Fim da saúde pública é péssimo para 200 milhões de brasileiros, mas muito lucrativo para alguns

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30/06/2016

Congelar os recursos da saúde implica em crise no presente e agravamento da crise ano a ano

Por Hêider Pinto*, do Saúde Popular

O governo provisório não perde oportunidade de demonstrar que o objetivo de afastar a Presidenta Dilma sem crime de responsabilidade é impor ao país uma agenda de redução de direitos sociais que tem sido rejeitada nas urnas desde 2002. Na saúde, isso significa retroceder ao período antes da Constituição de 1988, quando saúde era privilégio de quem podia pagar por ela e não direito de cidadania.

O Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 241/2016 instaurará a maior crise do SUS desde sua criação.

Convido-os a nos acompanhar em cinco apontamentos que demonstrarão isso e denunciarão que acabar com a saúde pública é péssimo para quase 200 milhões de brasileiros, mas muito interessante e lucrativo para os poucos milhares que lucram com a doença.

O primeiro apontamento se refere ao fato de que o Brasil tem um financiamento insuficiente para a saúde pública. Isso é problema desde a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e, embora nos últimos 13 anos o financiamento federal tenha crescido quase o dobro da inflação, segue sendo insuficiente.

Comparando só na América, vale destacar que o gasto por pessoa no Brasil em 2013 (Fonte OCDE) foi apenas 13% do gasto no Canadá, e 53% no vizinho Uruguai.

É preciso melhorar a gestão? Claro. Mas a quantidade de recursos públicos que o Brasil realmente investe na saúde é absolutamente insuficiente.

O segundo está relacionado ao déficit preocupante que a saúde já apresenta no ano de 2016 devido a dois principais motivos: a redução da receita por causa da recessão e a aprovação pelo Congresso Nacional das emendas impositivas que passaram a ser descontadas do orçamento da saúde.

As contas variam de 10 a 15 bilhões de reais de déficit. A situação é grave a ponto de se o orçamento não for complementado faltará recursos para custear o funcionamento dos serviços, os salários dos trabalhadores e os medicamentos nos últimos dois meses. O ano teria que terminar no mês das eleições municipais.

O terceiro apontamento é que o governo provisório vai na contramão da necessidade da população e do acordo que já havia entre Congresso Nacional e Governo legítimo para tentar corrigir minimamente o déficit de recursos da saúde.

A PEC 01/2015 já havia sido aprovada em 1º turno na Câmara e, se aprovada em definitivo nas duas casas, concederia um aumento de 35 bilhões (aumento real de 35%) para a saúde escalonado em 5 anos quando o compromisso federal seria de 18,7% da receita corrente líquida.

Mas a PEC 241/2016 desfaz e inverte isso: proíbe o aumento dos recursos da saúde acima da inflação. Ou seja, o valor deficitário que já provoca crise em 2016 ficaria congelado, sem aumento real, pelos próximos 20 anos. Se com a PEC 01/2015 o SUS teria 14 bilhões de reais a mais em 2017, com a PEC 241/2016 ele terá 4 bilhões a menos.

O quarto apontamento é que esse congelamento agrava a crise no curtíssimo prazo e mata o SUS no médio prazo. É sabido que o recurso da saúde precisa aumentar acima da inflação por diversos motivos. Destacarei quatro.

Em primeiro lugar, a população cresce. Em segundo, os serviços ainda não garantem acesso a todos. A estratégia de saúde da família, por exemplo, cobre aproximadamente 66% das pessoas e seria necessário atingir no mínimo 80%. Também precisam se expandidas a saúde bucal, as urgências, o SAMU, as UTIS etc.

Em quarto lugar, os custos dos serviços, equipamentos e medicamentos da saúde no mundo inteiro crescem acima da inflação. Em quinto, a experiência internacional mostra que o envelhecimento da população exige um gasto maior de saúde.

Por tudo isso, congelar os recursos da saúde implica em crise no presente e agravamento da crise ano a ano.

Será impossível manter em 2016 a quantidade de profissionais, de unidades de saúde, de leitos e de medicamentos que foram oferecidos no SUS em 2015. E 2017 terá ainda menos que 2016. Por isso os Secretários de Saúde dos Municípios e Estados, em nota conjunta, disseram que o resultado da PEC 241 será a piora das condições de saúde dos brasileiros, mais doença e mais mortes.

