Quilombola e benzedeira, Tia Cida traz a cura pelo axé

Facebooktwitter

Ana Aparecida Tobias dos Santos mora na Comunidade Quilombola Paiol de Telha e mantém vivas as técnicas que aprendeu com a mãe de criação

Imagem: Divulgação

27/06/2017

por Carolina Goetten Brasil de Fato | Curitiba

Além de sonhadora e trabalhadora, Ana Aparecida Tobias dos Santos é mágica. Todos os dias alguém da Comunidade Quilombola Paiol de Telha, no município de Guarapuava (PR), busca por ela e lhe pede a cura, pois é conhecida como a melhor benzedeira do território.

Ela aprendeu a metodologia com a mãe de criação. Em casa, Cida a escutava recitando os versos e cumprindo os passos que fariam a técnica funcionar, mas sem jamais se atrever na tentativa – até o dia em que a filha Silvaninha muda o guarda-roupa de lugar e reclama de dor nas costas. Foi a primeira vez que benzeu alguém. Prepara agulha, fio, pedaço de pano, bacia com água, copo. “Silvaninha, põe a mão aqui”.

– O que eu coso? Rendidura. Eu costuro carne rendida, ossos quebrados e carne esmagada.

Enquanto declama a oração, costura com agulha e fio um pedacinho de pano. O enfermo deve permanecer sentado, com as mãos ou os pés mergulhados numa bacia cheia de água e, dentro desta, um copo virado de ponta-cabeça. Recita os versos vez após vez e reza e costura até cerrar um quadrado ao redor do pano. Depois, o tecido deve ser lançado em água corrente; sempre que pode, Cida vai até uma cachoeira próxima e o atira pela correnteza.

–  Mãe… – murmurou a Silvaninha, já livre da dor. – A senhora é mágica!

Axé de perto e de longe

Quanto mais combalido está o visitante, mais o copo suga a água para dentro. Quando suga quase tudo é porque a situação está mais grave, mas ela garante que não há doença que lhe passe imune: “Só de benzer, o doente já melhora”.

Rosa da Cruz, vizinha no Assentamento, conta que Cida não cobra nada de ninguém, mas sempre ganha uma lembrancinha pela gratidão de quem se recupera. “Ela não gosta quando dizem que é benzedeira, mas bem sabe que é”, delata a amiga. “Eu falo por mim. Quando ela me benze, parece que a coisa sai de dentro de mim. Uma vez sentei num banco da igreja pra ela me curar, porque não aguentava nem chegar aqui. Quando a tia Cida começou me deu um alívio, era como se a dor saísse com a mão. Depois eu agradeci com uma erva-mate”.

Isabela, filha de Rosa, garante que o poder de Aparecida é tão forte que ela cura à distância: “Eu ligo para a minha mãe e digo: mãe, fala pra tia Cida que tá foda. Nada é mais forte do que aquilo em que a gente acredita, não tem gente que diz isso? É o poder do axé dela. E é o nosso, de receber”.

Edição: Ednubia Ghisi

Facebooktwitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

São bem-vindas declarações que se proponham ao diálogo, defendam posições, que exponham ideias, dúvidas, sugestões e críticas. Não serão aceitos comentários sexistas, xenófobas, racistas, homofóbicas ou que contrariem princípios dos direitos humanos. A moderação também irá filtrar a comentários que incorram em crimes de ódio, incitação à violência e calúnia. Textos com propaganda comercial serão excluídos.