Novembro negro | É tempo de semear a vida e o futuro

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Foto: Criola

19/11/2018

 

É preciso ser rebelde em um corpo saudável e resistente

 

Por Caroline Anice*

Sabemos o quanto o tempo das mulheres na sociedade capitalista patriarcal racista é estruturado pela divisão sexual e racial do trabalho. Quando dizemos que existe uma estrutura que organiza o nosso tempo-vida em torno do trabalho que ninguém vê, mas sem o qual a vida humana não poderia existir, resta-nos pouco tempo para o desenvolvimento da nossa autonomia enquanto sujeitas, e a construção de um futuro que fora negado a nós e nosso povo. Sem dúvidas é sobre o corpo das mulheres negras que recaem os trabalhos de maior exploração – terceirizados, vulnerabilizados – e são esses mesmos corpos que são sexualizados, mercantilizados e dolorosamente desumanizados.

Preparação

Bom, essa breve retomada se faz necessária para que possamos construir uma também breve, mas importante, reflexão em tempos de perdas estruturais e resistência popular, que exigem força, fôlego e saúde. Afinal, saúde é a nossa capacidade de lutar e educar nosso corpo. Preparar-se para a batalha exige o preparo da nossa mente, da alma e do corpo.

Precisamos cuidar das nossas cabeças e consciências através do estudo, das leituras, da formação e da luta coletiva; da nossa alma, estando entre pessoas queridas, nossos amores e camaradas, aprendendo a amar a nós mesmas; do nosso corpo, conhecendo, alimentando, exercitando e compreendendo os limites e potencialidades desses corpos, enquanto abrigo de todos os sentimentos, afetos, histórias, que carregamos. Nosso corpo é a nossa casa e a nossa arma de luta, sabemos bem que há quem queira destruí-los.

Sem saúde e sem nossos corpos – se nos tiram o direito à saúde – é porque querem nos ver fragilizadas e sem ânimo para transformar a realidade em que vivemos, seja em casa, nos bairros, nas universidades, escolas e trabalho.

Marighella nos convoca a sermos guerrilheiras e guerrilheiros urbanos. Mao Tse nos fala sobre a necessidade de educar o corpo. E todas as mulheres que vieram antes de nós, nos quilombos, nas fugas, enfrentando os navios e os homens, nos ensinam a ser selvagens e rebeldes em um corpo saudável e resistente.

Correr, nadar, pular. Dançar, jogar capoeira, formar uma roda de samba. Nosso corpo vive para estar em movimento, sem movimento não há vida. Negar os padrões estéticos e corporais impostos sobre nós é necessário, assim como conhecer o que nos fortalece e nos faz sentir aceitas.

Violências

Os silenciamentos, abusos e todas as experiências violentas que atravessamos nos desencorajam, envergonham e intimidam a ocupar os espaços públicos e botar o corpo no mundo, quando o que o racismo quer é destruí-lo, quando viver é por si só uma afronta. Por vezes, parece haver correntes em volta dos nossos pés, das nossas mãos, mas cada vez que nos movemos estamos quebrando-as.

Se temos um corpo que pulsa, temos um corpo capaz de lutar. Mas, como podemos educar o corpo quando nem creches e restaurantes públicos nós temos, quem dirá academias públicas de fato funcionais? Como educar um corpo quando não há tempo para cuidar da nossa saúde? É necessário ou não construir uma perspectiva de cuidado feminista, popular e coletiva?

É preciso começar. Pacientemente começar. Precisamos de apenas 30 minutos dedicados a nos exercitar diariamente. Assim como todos os dias comemos, tomamos banho, dormimos, nutrimos nossos afetos, precisamos educar o nosso corpo.

Inteiras

Chame as amigas mais próximas, uma delas topará caminhadas, andar de bicicleta, aulas de dança, jogar capoeira, praticar yoga e tantas outras possibilidades. Tudo isso também é para nós, mulheres negras. Enquanto seres cíclicas, sentimos e conseguimos identificar essas mudanças especialmente nos períodos de tensão pré-menstrual, mas o exercício físico também o transforma, equilibra e harmoniza nossos sentimentos, pensamentos e disposição para o cotidiano.

Tenho ouvido uma frase do poeta Sérgio Vaz que sorrir enquanto luta é uma forma de confundir os nossos inimigos. Um corpo que se movimenta, se exercita, é um corpo que ri e brinca, é um corpo alegre, vibrante, que tem determinação e entusiasmo pela vida e carrega a certeza de que o futuro pertence a nós. Aproveitemos essa energia e a disposição que o final de um ano, e expectativa do novo ano, nos provoca, para potencializar a resistência negra que novembro tem. É tempo de semear a vida e o futuro, de mente, corpo e alma. Somos inteiras.

* Caroline Anice é baiana, psicóloga em formação, feminista popular, militante do Levante Popular da Juventude e escritora.

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