Por fim, o quinto apontamento: se todas essas questões colocadas acima são óbvias e demonstráveis, por que ainda assim o Governo Provisório nega recursos ao SUS quando concede aumentos de gastos de quase 50 bilhões de reais, seja para o reajuste do judiciário, seja para o perdão das dívidas aos Estados?

Porque o objetivo do Governo Provisório é “enforcar” o SUS para privatizar a saúde.

SUS com menos recursos, serviços e trabalhadores será um SUS com pior qualidade e mais filas.

Mais gente não conseguirá ser atendida e, expulsa do sistema público, será obrigada a “pagar para não ficar mais doente” com recursos do próprio bolso diretamente ou por meio de um plano de saúde.

Quem quiser conferir as intenções do Governo Provisório é só ler o documento “Ponte para o Futuro” e ver que a intenção é ter saúde privada para 50% ou mais da população. É de perder o sono tanto para quem usa os serviços assistenciais do SUS quanto para quem já enfrenta filas e mal atendimento nos planos de saúde que hoje são responsáveis por apenas 20% da população (mesmo assim, metade destes usa serviços de atendimento no SUS).

A influência dos interesses privados está escancarada não só na ideologia do governo provisório como também personificada no mesmo.

Para ficar em dois exemplos, vale lembrar que o ministro da Saúde interino teve sua campanha financiada pelos planos de saúde e o interino da Fazenda representa o interesse de grandes bancos, que são sócios acionistas da saúde suplementar no Brasil.

Sim, inevitável dizer que as raposas deram o golpe para tomar conta do galinheiro e uma das primeiras vítimas, além da democracia de nosso país, é a saúde de nossa população.

Cada gestor público, trabalhador e estudante de saúde, cidadão, usuário ou não do SUS, deve denunciar e lutar contra a aprovação da PEC 241.

O que levou mais de 25 anos para ser construído pode ser destruído em uma votação conduzida por um governo provisório, que não se submeteu às urnas. Além disso, toma medidas a toque de caixa frontalmente contra o que a população expressou nas últimas quatro eleições nacionais.

* Hêider Pinto é médico sanitarista. Secretário do Ministério da Saúde no governo Dilma.

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3 comentários sobre “Fim da saúde pública é péssimo para 200 milhões de brasileiros, mas muito lucrativo para alguns

  1. Sugiro que os senhores façam uma pesquisa antes de publiclarem qualquer matéria.
    O Brasil nunca teve saúde para pobres. Quem privatizou a maioria dos hospitais Federais foi D. Dilma.
    O último foi a Antonio Pedro em Niterói. Criou a EBSERH para roubar mais. Por sinal não vejo nenhum dos senhores falando dessa empresa xexelenta que só está fazendo mal ao que resta da saúde. Saiam de suas cadeiras, pesquisas online são enganosas, procurem pacientes com câncer , façam companhia a eles por uma tres sessões e voltem aqui e postem suas idéias. No mais é preferível que fiquem calado.

  2. O PIB per capita do Brasil infelizmente não permite saúde universal de qualidade. A Inglaterra, que tem 40 milhões de habitantes e orçamento de saúde maior que o brasileiro , está passando por sérias dificuldades. Imaginem se tivessem que cuidar de 200 milhões com o mesmo orçamento? Seria o caos… Não tem jeito, o Brasil precisa focar em ações do SUS (assistência básica, promoção de saúde e emergência) e deixar o setor privado ter um papel importante no sistema. Não se trata de matar o SUS, mas permitir parcerias e deixar, inclusive, que receitas obtidas no setor privado ajudem financiar o SUS. Vários hospitais públicos poderiam ter alas privadas. Parte da receita poderia ser revertida para o SUS. O trabalhador rede privada, que contribui, poderia descontar uma pequena parte do salário para adquirir um plano de saúde. Esta é a base do Obama care, que está funcionando nos EUA. Temos que acabar com a ideologização do SUS E partir para soluções eficazes. Na minha opinião a iniciativa privada teria um papel preponderante no sistema.

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