Médicos cubanos começam a se despedir de São Paulo

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Mais de 400 médicos de Cuba que trabalhavam em São Paulo iniciaram sua volta neste sábado (24)

Foto: Karina Zambrana

25/11/2018

Estado perde o atendimento de 1400 profissionais da saúde no Mais Médicos

 

Por Mauro Ramos, do Brasil de Fato (SP)

“O povo brasileiro tem uma característica que é a de abrir as portas para todos os estrangeiros em geral e de ser muito solidário. Temos muita dor por deixar tantas amizades. A gente deixa aqui um pedaço do nosso coração”, afirmou Yulianela González, uma das 202 profissionais cubanas do programa Mais Médicos que partiu no primeiro voo de volta de São Paulo para Cuba. O Brasil de Fato acompanhou a saída das médicas e médicos no aeroporto de Guarulhos (SP).

O fim da participação cubana no programa foi definido no dia 14 de novembro por decisão do governo da ilha após questionamentos públicos e ameaças de mudanças no acordo entre Brasil e Cuba, feitos pelo presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Ao todo, 8.471 médicos cubanos terão deixado o Brasil até o dia 12 de dezembro deste ano.

Os médicos iniciaram a volta na quinta-feira (22) por Brasília. Os voos dos profissionais que trabalharam no estado de São Paulo começaram neste sábado e continuarão até segunda-feira (26). Mais de 1400 médicos e médicas trabalharam pelo programa no estado de São Paulo.

González trabalhou na Unidade Básica de Saúde de Cruzeiro do Sul, no município de São Carlos durante um ano e meio. “Fizemos muito trabalho, desde educação na saúde, palestras e todo tipo de atuação. Eu tenho muita, mas muita gratidão a toda a equipe com a que trabalhei, assim como também com o povo”, expressou a doutora.

“Não somos escravos”

O médico Yuri Pozo Lago veio para o Brasil há um ano e meio junto a sua esposa, Lianette Rafael, também médica e integrante do programa. Com atuação no município de Santa Cruz das Palmeiras (SP), o casal afirmou ter se sentido “em casa”.

Os profissionais discordaram do posicionamento de Bolsonaro, que tem afirmado que os médicos seriam “escravos da ditadura”.

“Todos nós médicos cubanos viemos com um contrato assinado, todos nós concordamos com as condições de participação no programa. Ninguém foi obrigado a vir, todos viemos por vontade própria. Nós não nos sentimos escravizados. Esse dinheiro, que eles dizem que vai para a ‘ditadura’, simplesmente vai para a saúde e a educação de nosso povo”, afirmou Lianette.

“Nós acreditamos que estamos colocando nosso grão de areia para fazer com que nosso país continue crescendo e melhorando o nivel de nossos profissionais”, complementou Yuri.

Dos mais de 3.600 municípios atendidos pelo programa Mais Médicos, mais de 700 contaram pela primeira vez na história com a presença de um profissional da medicina.

Presente na despedida, o cônsul cubano em São Paulo, Antonio Mata, destacou a tranquilidade com que os médicos estão voltando para casa. “Eles estão sentindo muito ter que deixar os seus pacientes sem atenção até que seja encontrada uma nova solução. Mas por outro lado voltam com o sentimento do dever cumprido, de voltar à pátria com esta missão tão honrosa que cumpriram durante cinco anos”, concluiu em diálogo com o Brasil de Fato.

Regresso a casa

Na manhã desta sexta-feira (23), o próprio presidente cubano Miguel Díaz-Canel Bermúdez recebeu os primeiros 200 médicos que voltaram à ilha. “Vocês voltam sendo mais do que médicos, porque não só salvaram vidas no Brasil, também aliviaram as dores da alma de um povo necessitado, com a entrega de amor, carinho e assistência médica”, afirmou Díaz-Canel no aeroporto internacional José Martí em Havana.

Durante os cinco anos de duração do Mais Médicos, mais de 20 mil profissionais cubanos chegaram para trabalhar no país. Segundo o governo, 76.3% deles são mulheres; dos 8.471 que vinham trabalhando atualmente no Brasil, a proporção é de  66,2%.

Edição: Daniel Giovanaz

 

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