Agricultura e alimento: esperança e resistência do Brasil sem famintos!

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Foto: Reprodução Internet

17/10/2018

País é premiado em evento da FAO pela Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, em semana que celebra Dia Mundial da Alimentação

 

Por Carla Bueno*

O Brasil tem muito a comemorar na semana que inclui o Dia Mundial da Alimentação – celebrado em 16/10 – e mostrar ao mundo nossas iniciativas de alimentar o povo brasileiro com saúde, apesar das controvérsias conjunturais que têm nos impedido de sonhar adiante.

Ao lado de Dinamarca, Equador e vários países, o Brasil recebeu o Future Policy Award – Prêmio de Políticas para o Futuro de 2018 pela excelência da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Pnapo). O reconhecimento, promovido em evento no último 15 de outubro, pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), na Itália, foi atribuído a uma experiência construída a muitas mãos, num processo articulado entre governo e sociedade civil durante os governos petistas. A Pnapo foi premiada por interessar ao mundo que o Brasil transforme o seu modelo de produção e garanta a oferta de alimentos saudáveis para seu povo e aos de outras nações.

Pronara

O plano contém uma série de medidas profundas de curto, médio e longo prazos para nos posicionar exemplarmente como um País que produz alimentos saudáveis. Foi implementado em 2012, ainda que sem os pontos que não convergiam com o agronegócio, como o eixo da redução de agrotóxicos apresentado pelo Pronara (Programa Nacional de Redução e Agrotóxicos). De maneira geral foi construído num período em que se projetava um Brasil Nação, com claras perspectivas de fortalecimento da agricultura familiar, responsável por 70% dos alimentos que estão no nosso prato, mas não sem sofrer com a histórica disputa de projetos de desenvolvimento.

A questão dos agrotóxicos é o grande calcanhar de Aquiles do agronegócio brasileiro, e a motivadora da existência da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, organizada desde 2011 por setores impactados de forma negativa. Não apenas porque este é um modelo baseado em monocultura e latifúndio, que gera dependência desses insumos para a produção, mas também porque as relações políticas e econômicas do agronegócio brasileiro, com as empresas de capital internacional produtoras de agrotóxicos, estão imbrincadas diretamente, visto o longo período de financeirização do capitalismo, e como não podia deixar de ser num país de cultura domesticada, financeirização da agricultura e consequente ameaça a nossa cultura alimentar.

Veneno mata, não alimenta

A utilização de veneno na agricultura é um fenômeno recente na história do Brasil. Data da metade do século passado, período em que já eramos capazes de produzir o suficiente para alimentar a nossa nação, ainda que a questão da fome tenha sido sempre uma preocupação social. A campanha do Betinho foi uma importante iniciativa durante a década de 1990, num período em que o neoliberalismo deixou 32 milhões de famintos. Com o slogan “Quem tem fome tem pressa” a campanha se tornou uma referência internacional, obrigando os governantes a olharem para o povo.

De la pra cá, campanhas como essas dialogaram com o povo do campo e da cidade e fizeram crescer a massa que luta por direitos. Avanços vieram e a miséria foi praticamente erradicada, substituída por programas sociais que favoreciam a produção de alimentos. Porém, desde que o povo trabalhador deixou de ser a prioridade novamente, com o golpe de 2016, a realidade da fome voltou a nos assombrar e corremos o risco de voltar ao Mapa da Fome.

Para alertar esse prenúncio, a Via Campesina junto com a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, FIAN Brasil e Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional se posicionam no Manifesto Pela Democracia e contra a fome, pois não haverá retrocesso sem resistência e luta!

O documento denuncia as graves violações de direitos que afetam duas dimensões do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) no Brasil: o direito de não sofrer fome e o direito de nos alimentarmos com base em processos e sistemas alimentares adequados, sustentáveis e saudáveis.

Carla Bueno é engenheira agrônoma e membro da coordenação da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida.

 

 

 

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