OPINIÃO | Uma brecha no Outubro Rosa

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Foto: Rede HumanizaSUS

19/10/2018

“Uma mulher não é apenas uma mama, mas uma sujeita, digna de cuidado e autocuidado”, critica médica, ao defender a integralidade

 

Por Nathalia Santos*

Para cada mês do ano tem sido definida uma cor e um público a quem se destina uma campanha de promoção de saúde e prevenção de doenças. O Outubro Rosa tem como objetivo chamar a atenção das mulheres e dos profissionais de saúde para a prevenção do câncer de mama. Mesmo que o câncer possa acontecer também em homens, são as mulheres o foco da campanha.

Muitas críticas são feitas a esta campanha e outras, em especial quanto à prática de rastreio generalizado de um grupo populacional, em que se usa como fator de inclusão, às vezes não rigorosa, a idade de 50 a 69 anos para aquelas que não apresentam história familiar de câncer de mama em parente de primeiro grau (mãe da paciente, irmã ou filha). O rastreio generalizado tem se mostrado danoso e resultado no que os autores de estudos científicos chamam de sobrediagnóstico, quando é feito o diagnóstico de uma doença que no futuro não causaria sintomas ou morte. Assim também a lógica do sobretratamento, quando a pessoa é medicada sem evidência de que há benefícios.

Em tempos de meses coloridos é importante resgatar os princípios do Sistema Único de Saúde. A integralidade, por exemplo, afirma a necessidade do cuidado em saúde para o indivíduo como um todo. A oportunidade, ou melhor a brecha, é aproveitar esse momento de Outubro Rosa para falar sobre saúde integral da mulher.

São as mulheres as que mais frequentam os serviços de saúde, apesar disso têm sua subjetividade tão pouco explorada e os cuidados em saúde frequentemente reduzidos à vagina, útero e mama. As mulheres são também as que mais utilizam medicações psicotrópicas, como antidepressivos e ansiolíticos, além de serem portadoras de doenças que não se conhece bem a etiologia, mas são conhecidos os fatores de risco. É o caso da fibromialgia. Ao olhar o motivo da prevalência de determinadas doenças nas mulheres, salta aos olhos que estão intimamente ligados ao papel que ocupam no mundo.

Devemos, diante desta mulher que procura o consultório, olhar para a sua cor, saber as marcas, as cicatrizes, violências e batalhas. Cada corpo feminino é um campo de batalha, onde convive a violência e a resistência. Violência, em muitos casos, sofrida na tenra idade e repetida até os vários fios brancos tomarem o cabelo. As mulheres são chefas sozinhas de milhões de lares. São pontos de unidade quando matriarcas, reunindo gerações da família em almoços de domingo. Também carregam solitárias o fardo diário da vida doméstica que mutila sonhos, aterra a autoestima e até mata, com golpes praticados por aqueles com quem é dividida a cama.

O primeiro passo para o cuidado integral dessas mulheres, que ousam construir a existência, é olhar bem nos seus olhos, ainda que o olhar esteja baixo ou cansado. Com perguntas abertas percorrer o motivo que as levam ao consultório, sem deixar de tatear a estrada de vida percorrida nas labutas diárias.

O diálogo, em uma investigação clínica, pode ser a melhor ferramenta para a construção do vínculo. A partir do vínculo, e do cuidado integral, é possível resgatar que uma mulher não é apenas uma mama, mas uma sujeita, digna de cuidado e autocuidado. Uma brecha no Outubro Rosa é necessária e pode ser construída.

* Nathalia Santos é médica de Família e Comunidade, especialista em Medicina Tradicional Chinesa e membro da Rede Nacional  de Médicas e Médicos Populares (RNMMP).

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