Qualificar a formação em saúde para garantir o atendimento integral à população LGBT

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Padilha com equipe e usuários do Serviço de Atenção Integral à Saúde de Pessoas Trans, que funciona em Petrolina (PE)

Foto: Arquivo Pessoal

07/11/2018

 

 

“Precisamos garantir que discutam as especificidades do cuidado com pessoas LGBT e ser educadores em saúde, para que o respeito e o amor sejam a máxima”

 

 

 

Por Wandson Padilha*

Abordar a saúde da população LGBT no Brasil ainda é um desafio. Os dados referentes aos cuidados com essa parcela da população são preocupantes e assustadores. Até a década de 1990, a homossexualidade ainda era considerada uma doença segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e apenas em 2018, a transexualidade deixou de figurar no Código Internacional de Doenças (CID) como um transtorno mental. Isso reforça o quanto a discussão sobre a saúde de pessoas LGBT tem avançado a curtíssimos passos.

Mas, por que é tão importante discutir as especificidades do cuidado relativo às diversas orientações sexuais e identidades de gênero?

São diversos os relatos de LGBTs que nunca procuraram os serviços de saúde devido ao preconceito sofrido pelos profissionais e demais usuários dos serviços. Essa dificuldade de acesso se dá, sobretudo, devido à falta de formação dos profissionais de saúde no que diz respeito aos cuidados específicos para com lésbicas, gays, pessoas trans e travestis. É extremamente rara a discussão da saúde LGBT nos currículos das graduações em saúde no Brasil.

Formação precária

Praticamente nenhum profissional de saúde sai da universidade compreendendo sequer a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero, por exemplo. A grande maioria dos profissionais desconhece a política Nacional de Cuidado à População LGBT e são muitos os relatos de desrespeito ao direito garantido por lei do uso do nome social por pessoas trans nos serviços de saúde. Violência que poderia ser drasticamente reduzida com uma pergunta simples: Como você prefere que eu te chame?

 

“Ela ligou para minha mãe, afirmando que eu poderia ser preso, pois estava praticando falsidade ideológica, quando na verdade estava apenas usando meu nome social, como é meu direito em todos os serviços de saúde do país”.

(Relato de um homem trans sobre o atendimento recebido em Unidade Básica de Saúde no sertão pernambucano)

Cuidado integral

Se perguntados sobre métodos para prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) no sexo entre mulheres, será extremamente raro encontrar um profissional de saúde que consiga abordar o tema. Da mesma forma, são diversos os relatos de profissionais que não orientam ou mesmo contraindicam o Papanicolaou para rastreio do câncer de colo do útero em mulheres lésbicas e homens trans. Atualmente a mortalidade por câncer do colo do útero entre mulheres lésbicas é 50% maior que entre mulheres heterossexuais, devido a ausência de exames de rastreio.

É fundamental reforçar entre os profissionais de saúde que a população LGBT também pode sofrer de hipertensão, diabetes, dor lombar e os mais diversos adoecimentos, assim como as outras parcelas da população. Logo, o seu cuidado não deve se limitar às ISTs ou doenças geniturinárias como muitas vezes acontece.

LGBTfobia

O relatório RARE realizado no Reino Unido mostrou que quase 50% da população trans já tentou suicídio ao menos uma vez na vida e que 85,2% dessa população já havia se automutilado. No Brasil, a expectativa de vida da população trans é de apenas 35 anos (semelhante a dos escravos no período colonial). Somente em 2017 foram registradas 445 mortes por LGBTfobia no Brasil, uma a cada 19 horas. O Brasil é o país que mais mata LGBTs. Matamos sozinhos mais LGBTs que a soma de todos os países do mundo.

Enquanto profissionais de saúde, precisamos garantir uma atenção especial a essa população e a sua saúde mental tão atingida pela LGBTfobia. Precisamos garantir que os currículos da graduação discutam as especificidades do cuidado com pessoas LGBT e precisamos ser educadores em saúde, garantindo que, sobretudo em períodos de disseminação do ódio contra essa população, o respeito e o amor sejam a máxima. E que nossa luta seja por cuidados e direitos cada vez maiores para essa população.

 

* Wandson Padilha é médico de Família e Comunidade, preceptor de Residência Médica pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), negro, gay, nordestino e lutador do SUS.

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