ARTIGO | Bolsonaro é uma ameaça à saúde da população

Facebooktwitter

Ato na Faculdade de Saúde Pública, em defesa da saúde e da democracia, em 7 de abril de 2016
Foto: Roberto Parizotti

19/10/2018

 

A partir da leitura das propostas de Jair Bolsonaro percebe-se que ele não entende nada de saúde pública

 

Por Camilla Veras*

Dediquei alguns minutos do meu dia para ler o programa de governo para a saúde do candidato Jair Bolsonaro (PSL). Como mulher, mãe e profissional de saúde esse tema me toca diretamente. Quais as propostas deste candidato para melhorar a condição de saúde das pessoas? Aqui vai o que eu encontrei:

Linha de ação

O primeiro momento que o candidato fala sobre saúde é quando apresenta as linhas de ação do seu programa de governo. De imediato me chamou atenção o fato de saúde e educação estarem misturadas, duas questões cruciais para o Brasil, tão complexas, apresentadas juntas e de forma superficial. Em três linhas de forma genérica, o candidato afirma o que pretende fazer com essas duas áreas: eficiência, gestão e respeito à vida das pessoas. Sem nenhum detalhamento.

Recursos para o SUS

Bolsonaro afirma que não vai destinar mais dinheiro para investir em saúde. Votou a favor da Ementa Constitucional 95, que congelou a partir de 2016 os investimentos em saúde, educação e assistência social por 20 anos. Não conhece a realidade da saúde pública brasileira. Não sabe que faltam profissionais, insumos básicos em hospitais, medicamentos e infraestrutura. Não sabe que a cobertura da saúde é baixa diante da população, que vai crescer e envelhecer até 2036. Afirma, em seu programa, que dá para fazer muito mais com os recursos disponíveis, mas não explica. Mais uma frase de efeito, uma promessa vazia.

Cadastro de médicos

“Toda força de trabalho da saúde poderá ser utilizada pelo SUS, garantindo acesso e evitando a judicialização. Isso permitirá às pessoas maior poder de escolha, compartilhando esforços da área pública com o setor privado. Todo médico brasileiro poderá atender a qualquer plano de saúde”.

Ele ainda diz que criará a carreira de “Médicos de Estado” para “atender às áreas remotas e carentes do Brasil”.

Não deixa claro qual será esse “esforço da área pública com o setor privado” e, se é contrário ao Mais Médicos, que já cumpre esse papel de levar profissionais médicos a áreas mais distantes, porquê deseja criar a carreira de médicos de Estado.

Me indigna o fato de que o dinheiro que deveria ser investido em mais profissionais para trabalhar no SUS, será destinado aos planos de saúde que pagam um valor irrisório aos médicos, usam a estrutura do sistema público e deixam de pagar para o SUS pelos atendimentos. Um plano de negócio perfeito para drenar dinheiro público da saúde para o setor privado. Enriquecer ainda mais os empresários de planos de saúde.

Educador físico no PSF

Isto já existe! O educador físico está presente no Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf) junto com psicólogo, nutricionista, fisioterapia, e outros. O Nasf oferece suporte às demandas de saúde dos territórios, mas é preciso expandir o número de equipes multiprofissionais, ampliar sua cobertura e atender de forma mais efetiva as Unidades Básicas de Saúde. Uma contradição, como ampliar o NASF e garantir mais profissionais sem aumento de recurso?

Saúde bucal e prematuridade

Talvez esse ponto seja o mais questionável. O SUS possui uma estratégia de rede de cuidados para assegurar às mulheres o direito ao planejamento reprodutivo e a atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério, bem como assegurar às crianças o direito ao nascimento seguro e ao crescimento e desenvolvimento saudáveis. O desafio é ampliar o acompanhamento, aumentar o número de equipes de saúde, diminuir as filas para exame, disponibilizar mais medicamentos e equipar as maternidades públicas, para aprimorar a oferta. A prematuridade e a mortalidade neonatal devem ser avaliadas a partir de diversos fatores, como acesso às condições básicas de cuidado e saúde, além da compressão dos fatores de risco que devem ser monitorados nas consultas, o que inclui a saúde bucal, mas não pode ser reduzida a ela.

Ameaça à saúde

A partir da leitura das propostas de Jair Bolsonaro percebe-se que ele não entende nada de saúde pública! O candidato demonstra, por mais de uma vez, o desconhecimento do funcionamento e das demandas reais da população.

Além do programa, com propostas superficiais e deslocadas da realidade, Bolsonaro tem feito falas muito graves com relação à saúde pública. A mais recente delas é que as pessoas precisam de emprego e não de saúde. Como se residisse aqui uma concorrência e não uma complementariedade. Empregos precarizados, sem direitos e segurança, impactam diretamente nas condições de saúde dos trabalhadores.

Caso seja eleito, as condições de vida e de saúde das pessoas tendem a piorar, tendo em vista a ameaça de um governo autoritário e neoliberal.

* Camilla Veras é mãe, psicóloga, feminista, doutoranda em Psicologia Social pela PUC-SP, facilitadora de círculo de mulheres na Casa da Guia e militante da Consulta Popular.

Facebooktwitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

São bem-vindas declarações que se proponham ao diálogo, defendam posições, que exponham ideias, dúvidas, sugestões e críticas. Não serão aceitos comentários sexistas, xenófobas, racistas, homofóbicas ou que contrariem princípios dos direitos humanos. A moderação também irá filtrar a comentários que incorram em crimes de ódio, incitação à violência e calúnia. Textos com propaganda comercial serão excluídos.