Núcleo da UnB desenvolve jogo de cartas que incentiva combate à violência contra mulheres

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Quatro voluntárias e monitora do Recriar-se testam jogo Violetas.

Foto: Beto Monteiro/Secom UnB

20/12/2018

 

 

Em fase de testes, iniciativa recebe voluntários para aprimorar a versão final; lançamento está previsto para meados de 2019

 

 

Por Nair Rabelo, da UNB Notícias

“Queremos mudar o olhar sobre a violência que está invisível, trazer exemplos de agressões que estão cristalizadas e naturalizadas na sociedade. Queremos inquietar.”

É dessa forma que a enfermeira Laianna Santiago, bolsista da linha de pesquisa Recriar-se, descreve um dos objetivos do jogo de cartas Vidas Violetas, que está sendo desenvolvido pelo grupo. Com o produto em fase de protótipo, os integrantes do projeto têm promovido os chamados clubes de testes, dos quais participam pessoas envolvidas na rede de acolhimento de mulheres vítimas de violências.

Recriar-se é ligado ao Núcleo de Estudos da Educação e Promoção da Saúde (Nesprom/Ceam) da UnB e ao grupo de pesquisa em Gestão, Educação e Prática Social em Saúde e na Enfermagem (Geps), ambos coordenados pela professora Maria Raquel Gomes, do Departamento de Enfermagem da Faculdade de Ciências da Saúde (FS).

No clube de testes, os voluntários jogam outro produto desenvolvido pelo Recriar-se: o jogo de tabuleiro Violetaslançado em 2016, baseado na mesma temática, de enfrentamento a violência contra mulheres e à desigualdade de gênero. O Violetas é um jogo de estratégia, colaborativo, que pode ser jogado por indivíduos ou por equipes. “É um jogo complexo, voltado para quem faz atendimento às mulheres vítimas de violências”, comenta Laianna.

Já o Vidas Violetas está sendo desenvolvido com uma proposta mais simples que o anterior, voltado para mulheres que sofreram violência e para o público geral. “O objetivo é que todos os jogadores se sintam capazes de agir face uma situação dessas”, diferencia a bolsista.

Os testes têm como objetivo ajudar o projeto a ter visão mais ampla sobre o processo de acolhimento e aperfeiçoar a proposta do jogo de cartas. “Assim, podemos trazer a discussão para a vida pela via lúdica e educativa, para entender como funciona a rotina de quem trabalha com o tema”, afirma Laianna.

“O Vidas Violetas é uma contação de histórias, em que se monta uma narrativa”, descreve. “O maior desafio é fazer com que as mulheres se sintam confortáveis em um momento em que estão muito sensíveis”.

Enfermeira Laianna Santiago comenta que a proposta dos jogos é promover melhor acolhida a mulheres vítimas de violência. Foto: Beto Monteiro/Secom UnB

Integração

Os jogos surgiram em contexto interdisciplinar, envolvendo áreas da sociologia, enfermagem, linguística, jornalismo, artes gráficas e serviço social. Apesar das abordagens diferentes, a proposta de ambos é ajudar o jogador ter uma visão mais ampla do processo de acolhimento de mulheres agredidas.

Ingrid Ramalho, mestranda no Programa de Pós-Graduação de Linguística (PPGL/UnB), desenvolve apoio técnico na equipe do Recriar-se. Ela conta o que observou sobre a reação de profissionais da rede de enfrentamento da violência contra mulheres diante de uma carta do jogo Violetas (de tabuleiro) que reproduz preconceitos de gêneros no dia a dia, presentes na música e em dizeres populares. “No geral, eles não conseguem identificar de primeira que os textos materializam discursos violentos contra mulheres.”

A estudante considera importante que a linguagem utilizada no novo produto seja acessível, pois apesar de a violência contra mulheres ocorrer em diversos contextos, com mulheres escolarizadas ou não, um dos objetivos do material é alcançar o maior número de pessoas. “Estamos buscando levar o debate sobre a desconstrução dos estereótipos de gênero para o público no geral”, lembra.

No jogo de cartas Vidas Violetas, a ideia é refletir sobre as várias violências às quais as mulheres são submetidas, em diversos âmbitos. Não apenas as violências físicas, como também as psicológicas e materiais. “Para que elas possam compartilhar experiências e desenvolver consciência sobre as realidades de violência”, explica Laianna.

O jogo deve ser lançado no segundo semestre de 2019 e, da mesma forma que o Violetas, será colocado à venda. De acordo com o grupo, a maior parte dos compradores são entidades civis que atuam no enfrentamento à violência contra as mulheres e órgãos governamentais que participam da rede de acolhimento, como hospitais e serviços de assistência social e jurídica.

Teste

Em uma das seções do clube de testes, ocorrida na Faculdade de Saúde (FS) no campus Darcy Ribeiro, quatro voluntárias avaliaram a aplicabilidade do jogo Violetas. As participantes responderam a uma chamada pública e disponibilizaram-se a jogar uma partida no tabuleiro, com a finalidade de fornecer informações que serão utilizadas na confecção do Vidas Violetas.

Jogo Violetas, desenvolvido em 2016, é bastante procurado por entidades de enfrentamento à violência contra mulheres. Foto: Beto Monteiro/Secom UnB

Com o propósito de abordar o tema de forma ampla e promover a difusão de informação para a sociedade, o jogo de tabuleiro é uma ferramenta para iniciar o diálogo com mulheres vítimas de violência. “São cenários de prática para estimular a conversa, ajudá-la a começar a falar e por fim, ajudar a cessar a violência”, afirma Laianna.

Bianca Cardoso, do Blogueiras Feministas decidiu participar do grupo de testes porque considera importante o desenvolvimento de linguagens adequadas para falar com mulheres, especialmente às vítimas de violência.

“O jogo faz pensar, refletir e trabalhar em grupo. Por meio da narrativa, permite que a pessoa leia e se identifique. Tem uma abordagem inclusiva”, avalia. Para ela, o Violetas serve como uma ferramenta para “conscientizar sobre o que já existe no papel”.

“A Lei Maria da Penha já é um tema na sociedade. Já saímos da passividade: sabemos, como sociedade, que mulher não pode apanhar. As pessoas podem não saber o que fazer em um caso de violência, mas já sabem que é errado mulher apanhar”, analisa.

Para Raíssa Vitório Pereira, editora do site Centre for Feminist Foreign Policy, o tema não está restrito a barreiras territoriais. “Devem ser empenhados esforços conjuntos. Podemos trabalhar em parceria para perceber as diferenças nas regiões e absorver as melhores políticas de modo a melhorar a qualidade de vida das mulheres”, sugere.

“Aprendi coisas novas com o jogo. Por exemplo, estou familiarizada com Lei Maria da Penha, mas só agora eu sei que é a lei número 11.340/06. Se me perguntassem antes, não saberia dizer.” Raíssa comenta que a experiência a fez perceber que apesar de bastante inserida no tema, falta entendimento mais geral sobre os meandros legais.

Novas rodadas

Há um formulário on-line para que as pessoas manifestem interesse em jogar. A campanha de chamamento é direcionada a interessados no combate à desigualdade de gênero e no desenvolvimento de jogos. O compartilhamento da informação nas redes sociais é bem-vindo pelo Recriar-se.

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