Artigo | Nem um minuto de silêncio

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Protesto contra a Vale em frente à Assembleia Legislativa de Minas Gerais, pede a abertura de uma CPI da Mineração, durante a posse dos deputados mineiros (1º/02).

Foto: Rafaella Dorta

1º/02/2019

 

“Seguiremos gritando e denunciando até que se faça justiça, até que o modelo predatório de exploração mineral acabe”.

 

 

Por Camilla Veras*

“Tomamos banho, mas a lama não sai, porque ela está impregnada na nossa alma e acho que jamais vai sair.”

(Declaração de um atingido de Bento Rodrigues, um ano depois do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, MG)

 

Aconteceu de novo. As imagens da avalanche de lama veiculadas em todos os tejornais, o desespero e a dor dos familiares e atingidos. Desta vez ceifando a vida de centenas de trabalhadores, moradores e visitantes. As palavras não dão conta, só mais um choro agudo que arrebenta o peito. Aconteceu de novo. A mesma Minas Gerais, que não se recuperou da destruição em Mariana, sofre e revive o trauma em Brumadinho.

Três anos depois, outro desastre da mineração. Os dados que não param de atualizar falam em torno de 240 pessoas desaparecidas, 110 pessoas mortas confirmadas e a dor profunda na alma das famílias que perderam seus filhos, pais, esposas, maridos e amigos. Perdas irreparáveis, que nenhuma indenização poderá trazer de volta.

O crime da mineração se repete, a falta de fiscalização e monitoramento das barragens de rejeitos permanece. O nosso minério sai em toneladas do país, enriquecendo as contas bancárias de poucos e deixando para trás somente os rejeitos.

Atualmente, 45 barragens estão em risco de rompimento. Segundo o Relatório de Segurança de Barragens 2018, da Agência Nacional de Águas (ANA), das 24 mil barragens existentes no Brasil somente 780 passaram por fiscalização. O estado de Minas Gerais tinha em 2017 cinco barragens com risco de rompimento, mas a que se rompeu em 25/01 nem constava da lista, conforme relatório da ANA.

Mesmo assim a Vale, responsável pelos dois maiores desastres ambientais, seguiu aumentando seus lucros, por meio da superexploração mineral que coloca a vida de milhares de pessoas em risco.

A nossa riqueza sai, o seu lixo fica. Lama tóxica, bomba-relógio pronta para explodir e soterrar vidas inteiras. Perdemos a Bacia do rio Doce e estamos prestes a perder nosso Velho Chico, patrimônio do povo nordestino. A ganância tornou Brumadinho um cemitério de histórias, trajetórias e sonhos destruídos. Em seu lugar restou luto, dor, paisagem devastada, natureza em desequilíbrio, doenças, desencanto e o retorno do trauma dos atingidos de Mariana (MG) que revivem e assistem novamente o seu pesadelo.

Mesmo assim, o presidente da República Jair Bolsonaro (PSL) propaga que vai flexibilizar ainda mais os licenciamentos da barragens. Os governos cooptados e submissos ao poder econômico são cúmplices e os criminosos da Vale seguem impunes. A falta de informação e as diversas violações aos direitos dos atingidos foram realidade em Mariana e se repetem em Brumadinho.

Neste momento de muita dor, toda solidariedade aos atingidos de Brumadinho e de Minas Gerais. Seguiremos gritando e denunciando até que se faça justiça, até que o modelo predatório de exploração mineral acabe.

Camilla Veras é psicóloga, doutoranda em Psicologia Social pela PUC-SP. Estuda os impactos na saúde dos atingidos pelo rompimento da barragem do Fundão em Mariana (MG).

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