COLUNA l Declarações de Bolsonaro provocam cadeia de destruição na Atenção Básica

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Alexandre Padilha se despede de profissionais cubanos, no Aeroporto de Guarulhos 

Foto: Rafael Mendonça

29/11/2018

 

 

Perda de médicos cubanos deixa população mais carente desassistida e ameaça aumento da mortalidade de crianças

 

 

Por Alexandre Padilha*

Mais uma vez ocupo esse espaço para falar sobre o Programa Mais Médicos, porque a cada dia há uma nova notícia acerca do programa e impactos negativos gerados pela atitude desqualificada e preconceituosa do futuro presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Dois dados novos.  O primeiro, que já havíamos apontado, em alguns estados até 70% dos profissionais que se inscreveram no edital do Programa Mais Médicos já atuam na Estratégia Saúde da Família, em municípios brasileiros. Isso irá descobrir uma área para, supostamente, cobrir outra. É quebrar o vínculo que já existia num determinado município, entre o profissional médico e seu paciente. A saída dos profissionais cubanos desmonta, destrói o vínculo do médico, especialista em Medicina de Família e Comunidade, com a população atendida; onde havia antes informação intercultural, experiência em comunidade. Além disso, provoca uma desorganização na Estratégia Saúde da Família do nosso país.

Isso confirma o que já havíamos apontado. Não trouxemos médicos de Cuba porque gostamos mais dos médicos cubanos, mas porque o Brasil não tem número suficiente ainda de médicos especializados em Medicina de Família e Comunidade, ou dispostos a atuar na Atenção Básica, sobretudo nas áreas mais vulneráveis. Foi isto que nos levou, ainda no Ministério da Saúde (em 2013), após editais sucessivos que não completavam as vagas abertas, a recorrer ao apoio da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas/OMS), construir uma parceria com o Ministério de Saúde de Cuba, para completar essas áreas sem médicos. Essa ação gerou impactos bastante positivos.

Outro dado refere-se à nova pesquisa que mostra que a saída dos médicos cubanos pode significar o aumento de 37 mil mortes de crianças brasileiras até 2030, e mais de 40 mil mortes de crianças brasileiras pensando o Mais Médicos como um todo.

Esse estudo foi feito a partir da redução da mortalidade infantil, após a criação do Mais Médicos em áreas mais vulneráveis do Brasil. Onde houve a atuação de profissionais cubanos a redução é ainda maior, por se tratar de áreas de menor acesso, áreas indígenas, periferias das grandes cidades, sertão nordestino.

As declarações e a postura do futuro presidente Jair Bolsonaro, que aposta no conflito, provoca uma cadeia de destruição do esforço de construção da Atenção Primária à Saúde no nosso país.

* Alexandre Padilha é médico infectologista, sanitarista, professor universitário e deputado federal eleito (PT-SP). Foi ministro de Assuntos Institucionais do governo Lula, ministro da Saúde do governo Dilma e secretário de Saúde da Prefeitura de São Paulo.

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