Encontros que curam: o poder do círculo de mulheres

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Rodas de conversa proporcionam acolhimento e empoderamento das mulheres

Foto: Arquivo Casa da Guia/SP

28/09/2018

 

 

“Mulheres são como água crescem quando se encontram”

(Autoria desconhecida)

 

Por Camilla Veras*

Há tempos gostaria de falar da potencialidade terapêutica do encontro entre as mulheres e partilha de saberes, histórias e estratégias de resistência. Como afirmo no título, o círculo de mulheres tem poder de cura!

A simbologia do círculo está presente em distintas culturas humanas, representa aquilo que é perfeito. Representa a unidade, a totalidade, o que não tem começo e nem fim. O círculo permite a transmissão da palavra num fluxo contínuo, a partilha de saber de forma horizontalizada e a troca de olhares entre todas as participantes.

O patriarcado na sua expressão ideológica e cultural coloca as mulheres como inimigas que disputam entre si e que não se pode confiar. Um paradoxo, tendo em vista que nos reunimos enquanto mulheres há milênios. Nos reunimos, compartilhamos segredos, celebramos rituais de passagem, dividimos o sofrimento e resistimos com essas práticas mesmo em uma sociedade que nos segrega e subjuga.

Círculo da resistência

Queria que você lembrasse das mulheres da sua família na preparação das festas, e também da figura da “melhor amiga”. Quantas melhores amigas tivemos, quase como irmãs que compartilhamos alegrias e tristezas em determinados momentos da nossa vida? Quantas tias, primas, irmãs, avós estiveram presentes em fases importantes das nossas vidas?

Espinosa afirma que os seres humanos possuem a capacidade de afetar e serem afetados. Os afetos alegres geram potência de vida, de ação e saúde. Neste sentido, o círculo funciona como uma reconstrução destes espaços que permitem encontros potentes e afetações entre mulheres. Encontros capazes de promover transformações internas profundas.

Dança Circular resgata práticas ancestrais e antigas, presentes em rituais de comunidades e tribos do mundo | Foto: Pref, Chapada dos Guimarães

A roda de mulheres possui este potencial curativo, pois permite o compartilhamento de vivências e sentimentos que nos são comuns. No círculo revelamos segredos e angústias, nos acolhemos e apresentamos nossas estratégias de enfrentamento à realidade em que vivemos. Inspiramos umas as outras, partilhamos conhecimento, ficamos sensibilizadas com as histórias relatadas, sentimos nosso corpo vibrar e ser tocado de forma diferente. Rimos, choramos, dançamos, falamos, cantamos e sonhamos juntas.

Espaços de saúde

Os grupos de mulheres existem e são potentes em várias cidades, posso citar alguns que conheço e indico, como as rodas da Abayomi em Pernambuco, a Casa da Guia em São Paulo, de mulheres gestantes do Cais do Parto e as Plantadeiras em Salvador. Além de diversos espaços de partilha sobre o manejo das ervas medicinais, aromaterapia e ginecologia natural que crescem em todo país.

A construção de um espaço onde a palavra pode fluir de forma honesta entre mulheres é uma maneira de promovermos saúde e cuidado entre nós, pois assim fortalecemos laços afetivos e solidários e caminhamos em direção transformação da nossa realidade.

Frente ao individualismo e isolamento das relações na sociedade capitalista, racista e patriarcal que tanto nos adoece, estar entre mulheres é um ato de cura e resistência.

* Camilla Veras é mãe, psicóloga, feminista, doutoranda em Psicologia Social na PUC-SP, facilitadora de círculo de mulheres na Casa da Guia e militante da Consulta Popular.

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