“A vida perdeu o valor; a solução é coletiva”, diz psicóloga

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“A solução é coletiva. A gente tem que reverter isso, nessa questão de olhar para o outro, porque todos sofremos essa situação.

Foto: Wanderley Costa/ Prefeitura de Suzano

19/03/2019

 

 

Na opinião da especialista é preciso dar condições estruturais para que todas as pessoas possam viver com qualidade.

 

 

Por Michele Carvalho, do Bem Viver

Ex-secretária de Saúde dos municípios de Itaquaquecetuba e Ubatuba, mestre em Psicologia Social, com especialização em Gerência Serviços de Saúde pela Faculdade de Saúde Pública da USP, Creuza Santos classifica como “absurda” a proposta de liberação de posse de armas para evitar tragédias como a ocorrida na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), no último dia 13 de março.

“Quando a gente tem um caso de risco de suicídio, a coisa primeira que a gente faz é pedir para tirar todas as coisas que ofereçam risco da pessoa tirar a vida; qualquer arma”, orienta a psicóloga.

O ato em Suzano, que deixou ao todo dez mortos, promoveu comoção nacional e discussões a respeito da violência em escolas no país. O senador Major Olímpio (PSL-SP) declarou que, se os professores estivessem armadas, teriam evitado a tragédia.

Para Creuza, que ajudou na formação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com a implantação de três Centros de Atenção Psicossocial (Caps), quando diretora da Secretaria de Saúde de Suzano (2005-2012), a “solução” para superar o avanço da violência “é coletiva”.

Na entrevista ao Programa Bem Viver, Creuza avalia o momento que o País atravessa de “desvalorização da vida”, da carência de investimento em políticas públicas, mas também da necessidade de enxergarmos “o pedido de socorro no outro, porque todos estamos vivendo as consequências”.

Confira a seguir trechos da entrevista:

Bem Viver: Diante de uma tragédia como foi o ataque à escola em Suzano, como a sociedade supera isso, tanto a comunidade escolar próxima, como nós que assistimos?

Creuza dos Santos: A solução é, de fato, quando as pessoas começarem a se aproximar mais umas das outras. A solução é coletiva. A gente tem que cuidar do outro. Isso é o que cada vez tem acontecido menos. A gente tem que reverter isso, nessa questão de olhar para o outro, perceber o sofrimento do outro, e nos ajudarmos [mutuamente]. Porque, na verdade, todos sofremos essa situação.

A solução passa por aí e as famílias terão de ser amparadas nesse sofrimento sem tamanho. É super importante que tenha um amparo profissional, mas também solidariedade social, que a comunidade ampare, fique junto, [ofereça] uma aproximação, solidariedade e [que haja] um trabalho conjunto, inclusive de políticas públicas para que as pessoas retomem suas vidas; acreditem de novo.

E quanto ao pessoal que dá apoio a essas pessoas? Psiquiatras, psicólogos que vão atender essas crianças, jovens, famílias, como vão superar isso? Há uma maneira, como estender esse apoio a eles também?

Não é fácil lidar com o sofrimento humano e ter que achar uma solução no desespero. Os trabalhadores também precisam de apoio, precisam de condições de trabalho, ser vistos como pessoas que sofrem pelo sofrimento do outro.

Esse sofrimento sem tamanho traz uma reflexão importante: o que a gente está fazendo, o que temos que fazer para mudar isso. Não dá pra assistir isso e deixar tudo continuar pelo mesmo caminho.

O sofrimento da vida, da exclusão, o sofrimento da discriminação acaba agravando problemas fundamentais. E a saúde mental tem que ser vista e cuidada.

Erro social

Onde a sociedade está errando, que não consegue enxergar no outro essa dor que você menciona, não consegue enxergar no outro esse pedido de socorro?

Eu entendo que está havendo a inversão de alguns valores. A vida não é tão valorizada assim. Há um valor muito maior [depositado] no consumo, no “ter”, e a vida acaba sendo algo sem valor nenhum. Tem que reverter, não tem jeito. A reversão não é algo pessoal; porque a gente acaba sendo vítima de todo esse sofrimento; é uma reversão de estrutura. A vida tem que ser priorizada em toda a sua dimensão.

É preciso dar condições para que todas as pessoas possam viver com qualidade, senão a gente não muda isso.

Evidências doentias

É tomar esse cuidado: a sociedade conseguir olhar quem comete um ato desse [tragédia na escola de Suzano] e perceber o que há por trás disso?

Uma tragédia como essa evidencia muito isso: uma violência que termina em tirar a própria vida. Isso expõe que não está bem. O objetivo é acabar consigo, inclusive.

É importante pensar que esse jeito que a gente está vivendo, essa desvalorização da vida, traz consequências em todos. Por exemplo, tem pessoas que matam outras, tem pessoas que não saem de casa; traz consequências e comportamentos diversos. Não é uma culpa pessoal.

Se a gente não der condições de uma vida melhor, de reabilitação, de sair do sofrimento, a tendência é piorar e a gente ver coisas assim o tempo todo.

E a solução que o governo apresenta, em liberar a posse de armas, de que modo pode agravar essa situação?

Quando a gente tem um caso de risco de suicídio, a coisa primeira que a gente faz é pedir para tirar todas as coisas que ofereçam risco da pessoa tirar a vida; qualquer arma, e a gente está fazendo o contrário. As pessoas estão mal e a gente está oferecendo armas para elas se matarem.

É um absurdo isso, não tem sentido. É preciso dar apoio para que saíam dessa situação e afastar aquilo que possa levá-la a atentar contra a sua vida e a vida do outro.

 

Edição: Cecília Figueiredo

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