Barragem Samarco | Três anos de lama e danos à saúde da população

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Quintal de moradora atingida por lama da Samarco, em Barra Longa (MG)

Fotos: Arquivo pessoal / Odete Cassiano

5/11/2018

 

 

O crime socioambiental destruiu vidas e deixou sequelas na saúde física e mental da população

 

Por Nathália Santos*

No dia 5 de novembro de 2015, há exatos três anos, ocorreu o maior crime socioambiental do país. O rompimento da barragem de rejeitos de mineração do Fundão, pertencente a Samarco (Vale/BHP Billiton), localizada em Mariana (MG), despejou cerca de 60 milhões de metros cúbicos de lama. Os rejeitos contaminantes percorreram aproximadamente 650 quilômetros até chegar a Foz do Rio Doce, destruindo vidas, casas, escolas e atingindo comunidades ribeirinhas, quilombolas e cidades. Deixou um rastro de danos e prejuízos para a população da bacia do Rio Doce e ao ecossistema.

Devido ao crime, a Samarco foi multada pelo Ministério Público Federal em 155 bilhões de reais, valor que foi suspenso pela Justiça. A suspensão consequentemente faz com que a reparação aos atingidos caminhe a passos lentos. A saúde dos atingidos é um dano a ser contabilizado, mas que já apresenta consequências no curto prazo, como os surtos de dengue e de febre amarela, assim como no médio e longo prazos.

Ao aplicar o conceito ampliado de saúde, diretamente relacionado à renda, acesso à terra, condições de moradia e lazer como afirma a Constituição Federal de 1988, entende-se que a saúde da população estará abalada enquanto não ocorrer a reparação integral dos danos.

Saúde mental

Estudos e levantamentos realizados nas cidades atingidas registram maior incidência de doenças que afetam a saúde mental. Em situações de desastres, as lembranças da tragédia se tornam vivas nas memórias, onde se configura elemento estressor. Outros fatores de adoecimento estão relacionados à preocupação com os meios de sobrevivência, o desemprego e ruptura de laços sociais e comunitários, além da preocupação com as indenizações.

A Pesquisa sobre a Saúde Mental das Famílias Atingidas pelo Rompimento da Barragem do Fundão em Mariana (Prismma) realizada pelo Núcleo de Pesquisas em Vulnerabilidades e Saúde da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), atesta que mesmo após dois anos do rompimento, data em que foi realizado o estudo, o relato dos atingidos é de sofrimento, medo, angústias, incertezas, caracterizando como uma violência simbólica. Foi constatado neste estudo que a população também sofre preconceito pela situação de atingido. Dos 271 entrevistados, 67,8% relatam ter sofrido discriminação em comércios, repartições públicas, de vizinhos e em unidades de saúde.

O núcleo afirma que a incidência de transtornos de saúde mental encontrados na população atingida que foi entrevistada é maior do que a taxa registrada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2015. A depressão foi diagnosticada em 28,2% da população, sendo esse índice de 35,4% ao se fazer a análise apenas no grupo das mulheres. O transtorno de ansiedade generalizada foi diagnosticado em 32% dos entrevistados e o transtorno de estresse pós-traumático em 12%.

Ambiente atingido

Um dos prejuízos previstos e previsível é a contaminação do rio Doce por metais pesados provenientes da mineração e depositados na barragem, e, pela movimentação de metais pesados que já estavam na calha do rio pela grande quantidade de lama e percorreu o leito, aumentando a disponibilidade destes no ambiente.

O artigo científico publicado na revista Nature em setembro de 2017, intitulado “Os impactos ambientais de um dos maiores rompimentos de barragem no mundo”, afirma que a quantidade de metais pesados como o arsênio, mercúrio, ferro e manganês encontrados em amostras do rio Doce excederam os parâmetros recomendados.

A presença de metais pesados no ambiente, com efeitos tóxicos a médio e longo prazo, podem colocar em risco a saúde da população da bacia. Já é observado nas cidades ao longo do rio, pessoas com sintomas semelhantes que aumentam a suspeita de risco de contaminação, tais como lesões de pele descamativas e problemas respiratórios. A confirmação da presença de intoxicação por metais pesados na população exige estudos independentes.

 

Manchas na pele de moradora em Barra Longa | Arquivo Pessoal 

Resistência

Nestes três anos de crime, os atingidos têm usado diversas ferramentas para exigir da Samarco a reparação justa para os danos causados. Os impactos na saúde são relatados e sentidos diariamente. Em Barra Longa, por exemplo, os atingidos da cidade têm se organizado no Coletivo de Saúde, que discute os problemas enfrentados e pensa ações necessárias para resistir, como a construção de espaços de debate com a população, reuniões com a Secretaria Municipal de Saúde e resgate de saberes tradicionais de cuidado.

Um dos maiores crimes ambientais do mundo tem deixado rastros na saúde. Os atingidos, de forma coletiva, tem buscado as ferramentas para continuar existindo e resistindo na bacia do rio Doce.

 

*Natália Santos é médica e integrante da Rede de Médicas e Médicos Populares.

 

Edição: Cecília Figueiredo

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