Juliano Moreira, o pai da psiquiatria brasileira

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Por Redação*

Lá se vão 146 anos do nascimento do pai da psiquiatria brasileira, Juliano Moreira. Nascido em  Salvador (BA), em seis de janeiro de 1873, filho de Manoel do Carmo Moreira Junior (português) e de Galdina Joaquim do Amaral (empregada do Barão de Itapuã), o médico mestiço teve origem pobre.

Juliano Moreira iniciou seus estudos primários no Colégio Pedro II e os concluiu no Liceu Provincial, na cidade de Salvador. Doutorou-se muito jovem pela Faculdade de Medicina da Bahia, 1891, com a tese “Sífilis Maligna Precoce”. O estudo foi elogiado fora do Brasil.

Cinco anos mais tarde, após defender a dissertação “Discinesias Arsenicais“ingressou como professor substituto da Faculdade de Medicina da Bahia como professor substituto da Seção de Doenças Nervosas, . Em seu discurso de posse, ao ser aprovado no concurso, Juliano Moreira descreveu de forma tão elegante o que parecia ser sua experiência pessoal com relação ao marcante preconceito de cor na sociedade brasileira de então. Na Bahia, dedicou-se à dermatologia e à neuropsiquiatria, colaborou na periódica Gazeta Médica da Bahia, na Revista Médico-Legal e As jaces de Iltliano Moreira, na Revista dos Inzernos da Faculdade de Medicina da Bahia. E foi um dos fundadores da Sociedade de Medicina e Cirurgia e da Sociedade de Medicina Legal da Bahia.

Entre 1895 e 1902 fez uma série de viagens à Europa para tratar-se de tuberculose, contraída pela rotina e pela dedicação intensiva aos estudos. Nesse período, frequentou diversos cursos de doenças mentais, tendo como professores Flechsig, Krafft-Ebing, Emil Kraepelin, Magnan, entre outros, cujas experiências resultaram em trabalhos publicados na Gazeta Médica da Bahia.

Já na Europa também realizou estágio de anatomia patológica com Virchow – um médico e político alemão considerado o pai da patologia moderna e da medicina social. Visitou as principais clínicas psiquiátricas e manicômios da Alemanha, Inglaterra, Escócia, Bélgica, França, Itália, Áustria e Suíça. De volta ao Brasil, Juliano Moreira instalou-se no Rio de Janeiro, no bairro de São Cristóvão.

Em 1903, por influência de Afrânio Peixoto e J.J. Seabra, ministro da Justiça do governo Rodrigues Alves, foi nomeado diretor do Hospital Nacional de Alienados. Sua nomeação dava-se após uma série de escândalos ocorridos na administração de Antônio Dias Barros, que resultou num inquérito levado a cabo pelo Ministério da Justiça. Esse inquérito constatou as péssimas condições de tratamento no hospital. Com a atuação de Juliano Moreira foram realizadas algumas mudanças: instalação de laboratórios de anatomia patológica e de bioquímica no hospital; remodelação do corpo clínico, com entrada de psiquiatras/neurologistas e outros especialistas (de clínica médica, pediatria, oftalmologia, ginecologia e odontologia); a abolição do uso de coletes e camisas de força; a retirada de grades de ferro das janelas; a preocupação com a formação dos enfermeiros; o grande cuidado com os registros administrativos, estatísticos e clínicos, entre outras mudanças significativas.

Juntamente com Júlio Afrânio Peixoto, fundou em 1905, na sede da Academia Nacional de Medicina, a Sociedade Brasileira de Psychiatria, Neurologia e Sciencias Affins. Em 17 de novembro de 1907 esta associação que reunia médicos do Hospício Nacional de Alienados, professores e alunos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, foi renomeada como Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal, da qual Juliano Moreira foi presidente, e presidente perpétuo (1928).

Em 1911 foi nomeado diretor da Assistência Médico-Legal de Alienados, órgão criado em 1890 para a formulação de uma política assistencial para os alienados – órgão este que em 1927 foi rebatizado de Serviço de Assistência a Psychopatas, passando a integrar o Ministério da Justiça e dos Negócios Interiores.

Juliano também foi um dos membros fundadores, vice-presidente (1923-1926), e presidente da Sociedade Brasileira de Ciências criada em 1916, posteriormente denominada Academia Brasileira de Ciências (1926-1929).

Durante sua gestão, Juliano Moreira criou o Manicômio Judiciário e enviou esforços para a aquisição do terreno, a construção e a fundação da Colônia Juliano Moreira. Já em 1928, foi convidado pelas universidades japonesas de: Tokyo, Kyoto, Sendai e Osaka, para fazer diversas conferências sobre sua especialidade, sendo condecorado com a Ordem do Tesouro Sagrado pelo Imperador Hirohito (1901-1992).

Somente em 1930 se afastaria da direção do Hospital Nacional de Alienados, vindo a falecer, três anos mais tarde, na cidade de Correias, no Rio de Janeiro, para onde mudou-se, já muito debilitado devido à tuberculose. E em 02 de maio de 1933, faleceu em decorrência da doença.

Um aspecto marcante na carreira de Juliano Moreira foi sua explícita discordância quanto à atribuição da degeneração do povo brasileiro à mestiçagem, especialmente a uma suposta contribuição negativa dos negros na miscigenação. Para ele, na luta contra as degenerações nervosas e mentais, os inimigos a combater seriam o alcoolismo, a sífilis, as verminoses, as condições sanitárias e educacionais adversas. O trabalho de higienização mental dos povos, disse ele, não deveria ser afetado por “ridículos preconceitos de cores ou castas”.

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