“Porque eu importo!”

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Cuidados paliativos são um conjunto de princípios éticos e técnicos, que respeitam o ser humano que padece de uma condição grave, progressiva e que lhe ameaça a vida.

Foto: Pixabay

12/10/2018

 

Colunista fala sobre a necessidade dos cuidados paliativos, celebrado em todo o mundo neste 13 de outubro

 

Por Arthur Fernandes da Silva*

O médico é um falador. É uma pena que esse papel seja o mais ativamente reforçado durante nossa formação. Ao longo do curso de graduação, das pós-graduações e na prática clínica, aprendemos a perguntar para transformar queixas em doenças/diagnósticos e propor tratamentos direcionados.

O médico é um nutridor. E tem começado a reconhecer a importância de seu papel social inserido nos mais diversos contextos e níveis de atenção à saúde, com uma possibilidade ímpar de promover junto às pessoas reflexões que alimentem sua autopercepção e sentido de autoeficácia, isto é, empoderando-as para a construção de seu estado de saúde e bem-estar.

O médico é um escutador e, resgatando o memorável Rubem Alves, tem excepcionais oportunidades diárias de exercitar a “escutatória”, empregando delicadeza no silêncio. Com humildade, entregando disposição para ouvir o outro no encontro terapêutico, assumindo um inexorável respeito por aquele que lhe demanda ajuda – por sua história, seus sofrimentos e suas lutas.

Principal

Em todos esses papéis do profissional médico, a presença da dor é marcante. Ainda assim, insistimos em ignorá-la recorrentemente. Na universidade é assunto subvalorizado, tido como mera manifestação de doença ou patologia para a qual se destinam tratamentos curativos. Na prática profissional, é banalizada de tal maneira que, a despeito de sua manifestação no corpo do outro, não lhe dedicamos tratamento e controle adequados. Na relação interpessoal, é relevada sem hesitação, independente do sorriso apagado, da voz embargada e da vontade angustiada de um amigo, familiar ou colega de trabalho.

Cuidados paliativos são um conjunto de princípios éticos e técnicos, que respeitam o ser humano que padece de uma condição grave, progressiva e que lhe ameaça a vida. Não obstante, acolhem a família desse indivíduo em uma unidade de cuidados apoiada por equipe interdisciplinar. Esse complexo pessoa-família-equipe perseguirá o controle de sintomas desconfortáveis, prezando pela comunicação compassiva ao longo de toda a sua história.

Receita de cidadania

Os cuidados paliativos não só não podem discriminar pessoas ou doenças como foco de sua atenção, como devem ser considerados uma necessidade humanitária urgente. Tendo em vista as mudanças no perfil sociodemográfico da população mundial, que se comporta com tendências particularmente diferentes entre os países mais ricos e os países mais pobres, vislumbramos um horizonte onde a prevalência e a mortalidade por doenças crônicas não-transmissíveis aumentam, mas não deixam de ser seguidas pela violência,  por doenças infectocontagiosas e por sentinelas da qualidade da assistência à saúde, como desnutrição e doenças diarreicas.

A reorganização dos papéis acima citados pode nos permitir reconhecer nossa importância na luta pela garantia da saúde como direito de cidadania, que inclui promoção e prevenção de agravos e assistência durante toda a vida, inclusive no seu fim. Importante frisar: o oposto de morte não é vida, é nascimento. O morrer faz parte da vida e merece atenção e cuidado tal qual o nascer.

Que neste mês de outubro, em que celebramos os cuidados paliativos mundialmente (dia 13), estejamos atentos e fortes, cuidando de vidas que se desenrolam, de sonhos que nascem e de ideias antigas que morrem para se transformar em novos projetos.

 

Arthur Fernandes da Silva é médico pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), residente em Medicina de Família e Comunidade pela Secretaria de Saúde do Recife e doido por histórias de gente.

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2 comentários sobre ““Porque eu importo!”

  1. Lindo texto, Arthur Fernandes!
    Após ver minha querida mãe em tormentosas horas de agonia em uma UTI sem receber a devida atenção para minimizar a sua dor e observando a indiferênça da jovem médica que a assistia percebi que algo precisa mudar na formação profissional dessas pessoas.

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