Comunidade adoecida por agrotóxicos se torna celeiro de orgânicos

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Plantio de hortaliças orgânicas é o foco dos pequenos agricultores de Alto Santa Maria

Fotos: Vitor Taveira

14/01/2019

 

 

Como a comunidade pomerana no Espírito Santo se tornou um centro de produção de alimentos orgânicos

 

 

Por Vitor Taveira, do Brasil de Fato (ES)

Essa história acontece em Santa Maria de Jetibá, município de 40 mil habitantes no interior do Espírito Santo, a 90 quilômetros da capital Vitória.

Por sua característica rural, pelo duro trabalho e pela proximidade com a região metropolitana, Santa Maria de Jetibá se tornou uma espécie de celeiro agrícola, que, segundo a prefeitura, abastece cerca de 40% dos hortigranjeiros consumidos na Grande Vitória.

Porém, nem toda produção traz alimentos realmente saudáveis. Segundo dados de 2016, o município era o que mais possuía lojas com permissão para venda de agrotóxicos, que causam danos à saúde humana. Diante dessa realidade, um distrito chamado Alto Santa Maria conseguiu se estabelecer como um celeiro de produção orgânica e familiar no município, sendo também um dos principais produtores do Espírito Santo.

Boa parte da população local é formada por descendentes de migrantes pomeranos, originários da Pomerânia, uma região entre a Alemanha e a Polônia que terminou anexada por esta. As comunidades que se instalaram no Brasil e atualmente são reconhecidas nacionalmente como povos tradicionais.

“A gente via pessoas com feridas enormes nas pernas principalmente era uma coisa de louco”, conta Daniel Plaster. Segundo ele, o agrotóxico chegou junto com o plantio intensivo de alho na região. A conversão para produção agroecológica começa a partir de 1985, quando um padre luterano, identificando os diversos problemas que afetavam a saúde das pessoas no entorno convocou a comunidade a se reunir e pensar alternativas.

A família de Daniel é uma das primeiras que começam a pensar na produção livre de veneno, então chamada de agricultura alternativa. Em 1989 é criada a Associação dos Produtores Santamarienses em Defesa da Vida, a Apsad-Vida, com 20 famílias associadas. Atualmente são cerca de 60.

No início dos anos 2000, também surge, na mesma região, a Associação Amparo Familiar, que hoje possui mais de 90 famílias associadas. A variedade de alimentos produzidos pode chegar a 120 espécies de produtos por ano. Só em sua pequena propriedade, Daniel cultiva mais de 70 alimentos.

“Ao invés de produzir só alho, passei a produzir cenoura, beterraba, rabanete, batata, folhas. A gente começou a variar porque o que a gente imaginava era plantar mais variedade porque se não conseguir produzir uma, a outra eu consigo. Se a chuva ou sol ou a praga atacar uma a outra vai resistir e sobreviver, então vou ter pelo menos um produto pra vender. Por isso começamos a fazer diversidade e hoje a gente acha impossível praticar agricultura orgânica dentro da monocultura. Hoje a gente chega a um ponto que a gente acha que a agricultura orgânica tem que ser diversificada”, explica Daniel.

No início, não havia assistência técnica e os camponeses foram desenvolvendo tecnologias a partir de experimentos e do conhecimento ancestral. Com o tempo, foi conquistado apoio do poder público com assistência, transporte, certificação e outras políticas. De um primeiro caminhão que partiu para a cidade com 19 agricultores para comercializar em uma garagem em Vitória, agora somente os agricultores da Amparo Familiar atendem a 16 feiras na Grande Vitória e algumas no interior do estado.

Selene Tesch, da Associação Amparo Familiar: “Feira é a melhor forma de venda; beneficia tanto o agricultor como o consumidor”.

De acordo com Selene Tesch, da Associação Amparo Familiar, a grande maioria da produção, ou seja, cerca de 200 toneladas, é vendida nas feiras. “Hoje é a melhor forma de venda que beneficia tanto o agricultor como o consumidor. E a troca de ideias, de experiência, de poder conversar com o cliente, é uma forma muito agradável de trabalhar”. Parte dos alimentos também é destinada ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

O lema da Associação de Amparo Familiar resume a luta dos pomeranos em Alto Santa Maria: “Plantar sem matar, comer sem morrer”. “Plantar sem matar é não usar agrotóxicos nem produtos químicos, porque todo microorganismo que tem na terra, ela precisa para fortalecer as plantas, a nutrição da terra e desenvolvimento da saúde e da agricultura saudável. E comer sem morrer é ter certeza de fornecer seus produtos para alguém que se beneficia em saúde em fortalecimento do corpo e da vida. Isso tem um grande significado”.

Ao longo do tempo, Alto Santa Maria se tornou uma região onde a agricultura familiar orgânica é predominante, ao contrário do restante do município. Selene considera um privilégio morar num lugar como este:

“Para desenvolver saúde você não tem que pensar no seu umbigo, tem que abranger mais coisas para acontecer e gerar isso. Porque não adianta eu trabalhar na minha propriedade e fechar isso só pra mim. Tem que fazer trabalho para expandir isso. E saúde só se promove quando todas pessoas tem o bem estar e o conhecimento de poder usufruir disso, poder gerar renda, conhecimento, poder compartilhar experiência. Isso é muito importante”.

Edição: Daniela Stefano

 

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