Jardim Vitória acordou sem médicos

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Maior complexo habitacional da América Latina, 230 mil pessoas vivem no distrito e contam com 15 UBS, parte delas atuavam médicos cubanos

Foto: Reprodução da videorreportagem

1/12/2018

 

Como ficou o distrito de Cidade Tiradentes, na zona Leste paulistana, onde 78% da população é usuária do SUS, após a saída dos médicos cubanos?

 

 

 

Por Júlia Dolce, para Saúde Popular

Uma semana após o Tweet do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) decretar o fim da parceria entre Brasil e Cuba no programa Mais Médicos, em 14 de novembro, os 9.800 habitantes do bairro Jardim Vitória, pertencente à fronteira rural do distrito de Cidade Tiradentes, a 35 quilômetros do centro de São Paulo, acordaram sem a presença de atenção profissional na sua Unidade Básica de Saúde (UBS). O posto de saúde, que conta com duas equipes de Estratégia Saúde da Família, contava apenas com dois médicos cubanos.

A reportagem visitou o bairro em 22 de novembro e se deparou com a UBS fechada, após o longo feriado prolongado, por ausência de médicos. Outros seis médicos que atendiam em Cidade Tiradentes também já haviam partido. Maior complexo habitacional da América Latina, 230 mil pessoas vivem no bairro e contam com 15 UBS. Em visitas às UBS lotadas de pessoas à espera de atendimento, e em entrevista com alguns deles, a ausência dos profissionais cubanos já podia ser sentida.

A usuária Noêmia Souza Lobo, aposentada, realiza tratamento psiquiátrico e de varizes nas pernas na UBS Carlos Gentile. Moradora do distrito desde a urbanização, há 35 anos, ela conta que havia poucos médicos brasileiros trabalhando na região antes da implementação do programa federal.

“Precisamos desses médicos”

“Depois que chegou o Mais Médicos melhorou bastante. Sou muito bem atendida todos os meses. Os cubanos falam nossa língua, trabalham com respeito, são amigos, não tenho porque desaboná-los. Têm sorriso no rosto para nós que estamos doentes, têm carinho. Vamos sentir muita sua falta, e os brasileiros não vão dar conta, o quadro de doença é muito grande, precisamos dessa parceria. Queria que a Presidência do Brasil entendesse que nós precisamos desses médicos. Dez mil médicos fora do país fará muita falta”, conta Noêmia, mostrando a perna enfaixada.

Dados da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) mostraram que até a manhã da terça-feira (27), 1.300 médicos cubanos já haviam deixado o país. A previsão é que o restante dos 8.400 profissionais cubanos regressem à Ilha até o dia 12 de dezembro. Neste meio tempo, a partir do dia 21 de novembro, um edital foi aberto para a substituição das vagas que estão sendo deixadas.

No último dia 23, o Ministério da Saúde comemorou o preenchimento de 92% das vagas oferecidas no edital em apenas três dias. No entanto, a pasta divulgou nesta quarta-feira (28) que apenas 10% dos aprovados se apresentaram para trabalhar em seus respectivos postos até agora.

Diferenças dos profissionais

A contadora e conselheira de Saúde da UBS Ferroviários, no bairro Sônia Teixeira, onde foi criada, destaca que há um desinteresse histórico dos médicos do Sistema Único de Saúde (SUS) em trabalhar na região. “Tem um médico que conversa com a gente em paralelo e diz que nos grupos de Whatsapp, logo que abre vaga aqui, os outros médicos desaconselham, dizem que a população é perigosa, agressiva, generalizam a população. Hoje a gente vê que os profissionais trabalham pelo dinheiro. E sabemos que com os cubanos foi diferente, eles vieram porque gostam de trabalhar naquilo”, opinou.

Segundo Sônia, que também foi atendida por uma médica cubana durante sua gestação, há quatro anos, os profissionais do Mais Médicos eram conhecidos por terem um tratamento mais cuidadoso. “Quando a doutora Gleici veio para cá, eu vi a diferença em ser tratada pela doutora brasileira e por ela. A brasileira me deixava lá na maca, grávida, esperando que eu levantasse sozinha, e a Gleici levantava da mesa dela e me ajudava, com minha barrigona pesada. Ela era super gentil. Depois ela foi transferida para outra UBS e nós ficamos um ano e meio sem profissional para repô-la, foi muito difícil”, afirmou.

A história se repete. Como exemplo da estatística divulgada pelo Ministério da Saúde, duas semanas após o desmonte no programa, nenhum médico substituiu os postos deixados pelos cubanos, como informou o médico de Família e Comunidade Roberto Trindade, que trabalha na UBS Inácio Monteiro e foi supervisor do Mais Médicos. Morador de Cidade Tiradentes desde criança, ele estudou no cursinho pré-vestibular Educafro, e conseguiu bolsa integral para cursar medicina em Cuba. Após voltar e revalidar o diploma, o médico atua há seis anos na Estratégia de Saúde da Família da unidade no bairro onde cresceu.

Porta dos fundos

“Cidade Tiradentes sempre foi uma região com péssimos índices de saúde. Com o passar dos anos isso foi evoluindo. Com o advento da Estratégia de Saúde da Família, a tendência foi uma melhora da saúde da população. Infelizmente, perdemos agora vários médicos, várias equipes, algumas unidades ficarão sem médicos por um período. A saúde da família trabalha para ser a porta de entrada do SUS, mas com isso acaba se invertendo a situação, acaba se tornando a porta dos fundos. Os pacientes têm que procurar direto pronto-socorro, os já superlotados hospitais da região, precarizando ainda mais esse serviço e tendo um prejuízo grande para sua saúde e a saúde dos que realmente precisam de atenção hospitalar”, lamenta.

