Violência obstétrica: parturiente relata o que sofreu quando perdeu seus dois filhos

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Imagem: Reprodução/Youtube
02/01/2018

 

“Decidi relatar todo o processo do meu trabalho de parto para contar a rápida evolução do trabalho de parto, denunciar as violências obstétricas que sofri e alertar todas as futuras mamães.”

Relato de Ana Paula*, vítima de nove tipos de violência obstétrica.

Tenho 21 anos e sempre achei que não queria ser mãe, por isso, tomei anticoncepcional por muito tempo. Mesmo tomando Elane 28 fiquei grávida.

Em 20 de julho fiz um teste de farmácia e apareceu o resultado positivo. Dai em diante, passei a trabalhar comigo mesma como aceitar a gestação, já que não foi planejada e não era esperada.

Em 9 de agosto, no primeiro exame de ultrassom, com 9 semanas de gestação ouvi dois corações: gêmeos, duas bolsas e duas placentas. Fiz o pré natal no Hospital das Clinicas (SP) por serem dois bebes.

Com o tempo comecei a aceitar muito melhor a gravidez. A cada exame de ultrassom me apaixonava mais pelos meus bebês. Logo comecei a senti-los. Comecei a planejar minha vida baseada neles; meu companheiro e eu alugamos uma casa. Logo que descobrimos que eram dois meninos começamos a planejar o chá de bebê.

Quando recebi uma proposta para fazer uma viagem para Fortaleza para participar de uma assembleia que me interessava muito, perguntei à minha ginecologista se eu podia. Como tudo estava muito bem, ela atestou a liberação pra viagem. Em 12 de novembro embarquei para Fortaleza com a passagem de volta marcada para o dia 18 do mesmo mês.

A viagem foi tranquila. No entanto, desde o terceiro mês de gravidez eu sentia dor nas costas, na região lombar. E durante toda a viagem a dor permaneceu.

Em 16 de novembro, pela manhã, tive um corrimento mais esbranquiçado e logo comecei a sentir uma cólica bem fraca no pé da barriga. Como eu já havia sentido essa cólica e a médica havia me avisado que era normal por conta do peso dos bebês, não me preocupei. Passei o dia deitada.

À uma da manhã, a dor intensificou um pouco. Das 3 às 4 comecei a andar na casa em que estava e a dor foi aumentando. Acordei uma companheira de quarto e pedi pra ela chamar a equipe de saúde que logo foi até lá me ver. Não aguentava ficar sentada, nem deitada. A equipe achou melhor ir ao hospital.

Fomos para o Hospital Gonzaguinha de Messejana. Na obstetria havia a placa “Centro de parto humanizado”. Fomos avisados que eu não poderia ser atendida pois o hospital estava sem água e sem remédios. Chorei, pedi pra que eles apenas me examinassem. A enfermeira perguntou se eu estava em trabalho de parto e eu prontamente disse que não, que estava apenas de 22 semanas e 4 dias. Ela chamou o obstetra, que me fez um exame de toque e me avisou que eu estava com 2 cm de dilatação.

Tentei manter a calma. Eu havia lido muitas coisas sobre a gravidez de gêmeos e me lembrei que muitas mulheres tinham dilatação desde o meio da gestação – e mesmo assim levavam a gravidez até o fim.

O médico me medicou e disse que eu deveria buscar outro hospital com melhores estruturas.

Saí de lá desnorteada e com muito medo. Liguei pro meu companheiro pra avisar o que estava acontecendo enquanto ia para o próximo hospital.

Ao chegar no Hospital Geral de Fortaleza fomos para a emergência obstétrica. Esperei 20 minutos para ser atendida, mas  pareciam 2 horas. Sentia uma dor que não deixava eu esperar sentada.

Fui atendida por uma médica e uma residente (que eu adoraria saber o nome e agradecer por tudo que ela fez. Daqui em diante ela permaneceu ao meu lado o tempo todo). Me levaram pra sala de ultrassom pra ver como os bebês estavam: batimentos cardíacos perfeitos. No HGF não tinha os comprimidos para inibir o trabalho de parto que introduziram no outro hospital, então a doutora pediu para meu acompanhante – que é médico – ir até a farmácia rapidamente comprar.

Me deixaram deitada e a residente começou a acompanhar as contrações (que eu achei que eram gases) e quando ela me disse que minhas contrações estavam com duração de 40 a 48 segundos e com intervalos de um minuto a um minuto e meio, meu mundo começou a desmoronar.

Comecei a chorar muito. Queria minha mãe e meu companheiro comigo. Fui tomada por um sentimento de desespero e muito medo…. eu não queria perder meus bebês.

Me pediram então pra que eu fosse colher urina. Levantei e fui caminhando lentamente até o banheiro. Entrei e tranquei a porta. Senti uma vontade de fazer força. Não consegui conter meu corpo, que expulsou a primeira bolsa.

Na hora achei que fosse meu filho. Comecei a gritar por socorro desesperadamente dizendo que meu bebê tinha saído.

Fui até a porta do banheiro segurando a bolsa e abri. Me colocaram na cadeira de rodas. Meu acompanhante já havia voltado com os remédios, mas era tarde demais, eu estava com dilatação total. Tiraram minha roupa e me subiram pro centro obstétrico.

Cheguei lá sem saber o que fazer. A primeira violência que sofri, foi a não permissão da entrada de um acompanhante, mesmo estando acompanhada por dois médicos. Mas na hora, eu só pensava que queria meus filhos vivos.

