Coluna | “É o crime da Vale e não a tragédia de Brumadinho”

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Problemas respiratórios são um dos primeiros a atacar a população quando a lama seca.

Foto: Ricardo Stuckert

1º/02/2019

 

 

Alexandre Padilha avalia os impactos ambientais, de endemias e sofrimentos mentais que atingem a região de Minas Gerais

 

Por Alexandre Padilha*

Estamos na semana da posse da Câmara dos Deputados, onde há um clima de muita mobilização para começar, de fato, o ano político no país. Mas quero falar aqui como médico, das preocupações que temos com a saúde pública decorrente do crime ambiental da Vale em Brumadinho.

A primeira preocupação é como o impacto direto da lama desses rejeitos pode causar na saúde das pessoas. A experiência de Mariana (2015) nos mostrou que, mesmo sendo dito ao contrário pelas empresas, há depósitos de metais pesados que quando ingeridos pelas pessoas não há como eliminá-los e podem causar a médio e longo prazo, dores, problemas articulares e crônicos.

A outra preocupação é a situação do crime ambiental, da lama, do impacto no ambiente, poluição do ar, levando à piora nos quadros respiratórios. É muito comum, após crimes como esses, a piora de quadros respiratórios nas pessoas. Imaginem essa lama toda, quando começa a secar, como poeira no ar, e as pessoas que têm problemas respiratórios…

Outro impacto imediato é o meio ambiente. Há várias teses que buscam apontar a disseminação da febre amarela no Brasil recentemente como associação ao crime da Samarco, porque mexeu com todo o meio ambiente, o entorno do Rio Doce e isso pode significar a migração de espécies primatas, disseminando doenças. Certamente também animais que viviam no ambiente silvestre e se deslocam, após um crime como esse, para espaços mais domésticos gerando o risco de doenças endêmicas.

O quarto, e na minha experiência o mais grave, é o impacto na saúde mental das pessoas. Me lembro, por exemplo, durante o crime da Boate Kiss, na cidade de Santa Maria (RS), o impacto não só para as pessoas que sofreram diretamente, mas também para o conjunto da cidade. O aumento da prevalência de depressão nesses casos, por isso a importância de se tratar essa situação dando nome aos bois: é o crime da Vale e não a tragédia de Brumadinho. Para não estigmatizar a cidade, que é um dos componentes importantes para a piora da saúde mental.

Alexandre Padilha é médico infectologista, sanitarista, professor universitário e deputado federal eleito (PT-SP). Foi ministro de Assuntos Institucionais do governo Lula, ministro da Saúde do governo Dilma e secretário de Saúde da Prefeitura de São Paulo.

 

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