ARTIGO | Financeirização na saúde: Dr. Consulta e o banco americano JP Morgan

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Unidades estão localizadas em pontos de grande circulação e fácil acesso.

Foto: Reprodução

13/09/2018

Gestão de curto prazo, redução de custos e a constituição de grandes grupos econômicos são as palavras chave da financeirização na saúde.

Por Ricardo Lima Jurca*

A rede Dr. Consulta, de clínicas particulares voltadas para as classes C e D, está em busca de um novo investidor para os seus negócios, conforme publicou o jornal O Estado de São Paulo no último dia 7 de setembro de 2018. A companhia contratou o banco americano JP Morgan para expandir os seus negócios.

A JP Morgan participa de um seleto grupo econômico que possui trilhões de dólares em mãos para controlar diferentes setores, como manufatura, mineração, comércio, planos de saúde, telefonia, finanças e seguros, administração pública etc. O mais importante é que nas dezenas de setores em que participam, em dezenas de países e com milhares de empresas controladas, o denominador comum é o resultado financeiro.

Dado que a empresa Dr. Consulta chegou a um estágio maduro de desenvolvimento dos investimentos iniciados em 2014/2015 mediante fundos estrangeiros, e devido ao seu forte poder de barganha, a empresa converteu a sua dívida em instrumento de investimento do proprietário da marca. Isso reflete a expansão do negócio Dr. Consulta em curto espaço de tempo e a reviravolta no mercado de saúde.

Além desta parceria com o banco americano a rede de clínicas particulares Dr. Consulta possui outros fundos de investimento estrangeiros como o argentino Kazek Ventures, o austríaco LGT e o suíço HSG Fund, que juntos somam um total de US$ 95 milhões (quase R$ 400 milhões, pelo câmbio atual) em investimento na empresa.

Como várias clínicas já estavam funcionando com sucesso, os investimentos iniciais tiveram prova de conceito. Para o fundo suíço HSG, por exemplo, o tamanho do acordo escolhido permitiu o financiamento de três clínicas com o montante mínimo de investimento para início de uma clínica em $ 750 mil dólares. O prazo de investimento de 5 anos foi dividido em três fases de financiamento. Na fase 1 (2015-2016) e fase 2 (2016-2017), o Dr. Consulta recebeu do fundo HSG um empréstimo de US$ 750 mil dólares por ano com taxa de juros flexível, possibilitando a construção de duas novas clínicas.

Em teoria, os clientes-alvo do Dr. Consulta cobrem todos os estratos sociais no Brasil por causa do inevitável mercado de cuidados de saúde. No entanto, a demanda atual deriva de clientes com um perfil de renda de R$ 1.085 até R$ 7.475, que inclui a classe de renda média (65%) e a parte inferior da pirâmide (35%). Os custos de consulta variam entre 65 e 80 reais (US$ 20 e US$ 30) e podem ser pagos em duas parcelas, em caso de restrições financeiras dos clientes, o que é especialmente importante para clientes pertencentes à base da pirâmide econômica.

Agindo nas dobras do Sistema Único de Saúde (SUS), a empresa desceu até as bases da rede de serviços públicos com um primeiro experimento na favela de Heliópolis, que integrava uma população emergente que até pouco tempo atrás ainda não tinha acesso às clínicas particulares, entendendo que ali o paciente precisava gastar pouco com as consultas e os exames, e também dando os primeiros passos para coleta de informações para redução de custos do negócio.

A partir dali, seus três objetivos iniciais foram alcançados: testar o conceito da marca nas periferias da cidade de São Paulo, gerar impacto e ser lucrativo. E agora em parceria com o mercado financeiro, a empresa pode tornar-se o parâmetro para se pensar um mundo que busca a melhor maneira de realizar algo e criar as suas próprias regras, acima do poder regulador dos Estados.

Se pensarmos que tantos países aceitaram sacrificar os investimentos públicos e as políticas sociais, inclusive o Brasil, para satisfazer este concentrado mundo financeiro, não há como não ver a dimensão política que a expansão desse negócio lucrativo assumiu. Com a fragmentação da capacidade pública, qualquer regulação ou ordenamento do que acontece no planeta parece estar fora do nosso alcance, o que abre espaço para o vale-tudo.

Assim, a financeirização na saúde com gerência de curto prazo, redução dos custos e constituição de grandes grupos econômicos, filtram as pressões sociais, em especial aquelas específicas da saúde como direito social, ao mesmo tempo em que escavam seus lugares na nova configuração do sistema de saúde. De forma que agindo nas dobras do Sistema Único de Saúde, elas aumentam a estabilidade e a legitimidade do campo financeiro na saúde.

O poder mundial realmente existente está em grande parte nas mãos de gigantes que ninguém elegeu e sobre os quais há cada vez menos controle. Nunca é demais lembrar que, com as tecnologias digitais, a gestão em escala mundial se tornou muito acessível, e o poder de tratamento da informação por algoritmos (incluindo aqui os dados dos prontuários eletrônicos dos pacientes) gera um novo contexto de gestão corporativa, para o bem e para o mal.

Como simples mortais só vemos as consequências do avanço dessas formas de monetarização do acesso aos serviços de saúde no extrato do cartão de crédito que temos nas mãos, ou no preço da consulta na clínica mais próxima. Escapa-nos o gigantesco emaranhado burocrático e o descontrole que se verificam no conjunto dessas negociações para o setor público.

Referências:
ASPEN NETWORK OF DEVELOPMENT ENTREPRENEURS; LGT VP; QUINTESSA PARTNERS. Mapping the Impact Investing Sector in Brazil: Summary of findings. S.l., 2014.
BOCH, J., ROTONDARO, A., MEYNHARDT, T. Dr.Consulta – The Entrepreneurial Challenges of Impact Investing in Healthcare for the Base of the Pyramid in Brazil. Impact Investing, 2014.
CREDIT SUISSE AG RESEARCH INSTITUTE. Investing for Impact: How social entrepreneurship is redefining the meaning of return. Geneva: Credit Suisse, 2012.
KIMAKOWITZ, E.; LUCENA, L. (Org.). Collection of Course Papers from Impact Investing: Redefining the Meaning of Return, St. Gallen, 2015
LUZ, C; SCHELLER, F; SCARAMUZZO, M. Rede de clínicas populares Dr. Consulta busca sócio para acelerar expansão. O Estado de São Paulo, 7 de setembro de 2018.

 

* Ricardo Lima Jurca é sociólogo e doutor em Ciências, é autor da pesquisa “Individualização social, assistência médica privada e consumo na periferia de São Paulo”, defendida no final de abril pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP)

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