a gente pega, todo mundo pode pegar.”

Já Santalina de Oliveira, moradora da Vila Aparecida, gosta mais de cuidar das plantas medicinais. “Eu trouxe quatro, cinco mudas de remédio e daí fomos fazendo os vasos e botando o nosso nome, e daí nós fomos dependurando ali e foi onde que nós começamos a fazer o grupo.”

Os vasinhos a que Santalina se refere ficam expostos na entrada do Cras e trazem cada um o nome de uma usuária, conforme cada planta trazida por elas. Madalena também trouxe a sua muda: “A gente morava em sítio e a gente gostava muito de escorregar com aquela cachopa de coqueiro, então coqueiro representou muito a minha infância, aí eu trouxe o pé de coqueiro. Foi um arranjo muito bonito.”

Segundo Alvira, é esse um dos objetivos das intervenções no espaço: “A gente tem exposto tudo o que a gente tem feito. A gente coloca a plaquinha e diz: essa foi uma Oficina de Memórias através das plantas. As pessoas leem o que é aquela atividade e percebem que isso, de certa forma, gera um processo de reflexão nelas também.”


Liliana Becker e Alvira Bossy, psicólogas do Cras Capoeiras

A agrônoma Karina considera o potencial que iniciativas como esta têm para serem aplicadas noutros espaços. “A gente viu que a importância da ocupação de espaços públicos como este vai além da horta. A agroecologia traz esse resgate de antigas práticas, trazendo o sentimento de identificação pra muitas pessoas. E quando elas próprias tem a chance de construir juntas um espaço como este, favorece o sentimento de pertencimento daquele lugar. Então elas vão ter mais cuidado, vão estar indo de vez em quando pra olhar, pra regar, vão querer deixar o espaço bonito.”

Na perspectiva de ajudar os usuários do Cras a serem mais conscientes dos seus direitos, Alvira considera que “é muito difícil, às vezes, você falar para as pessoas que elas têm que ser protagonistas, que elas têm que defender os direitos delas. Mas quando você oferece uma coisa concreta, por exemplo, os princípios da agroecologia ali numa horta, de que forma você pode produzir o seu alimento e não agredir o meio ambiente. Então essa horta propicia tudo isso porque você pode desenvolver várias habilidades na prática.”

Na área externa do prédio do Cras, em meio aos pequenos e espalhados cultivos de cravo, cravinha, babosa, funcho, lavanda, girassol, losna, berinjela, pimenta, beterraba e couve, que, de vez em quando, usuários e usuárias podem levar para suas casas, Madalena conta que colhe mais do que verduras e ervas: “Antes dos dias das atividades a gente se comunica, é uma família mesmo. E a gente fica feliz quando tem as reuniões, é maravilhoso mesmo, a gente tem assim é uma liberdade incrível, da gente ter esse grupo, essas amizades.”

 

Edição: Dani Stefano

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