Primeiro, me passaram pra maca. O obstetra amarrou minhas pernas dizendo que era melhor pra mim – eu havia estudado muito, sabia que estava errado e que era desnecessário, mas estava muito vulnerável pra cobrar qualquer coisa.

Em seguida, ele mandou que colocassem o soro. Eu disse que não precisava de ocitocina, pois eu já estava parindo, ele acatou meu pedido e me fez o primeiro exame de toque muito doloroso. Assim que ele terminou disse que o gêmeo 1 já estava no canal de parto. Em menos de 10 minutos, com pouca força, eu pari meu primeiro filho. O Luiz nasceu com 448 gramas às 11:11 e foi direto pro colo da pediatra, que tentou reanimá-lo. Em menos de 15 minutos recebi a noticia de que ele não havia resistido.

Não conseguia parar de chorar e dali em diante comecei a desejar a morte… é indescritível a dor da perda.

Depois da saída do gêmeo 1, minhas contrações pararam. Cheguei a achar que o gêmeo 2 poderia ficar lá. Mas em menos de 30 minutos a segunda bolsa estourou, sem contrações.

O “doutor” disse que iria começar a introdução de ocitocina. Ao dizer que não queria, o médico começou a me ofender verbalmente.

“Tudo bem, se demorar muito seu segundo filho vai morrer também. Mas se você quer matar ele tudo bem.” “Por que você não faz força, na hora de fazer não tava bom?” “Você vai matar seu filho se você não colocar ele pra fora logo.”

Acabei permitindo a introdução de ocitocina.Várias ampolas, mas nada de contração.

Ele começou a fazer incontáveis exames de toque que doeram muito. Eu gritava e chorava muito pedindo pra ele parar e ele RIA! Sim, ele deu risada da minha cara diversas vezes enquanto enfiava quase a mão inteira dentro de mim sem o menor cuidado.

Depois, ele se sentou em um banco na minha frente e ficou lendo um livro do Sherlock Holmes.
Como a ocitocina não estava dando resultado e eu não tinha mais forças, ele pediu pra que a auxiliar obstetra fizesse a manobra de Kristeller – pressão em cima do útero para “agilizar” a saída do bebê. A moça quase subiu em cima de mim e de nada adiantou.

Ela decidiu tentar ouvir os batimentos cardíacos, e foi ai que eu tive certeza de que meu bebe já havia morrido; não ouvimos nada.

Depois de quase uma hora e meia do nascimento do primeiro bebê, entre um dos muitos exames de toque, eu tirei a mão do médico e disse que não queria mais. Pedi pra que ele desamarrasse minha perna pois eu estava sentindo muita dor e desconforto. Ele ficou muito nervoso, desamarrou minhas pernas, as jogou para o lado e me disse:

“Então tá bom. Se você não quer que eu te examine, vou almoçar! Fica aí matando seu filho”. Tirou as luvas e foi embora da sala de parto.

Foi então que mais uma onda de desespero tomou conta de mim. Eu sabia que meu gêmeo 2 estava morto, mas aquelas palavras me fizeram acreditar que eu estava sendo culpada. Comecei a gritar e chorar, a pedir desculpas pro resto da equipe dizendo que eu não tinha mais forças. A enfermeira que estava do meu lado esquerdo segurou minha mão e a residente já estava segurando a outra.

Pedi então pra que elas me ajudassem a descer da maca. Elas me ajudaram, fiquei de quatro no chão. Depois fiquei de cócoras e comecei a fazer muita força. Enquanto pedia pra sair daquele pesadelo, eu queria que o Felipe nascesse logo. O Felipe nasceu com 262 gramas às 13:12 e assim que nasceu eu caí no chão.

Tiveram que chamar uma obstetra, já que o “doutor” se retirou. Enquanto a doutora chegava, cortaram os cordões e disseram que eu teria que expulsar as placentas. Disse que eu não conseguiria. A doutora – muito atenciosa e cuidadosa – me disse que eles podiam fazer então a curagem e a curetagem. Eu deixei.

Enquanto esperávamos o anestesista, pedi pra ligar pro meu companheiro, que estava em São Paulo. Não pude falar muito no telefone, mas soube que durante as 3 horas que permaneci ali ninguém teve notícias minha, nem mesmo meus acompanhantes que estavam na recepção. Do meu companheiro, senti o desespero e, ao mesmo tempo, o alívio de saber que eu estava viva.

Me sedaram para fazer a curagem e a curetagem, acordei na UTI por conta de uma pequena hemorragia e para aguardar que passasse o efeito da anestesia.

Assim que acordei, me desceram pro pós-parto enrolada num lençol…. que dor! Chegar lá e ver todas aquelas mulheres com seus bebês… eu sem os meus.

Somente às 18h eu consegui ver minha acompanhante, falar com a minha mãe e avisar a todos e todas – já que o hospital não avisou – que eu estava bem.

Não recebi nenhum diagnóstico concreto do que possa ter levado a esse aborto tardio. Sigo em acompanhamento médico para tentar entender.

Tive alta no dia seguinte do hospital, e, fisicamente estou tendo uma excelente recuperação.

Deixo registrado que esse relato de parto também como a forma (talvez a mais eficaz) que encontrei de denunciar todas as violências que sofri por parte do médico, do hospital e também por parte desse governo (golpista) que permite que hospitais não tenham água e remédios, negligenciando e colocando em risco a vida da população mais necessitada desse país. Registrei também a denúncia contra o médico na ouvidoria do hospital, e em breve encaminharei a mesma para o Conselho Regional de Medicina.

*A autora do relato pediu para não ser identificada.

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