Pesquisa | Nova estratégia inibe replicação do zika

Facebooktwitter

O mosquito Aedes aegypti é transmissor do vírus zika, da dengue e da febre chikungunya

Foto: Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas

22/10/2018

 

 

Grupo internacional de pesquisadores, que inclui brasileiros da UFMG, desenvolveu uma nova estratégia terapêutica para destruir o vírus zika no cérebro

 

 

Por Rodrigo de Oliveira Andrade, da Revista Pesquisa Fapesp

Um grupo internacional de pesquisadores, entre eles brasileiros do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB-UFMG), desenvolveu uma nova estratégia terapêutica para destruir o vírus zika no cérebro. Esse agente infeccioso é especialmente danoso ao sistema nervoso e está por trás de uma ampla gama de doenças neurodegenerativas, como a microcefalia e a síndrome de Guillain-Barré, distúrbio imunológico que leva à destruição da bainha de mielina dos nervos e que pode causar paralisia.

Em um estudo publicado nesta segunda-feira, 22, na revista Nature Materials, eles descrevem o desenvolvimento de um peptídeo (fragmento de proteína) capaz de transpor a barreira hematoencefálica que isola o sistema nervoso central e de reduzir a concentração de partículas virais infecciosas no cérebro, inibindo sua disseminação.

Coordenados pelo engenheiro Nam-Joon Cho, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura, os pesquisadores sintetizaram em laboratório um peptídeo chamado AH capaz de desestabilizar o revestimento do envelope lipídico do zika, estrutura que garante a integridade de seu material genético. “A proposta era de que ele se ligasse à camada lipídica do vírus e desestruturasse sua membrana, desestabilizando seu material genético e inibindo a sua disseminação”, explica Vivian Costa, professora do ICB-UFMG e uma das autoras do estudo.

A estratégia foi testada em experimentos com camundongos geneticamente modificados que não apresentavam o receptor para uma molécula com atividade antiviral conhecida como Interferons do tipo I. Na falta dessa molécula, o vírus se replica de modo mais agressivo no organismo, gerando uma infecção grave. O tratamento começou três dias após os animais terem sido infectados. Os pesquisadores administraram duas injeções diárias do AH. Todos os 12 animais do grupo-controle, que não foram tratados com o peptídeo, morreram em até sete dias após serem infectados. No outro grupo estavam outros 12 camundongos. Tratados com o peptídeo, 80% sobreviveram.

A administração terapêutica do AH reduziu a carga viral no sangue, no baço, no cérebro e no nervo óptico dos animais. Os pesquisadores também testaram a eficácia do AH contra outros vírus, como o da dengue, febre amarela e chikungunya. O peptídeo se mostrou eficaz contra todos esses agentes infeciosos, reduzindo em até 50% a carga viral em experimentos in vitro. O próximo passo, segundo a pesquisadora, é testar a estratégia contra os vírus da dengue, febre amarela e chikungunya em camundongos. “Em relação à aplicação do AH contra o zika, já estamos avaliando-o em experimentos com primatas”, comenta Vivian. Apesar dos resultados promissores, ainda há um longo caminho até que a terapia seja convertida em uma estratégia efetiva contra a infecção causada por esses vírus em humanos.

Facebooktwitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

São bem-vindas declarações que se proponham ao diálogo, defendam posições, que exponham ideias, dúvidas, sugestões e críticas. Não serão aceitos comentários sexistas, xenófobas, racistas, homofóbicas ou que contrariem princípios dos direitos humanos. A moderação também irá filtrar a comentários que incorram em crimes de ódio, incitação à violência e calúnia. Textos com propaganda comercial serão excluídos.