Saúde mental, um direito ainda pouco acessível

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Bem-estar não significa ausência de sofrimento e nem felicidade permanente, diz especialista.

Foto: Marcos Santos / Fotos Públicas

12/09/2018

 

Modelo de sociedade atual aumenta necessidade de ajuda psicológica

 

 

Por Luciana Console, para o Saúde Popular

De acordo com a Declaração dos Direitos Humanos, a saúde é um direito universal. Porém, quando se fala no assunto, a saúde mental não é encarada da mesma forma. É o que afirma a psicanalista Ana Gebrim, ao explicar que ela deve ser encarada como algo coletivo, justamente por permear todos os espaços de convivência da sociedade.

“É um assunto de todos nós e diz respeito basicamente a ideia de que possamos conviver minimamente em harmonia e bem estar. Ou seja, a saúde mental está atrás e na frente de todas as pequenas coisas que ocupam o cotidiano como dormir, levantar, trabalhar, amar, conseguir se organizar financeiramente, conseguir ter amigos, viajar, permanecer nos lugares, frequentar as coisas, enfim”.

Barbárie

Problemas relacionados à saúde mental como ansiedade, estresse, fobias e depressão têm aumentado, de acordo com relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS). Para Yanina Stasevskas, psicanalista que por 10 anos dirigiu o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Butantã, o aumento de desequilíbrios e sofrimentos são subproduto do sistema capitalista.

“Nós temos uma sociedade que é bárbara, não só pelas exploração dos trabalhadores, mas também por causa do sistema de alienação, que o próprio Marx já falava; que cria o sujeito adaptado a essa sociedade, de foma que eles respondam ao sistema e se alienem das próprias condições”.

Entretanto, a crescente necessidade de ajuda é acompanhada pela dificuldade do acesso ao atendimento psicológico, seja pelo alto valor em consultórios particulares ou pela superlotação nos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). Muitas vezes, esses problemas e adoecimentos psicológicos tem na medicalização a saída prioritária ou única, em consultórios das mais variadas especialidades médicas.

“E o que a gente vê de forma disseminada hoje é o sofrimento, a angústia, o medo, a tristeza serem não só patologizadas, como excessivamente medicalizadas. Então hoje é quase que um fenômeno social, crianças, adolescentes, adultos, idosos [ser medicalizado]; não precisa nem ser o psiquiatra que dá o antidepressivo e remédio”, afirma Ana Gebrim.

Sem pílula mágica

Segundo a psicanalista, bem-estar não significa ausência de sofrimento e de felicidade permanente, mas um estado onde o ser humano aprende a lidar com as questões diárias, sem “pílula mágica”.

A ex-diretora do Caps acrescenta que a medicalização excessiva é parte do fenômeno de “destruição da vida simbólica humana”. Segundo Yanina Stasevskas, a chamada vida simbólica consiste no convívio entre as pessoas na forma de solidariedade e troca de valores, para além dos financeiros. Algo completamente oposto à lógica do mercado, onde o lucro é o foco.

A necessidade do cuidado com a vida simbólica é de todas as classes sociais, porém são as classes menos favorecidas as mais atingidas pelo sistema e com mais dificuldades de acesso.

Psicanálise

A psicanálise entra como uma das terapias mais comuns, pelo fato de enxergar o ser humano dentro do contexto em que vive. Ao contrário do que muitos pensam, a psicanálise não é uma ciência, mas sim uma arte, que tem como objetivo a investigação e compreensão do inconsciente e é considerada como uma forma de tratamento das psiconeuroses que acometem os seres humanos.

“A psicanálise pretende tratar do sujeito como é constituído em nossa sociedade, então ela aborda não só as estruturas subjetivas, mas uma coisa que é o inconsciente”, explica Yanina.

Em São Paulo, diversos lugares prestam atendimentos a pessoas de baixa renda. Os valores são negociáveis ou até mesmo gratuitos, dependendo da política de cada serviço.

Seguem abaixo alguns endereços e telefones de serviços sociais.

 

Serviço:

Onde encontrar atendimento comunitário?

– Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae

Rua Ministro de Godói, 1484 – Perdizes

Tel. 11 3866-2730

 

– Casa do Povo

Rua Três Rios, 252 – Bom Retiro

Tel. 11 3227-4015

 

– Clínica Psicológica “Ana Maria Poppovic” da PUC

Rua Almirante Pereira Guimarães, 150 – Pacaembu

Tel. 11 3862-6070

 

– CLIPP – Clínica Lacaniana de Atendimento e Pesquisas em Psicanálise

Tel 11 3864-7023

O primeiro atendimento é na Rua Cardoso de Almeida, mas existem clínicas na zonas Leste e Sul da cidade de São Paulo

 

–  CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos)

Rua Almirante Pereira Guimarães, 378 – Pacaembu

Tel. 11 3864-2330 / 3865-0017

 

Edição: Cecília Figueiredo

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