ARTIGO | Alma-Ata 4.0 e a uberização da saúde

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Uso de aplicativos voltados à saúde aumentou 62%, entre 2013 e 2014, e a tendência é crescer mais, diz pesquisa

Imagem: CF/Saúde Popular

15/06/2018

Modelo ignora quem e o que criou a desigualdade social; a responsabilidade passa a ser do usuário consumidor 

 

Por Ricardo Lima Jurca*, para Saúde Popular

Segundo Ludmila Costhek Abílio, “não é difícil imaginar que hospitais, universidades, empresas dos mais diversos ramos adotem a uberização, utilizando-se do trabalho de seus ‘colaboradores just-in-time’ de acordo com a sua necessidade”.

Para Daniel Lindenberg, empreendedor da Docway esta necessidade na saúde já é uma realidade: “Ninguém precisa lembrar de tantas informações”. “É preciso saber onde está e quando precisar”. “Receber os serviços móveis também na saúde, eu não diria que é um efeito da crise da saúde, mas que é um efeito do comportamento dos indivíduos”.

A empresa-aplicativo que leva o médico até a casa do cliente esperava que as chamadas acontecessem mais no centro expandido de São Paulo. Ao contrário, a experiência de atendimento médico a domicílio acontece em grande quantidade nas periferias da cidade.

A ideia é que a intensa experimentação no uso de novas ferramentas de celulares e afins está criando um novo sistema econômico, o da economia da partilha na comunidade dos bens comuns. Basta navegar rapidamente na loja de aplicativos do smartphone ou tablet para perceber que existem milhares deles voltados para a saúde: orientações sobre nutrição, alertas para ingestão de remédios e até ferramentas que reúnem informações sobre o histórico médico do paciente. Uma pesquisa feita pelo Institute for Healthcare Informatics mostrou que em seis meses, entre 2013 e 2014, o uso dessas ferrramentas aumentou 62% e a tendência é crescer mais.

Desta forma, constitui-se uma empresa-aplicativo de investimentos de impacto social na saúde, cujo tema da acessibilidade tem pouca materialidade, mas altíssima visibilidade. A uberização, como um futuro possível para empresas em geral, procura corrigir sintomas, através de tecnologias separadas de um entendimento do contexto social e político, aproveitando os vácuos normativos do SUS. A responsabilidade passa a ser do usuário-consumidor que têm a função de criar novos padrões de relacionamento com as empresas, incluídos aí custos e ganhos.

A nova economia de serviços de compartilhamento entra na disputa pelo acesso à atenção primária para a base da pirâmide socioeconômica em mercados emergentes com acesso monetarizado, rápido e com avaliação instantânea do atendimento médico concorrendo com as terceirizadas da saúde. Porque, guiada pela ideia de economia compartilhada, os serviços criam a necessidade de manter as redes de assistência à saúde desintegradas, complementares e funcionalmente produtivas para o SUS.

Todos os investimentos destas empresas são cuidadosamente selecionados com base em um catálogo fixo de critérios com um consumidor delimitado e de demanda fechada o que garante que seus investimentos a longo prazo sigam uma abordagem de linha dupla, que procura obter retornos financeiros sem comprometer sua missão social.

Embora haja uma tendência no discurso de priorizar a missão social, mais importante são os bens efetivamente acessados e consumidos. Muito provavelmente, por sua maior concretude, afinal, com a radicalização do fracionamento dos indivíduos, é mais agradável para os usuários discorrer sobre a consulta marcada pelo celular do que sobre a última experiência de marcar presencialmente uma consulta no posto de saúde.

Além disso, há uma pressão individualista de novo tipo, por um acesso mais pessoal do que coletivo. Contudo, no momento, o aumento de expectativas nessa direção não tem dado lugar a um desdobramento político, nem à aparição massiva de condutas antissistêmicas.

Se por um lado as expectativas individuais e as exigências por acesso à saúde dependem da organização institucional da saúde, pelo outro, e frente ao que muitos indivíduos percebem como obstáculos insuperáveis, se reforçam sentimentos e busca por respostas, bem como atalhos individuais a partir dos repertórios já existentes.

As pessoas acabam dizendo, se somos indivíduos individualizados é porque existe uma profunda acentuação dos novos perfis individuais a partir das instituições. E temos como indivíduos que aprender a responder as prescrições das instituições.

As necessidades em saúde mudaram e os arranjos institucionais precisam mudar também. Segundo o pesquisador canadense Gerry Bloom, do Institute of Development Studies [Universidade de Sussex]: “Muito daquilo que foi acordado na Alma-Ata em 1978, não foi atingido até hoje, portanto é preciso analisar os novos cenários e agir de acordo com essas novas necessidades”.

Novos tipos de parcerias surgem para o gerenciamento do sistema de saúde, com focos nas demandas dos diferentes grupos, porém sem priorizar os mecanismos de participação e controle social. Isso é essencial para um novo tipo de regulação que considere novas dinâmicas de acesso aos serviços de saúde. O que a experiência do Sistema Único de Saúde brasileiro pode ensinar?

*Ricardo Lima Jurca,  sociólogo e doutor em Ciências, é autor da pesquisa “Individualização social, assistência médica privada e consumo na periferia de São Paulo”, defendida no final de abril pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP)

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