OPINIÃO | Saúde da população negra: precisamos falar sobre mortalidade materna

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Foto: Arquivo Saúde Popular

24/10/2018

 

“Minha resposta ao racismo é raiva.
Eu vivi boa parte da minha vida com
essa raiva, ignorando-a,
me alimentando dela,
aprendendo a usar antes que
jogasse minhas visões no lixo.
Uma vez fiz isso em silêncio, com
medo de peso. Meu medo da raiva
não me ensinou nada. O seu medo
dessa raiva também não vai te
ensinar nada.”
Audre Lorde

 

Por Émily Santos

Hoje iremos nos debruçar um pouco na saúde materna brasileira. Para isso é necessário entender os dados da mortalidade materna, quais as principais causas e refletir nos cuidados que estão sendo prestados. Segundo dados de 2013 do Ministério da Saúde, morrem 60 mulheres a cada 100 mil bebês nascidos vivos, o que representa a morte de mais de mil mulheres por ano. As principais causas de morte de gestantes no Brasil são hipertensão, hemorragias, infecções pós-parto e abortos. Segundo dados de 2012, da pasta, 66% dos casos de mortalidade materna ocorreram por causas obstétricas diretas — aborto (4,4%), hemorragia (12,1%), hipertensão (20,6%), infecção puerperal (7%) e outra causas diretas (21,9%) –, 30,9% por causas obstétricas indiretas e 3,2% por causas não especificadas.

Esses números de mortes maternas que vinham registrando um recuo desde 2010, diminuem para as mulheres brancas, mas aumentam para as mulheres negras. Entre 2000 e 2012 as mortes por hemorragia entre mulheres brancas caíram de 141 para 93 casos, a cada 100 mil partos. No entanto, entre mulheres negras houve um aumento de 190 para 202. Por aborto, a morte de mulheres brancas caiu de 39 para 15 por 100 mil partos. Entre negras, aumentou de 34 pra 51.

Racismo institucional

De acordo com o Relatório Socioeconômico da Mulher, elaborado pelo governo federal em 2015, 62,8% das mortes decorrentes de gravidez atingem mulheres negras e 35,6% mulheres brancas.

Existe na população negra uma predisposição genética a doenças como hipertensão, diabetes, anemia e doença falciforme, o que explicaria uma pequena fração das mortes, no entanto tais dados refletem um racismo institucional praticado pelos profissionais de saúde. A falta de um pré-natal adequado, de analgesia na hora do parto para as mulheres negras, somadas a palavras depreciativas e à violência obstétrica (realização de procedimentos inadequados), precisam ser suprimidos. Para isso o governo necessita ampliar as estratégias para a saúde da mulher, considerando o recorte social e racial.

Frente a isso, e às vésperas do segundo turno das eleições, precisamos ter cautela ao analisar os projetos que escolheremos para as nossas vidas.

Superar ou aprofundar

De um lado temos o candidato à Presidência Jair Bolsonaro, que propõe sanar a mortalidade infantil com investimento na saúde bucal das mães. De outro lado, temos o presidenciável Fernando Haddad, que propõe uma política de igualdade racial, a revogação da Emenda Constitucional 95, que congelou a partir de 2016 os gastos na saúde e na educação, a ampliação dos investimentos na Atenção Básica, elevação a 6% do PIB para a saúde, assim como meios de fiscalização para coibir a discriminação racial no SUS. Também se propõe a retomar as políticas de saúde para as gestantes e de combate à mortalidade infantil, apoio aos municípios para a ampliação das vagas em creche que, além de representar um direito dos bebês e crianças, contribui para a autonomia das mulheres.

Sua posição política incide diretamente na vida das nossas mulheres negras, aumentando ou diminuindo os índices de mortalidade. Ainda há tempo para conversar e pensar, pois nós podemos ser as próximas mulheres grávidas a necessitar de um cuidado de saúde.

 

* Émily Santos é farmacêutica, especialista em Saúde Mental e Auriculoterapia, é militante da Consulta Popular

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