Antes de começar a entrevista, Trindade realizava uma reunião com os profissionais da unidade onde atende, com o objetivo de pensar em uma escala de revezamento para absorver a população do Jardim Vitória, que ficou sem médicos. “Essa UBS já vinha há vários anos sem médicos. Em todo o tempo que atuo aqui, os únicos médicos que atenderam lá foram os cubanos. Agora é provável que essa população fique mais tempo sem atendimento”, explicou.

Mapa da desigualdade

Cidade Tiradentes, uma das regiões com maior população negra da capital paulista, já liderou, e ainda lidera, alguns índices alarmantes. Em 2016, o Mapa da Desigualdade mostrou que a expectativa de vida no bairro era uma das mais baixas de São Paulo, cerca de 25 anos a menos do que um morador de Pinheiros tinha, em média, de vida. A última versão do Mapa, divulgada nesta quarta-feira (28), colocou Cidade Tiradentes como um dos bairros mais pobres de São Paulo, com uma expectativa de vida de apenas 58 anos.

O Mapa da Desigualdade mostrou também que no bairro existem 50 moradores para cada vaga de emprego formal, uma das taxas mais altas de desemprego na cidade. O índice de gravidez entre adolescentes também está entre os mais altos da capital paulista. Com uma população relativamente jovem, o bairro é quase completamente usuário do SUS: 78% de sua população dependente exclusivamente da saúde pública. A chegada do programa Mais Médicos em 2014, com um número inicial de 15 profissionais, todos cubanos, impactou parte desses números, como destaca Marta Pozzani, que foi supervisora de Saúde de Cidade Tiradentes entre 2013 e 2016, durante a gestão municipal de Fernando Haddad.

“Quando assumimos as unidades básicas com Estratégia Saúde da Família, havia déficit de mais de 60% de médicos, o maior da cidade de São Paulo. A dificuldade é que os médicos se formavam, vinham para cá, ficavam um mês, dois meses, três meses e pediam demissão. Ou, no máximo, ficavam até passarem nas residência. Quando veio a proposta do Mais Médicos, Tiradentes foi um dos bairros que mais acolheu o programa. Em 2013, o índice de mortalidade infantil era um dos mais altos da cidade, em torno de 17.9 por mil nascidos vivos. Na época, eram mais de 20 mil beneficiários do Bolsa Família vivendo aqui, tínhamos muitos desafios. Vimos esse indicador da mortalidade infantil para 13.1 em quatro anos, e também a diminuição da mortalidade materna”, afirma.

 

UBS Inácio Monteiro é uma das que estão absorvendo os pacientes do Jardim Vitória | Foto: Júlia Dolce

 

Alta rotatividade

Em 2017, um edital aberto pelo Ministério da Saúde para selecionar brasileiros para o Mais Médicos teve inscrição de 6.285 pessoas para 2.320 vagas. No entanto, apenas 1.626 médicos apareceram para trabalhar e, desses, cerca de 30% deixaram seus postos antes de completar um ano de serviço.

Segundo Pozzani, a avaliação final de sua gestão considerou que a vinda dos cubanos do Mais Médicos, com contratos de aproximadamente dois anos atuando na Atenção Primária e uma visão integrada de saúde e trabalho em equipe trouxe “uma qualidade na linha de cuidado da população”.

Em relação à possibilidade de preenchimento das vagas, Pozzani não está confiante. “No primeiro momento, a experiência que temos é que muitos se inscrevem, mas a permanência é complicada, há muita rotatividade”, afirma.

Trindade completa que a rotatividade é prejudicial para os próprios usuários do SUS. “Quando começam a entender os problemas de saúde da comunidade vão embora, vem outro e começa do zero. Não há um seguimento”, pondera.

Falta formação em Medicina de Família

Contundente, ele afirma que muito provavelmente as vagas deixadas por cubanos no país não serão preenchidas com tanta facilidade. “Se não, não teríamos precisado dos cubanos em primeiro lugar. Provavelmente, os locais mais centrais consigam suprir as vagas deixadas pelos cubanos, mais os bairros mais periféricos e as cidades com menos infraestrutura não. Além disso, não temos médicos formados em Medicina da Família e Comunidade suficientes no Brasil para suprir toda essa demanda e, na grande maioria das vezes, quem assumirá terá um perfil mais direcionado à atenção hospitalar, mais frio, o que impactará bastante as populações”, acrescenta.

Geridos em parceria entre a Secretaria de Saúde do Município de São Paulo e a APS Santa Marcelina (Organização Social de Saúde – OSS), os equipamentos de saúde de Cidade Tiradentes oferecem além de maiores salários do que os pagos pelo SUS a médicos que trabalham na região central da cidade, outros incentivos. Adicionais de limite rural e de difícil provimento, que somam R$ 2.900, além da oferta de vans que buscam os profissionais na estação ferroviária para levá-los até as UBS, são algumas das ofertas.

Apesar da gravidade dos índices e incentivos do governo, a população do Jardim Vitória continua dormindo sem médicos.

 

 

Edição: Cecília Figueiredo

 

 

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