Opinião | Qual o futuro dos Agentes Comunitários de Saúde no Brasil?

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Agentes comunitários de saúde são o elo entre a comunidade e o Sistema Único de Saúde

Foto: Arquivo Saúde Popular

11/10/2018

É preciso somar saber popular e saber científico e multiplicar esse poder de transformação

 

 

Por Lívia Milena Mello*

Hoje estive em sala de aula conduzindo um processo formativo para alunos de graduação do Bacharelado Interdisciplinar em Saúde na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Tratava-se de uma atividade de extensão, parte do currículo destes futuros bacharéis, que também serão futuros nutricionistas, psicólogos, médicos e enfermeiros. Planejamos, pactuamos com o público, e partimos à execução do que ficou denominado como “Curso de Educação Popular em Saúde: ACS como protagonistas do cuidado”.

Mas por que os ACS? Quem é esse sujeito? Como ele vem contribuindo para a promoção da saúde da população no Brasil? O que falta? O que temos a contribuir?

Quem são os ACSs?

Os agentes comunitários de saúde (ACS) são profissionais vinculados a uma equipe de saúde da família do chamado “posto de saúde do bairro”. É uma categoria profissional que iniciou sua história de forma voluntária, nas pastorais da saúde, utilizando multimistura para evitar a gritante mortalidade infantil no Nordeste do Brasil dos anos 1970/1980. Algumas parteiras, outras raizeiras, conselheiras, conhecedoras de saberes populares que se potencializavam a partir de uma organização que extrapolou a caridade.

O estado do Ceará, primeiro a incorporar as agentes no seu sistema de saúde, mostrou resultados quanto à redução da mortalidade infantil, tornando-se um catalizador da luta nacional por reconhecimento dessa categoria no novo sistema de saúde em 1988, o SUS.

Apesar dos diversos estudos que comprovam sua efetividade no Brasil e em outras experiências semelhantes no mundo, estes estão sendo seriamente questionados pelos gestores municipais que concordaram com a reformulação da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) de 2017 proposta pelo ministério da saúde de Temer.

Por um lado, afirma-se a possibilidade de redução do número de ACS por Equipe de Saúde da Família (no mínimo um) e por outro, a possibilidade de aumentar suas atribuições ao propor incorporar ações dos Agentes de Combate às Endemias e Técnicos de Enfermagem.

Mas, afinal, que identidade os agentes pensam para si? Que formação necessitam para atender melhor as demandas que estão diante de sua realidade? Escutar as agentes que atuam no meio rural, em aldeias indígenas, em comunidades pesqueiras, nas grandes metrópoles ou mesmo em bairros de classe média me parece uma necessidade.

O fato é que em tempos de crise, desemprego, fome, violência crescente e de adoecimento das famílias, quem mais chega perto da realidade e adentra os domicílios são justamente essas agentes que dizem ser um pouco psicólogas, um pouco assistentes sociais, um pouco enfermeiras, advogadas… e então: não seria tempo de fazer uma formação que potencializasse justamente esse fazer da escuta, da justiça e do cuidado?

Alimentando o futuro

E sonhávamos juntos hoje em sala de aula: Imagina só esses ACS como Bacharéis em Saúde?! Já têm tanta sabedoria acumulada por esse anos de inserção comunitária, imaginem estudando o que nós bacharelandos estudamos de ciências biológicas, filosofia, antropologia, sociologia, pedagogia, comunicação em saúde, direito sanitário, planejamento, estatística! Aprender práticas integrativas e resgatar/aprender saberes tradicionais do partejar, do uso medicinal das plantas! Fazer uso da epidemiologia e do planejamento!

Futuro incerto, mas uma certeza: saúde e democracia andam juntas. É preciso dar voz a esses sujeitos. É preciso elevar o nível de formação desses trabalhadores tão potentes no SUS! Somar saber popular e saber científico e multiplicar esse poder de transformação.

 

* Lívia Milena Mello integra o Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes), professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

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2 comentários sobre “Opinião | Qual o futuro dos Agentes Comunitários de Saúde no Brasil?

  1. Apesar de ter conquistado meu Bacharelado em Servico Social, mas ainda nao “atuando” como Assistente Social. A profissao que exerço como Agente Comunitaria de Saude ha 14 anos em uma comunidade carente de “TUDO”, amplia meus cuidados com a SAUDE em geral e em muitas outras instâncias, fazendo valer por qualquer nivel de profissionalismo. Nosso trabalhO nao se restrige apenas na saude, mais em toda esfera de assistencia. As palavras da professora Livia Mello merecem atencao cautelosa. Palmas pelo reconhecimento com esses profissionais.

    1. Cara Ivone,

      agradecemos o retorno e a sua contribuição sobre os/as valorosos/as agentes comunitários/as de Saúde e trabalhadores/as do Serviço Social.

      Att,
      Redação Saúde Popular

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