É preciso transformar cada lugar numa arena política

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23/05/2016

A especialista em Saúde Pública, Lumena Furtado, fala sobre a necessidade de nos reencantarmos com a política e transformar a tristeza diante da avalanche dos desmanches das políticas públicas em energia coletiva

Por Lumena Furtado*, especial para o Saúde Popular

Nos últimos anos vivemos com grande intensidade o desvelamento de quão velho e inadequado está nosso sistema político. A submissão às regras da chamada governabilidade deixou o governo refém de um Congresso imerso em interesses distantes daqueles que ajudaram a construir nossos sonhos e projetos de um país plural, solidário e justo.

A votação do impeachment na Câmara escancarou para o mundo as intenções do jogo político e envergonhou cada um de nós.

O governo ilegítimo que assumiu no dia 12 de maio, mesmo se já vinha anunciando seu descompromisso com as políticas sociais, surpreendeu pela rapidez com que vem desrespeitando direitos e avançando na agenda de desmanches das políticas públicas. Um ministro da saúde propor diminuir o SUS e apontar o acesso a planos de saúde como saída para o sistema é um escárnio! Não nos iludamos com o seu recuo verbal, as intenções continuam as mesmas! Não é uma questão de comunicação, mas de projeto para o país! O esforço deste governo, esta semana, para aprovar a desvinculação dos recursos para saúde e educação faz parte do mesmo propósito.

O embate político pede novas modalidades de ação política, é preciso aprender com a força das muitas ações que vem das ruas. É preciso reinventar os sujeitos e produzir novos encantamentos! Os mais de cem dias de ocupação, por trabalhadores e usuários, da sala de coordenação de saúde mental no Ministério da Saúde exigindo a saída do coordenador manicomial e os mais de 50 dias de ocupação das escolas em São Paulo pelos secundaristas, forçando o governo Alckmim a recuar, nos convidam a novos movimentos.

A capacidade da juventude, das mulheres, dos movimentos sociais, de manter uma permanente ocupação das ruas, de forma espontânea e intensa, conclama em cada um de nós o desejo de resistir.

O nosso desafio é, para além dos arranjos políticos tradicionais, produzirmos coletivos plurais, mas que consigam produzir o comum, unificar nossas lutas, nos fortalecer no encontro, mas mantendo o espaço aberto para o que nos diferencia, respeitando a pluralidade que nos constitui. É urgente que possamos nos multiplicar e continuar em conexão! Para além de reforçar o grito ainda necessário: ”não vai ter golpe”, que nos manteve unidos na luta, precisamos construir outros enunciados que nos mantenham disputando nosso projeto de Brasil, de mundo.

É preciso ocupar! Ocupar as ruas, as redes sociais, os serviços onde trabalhamos, inventar espaços, cada lugar um foco de resistência, uma arena política! Atrair para este movimento aqueles que ainda não estão! Nenhum passo atrás na garantia de direitos! Nenhum passo atrás nas políticas públicas! Vamos recheando nosso grito com políticas específicas: luta antimanicomial, bolsa família, universidade pública gratuita, Mais Médicos… E exigir avanços: reforma política, reforma tributária, mudança na regulação da comunicação… Ênfases plurais de um mesmo projeto!

Precisamos reconstruir um projeto coletivo, que nos unifique, nos encante, que produza multidão!

Manoel de Barros nos lembra que “ a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós!” Vamos ocupar a vida, nos reencantar com a política, transformar nossa tristeza em energia coletiva! Fazer uma ciranda e de mãos dadas seguir a luta! Não passarão!!

*Lumena Almeida Castro Furtado é psicóloga, sanitarista, mestre em Saúde Pública e doutora na área de gestão. Já foi secretária municipal adjunta de saúde em São Bernardo do Campo e secretária municipal de saúde em Mauá.

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