Governo exonera especialista com 40 anos de experiência em prevenção de HIV/Aids

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Adele Benzaken, dirigia o Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle de ISTs, responsável por tratamento do HIV/Aids

Foto: Unaids Brasil

11/01/2019

 

Ex-diretora acredita que um dos motivos foi a cartilha para Homens Trans, elaborada em 2018 pelo Ministério da Saúde

 

Por Juca Guimarães, para Saúde Popular

A médica sanitarista Adele Benzaken não é mais a diretora do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis ((ISTs), do HIV e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Em uma conversa que durou duas horas, na manhã de quinta-feira (10), o novo secretário de Vigilância em Saúde da pasta, Wanderson Kleber de Oliveira, comunicou a demissão.

“Ele verbalizou, várias vezes, a questão da cartilha para homens trans que tinha sido lançada em janeiro, que foi amplamente divulgada pela própria assessoria de comunicação do Ministério da Saúde, através do Blog Saúde. Entretanto, logo após o início desse novo governo, essa cartilha recebeu algumas críticas e mandou-se retirar do ar. Então, acredito que uma das razões foi essa questão dessa cartilha para Homens Trans”, disse a médica.

Adele Benzaken é uma das especialistas mais respeitadas na área, com mais de 40 anos de experiência, que estava no Departamento de Vigilância desde 2016. Ela é autora da primeira cartilha de ISTs.

Prevenir epidemia….

Segundo a Adele, a cartilha “Homens Trans: vamos falar sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis?” foi elaborada pelo Instituto Brasileiro de Transmasculinidade (Ibrat). “O Ministério da Saúde deu todo o apoio a essa população que é invisibilizada. Nós sabemos que a população trans é a que tem a maior taxa de prevalência no Brasil e que é preciso sim trabalhar a educação com essa população, sob pena do Brasil ter, daqui a quatro anos, uma epidemia generalizada”, disse a médica.

Em nota, o Ministério da Saúde justificou a retirada da cartilha “para adequações técnicas”. “Na página 13, há uma ilustração sobre uma técnica chamada pump. A imagem, no entanto, não é acompanhada de orientações sobre o uso adequado da técnica e os riscos associados. Sem informações adequadas, a prática pode trazer riscos à população-alvo da publicação”, diz a assessoria.

Diversas entidades e organizações não-governamentais (ONGs) que atuam no tratamento e prevenção às doenças sexualmente transmissíveis (IST/DST) manifestaram apoio à ex-diretora.

…sem ofensa

A exoneração aconteceu uma semana após o ministro Luiz Henrique Mandetta afirmar, em entrevista à Folha de S.Paulo, que o governo Bolsonaro iria estimular a prevenção à Aids “sem ofender às famílias”.

A médica publicou uma carta agradecendo o apoio da equipe e destacando os avanços que a diretoria conquistou nos últimos anos.

Médica formada pela Universidade Federal do Amazonas (1978), Adele é doutora em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e dirigiu a Fundação de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo da Matta (FUAM), entre 2007 e 2010. Entre os anos de 2008 e 2013, trabalhou no “Painel de Especialistas em DST, incluindo o HIV” da Organização Mundial de Saúde (OMS) e no Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids no Brasil (Unaids/Brasil). Pelo acúmulo na área, assessorou a Organização Pan-Americana para a Saúde (Opas).

 

Edição: Cecília Figueiredo

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