Médicos apoiam ocupação por moradia em Campinas

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07/03/2016

Após denúncias de negligência dos hospitais públicos, Vila Soma recebe atendimento de coletivos de saúde

Da Redação

A ocupação Vila Soma, no município de Sumaré, região metropolitana de Campinas, tem recebido o apoio da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares nesse último mês para a estruturação do Setor de Saúde do movimento. Após conquistar a suspensão da reintegração de posse – em decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandovisky, em janeiro deste ano –, a ocupação tem sofrido com a omissão do sistema de saúde público local.

Além de contar com médicos da Rede, a Comissão de Saúde da Vila Soma foi formada por outros coletivos, que vêm se reunindo há dois meses. O médico Felipe Augusto Reque, que faz parte do grupo, aponta que há negligência do Poder Público em relação ao atendimento de saúde para esta população. “Direitos têm sido negados à comunidade, pois a prefeitura se recusa a reconhecer a Vila Soma como uma região de Sumaré e garantir serviços de saúde e educação”, afirma Reque.

Segundo William Souza, dirigente da Vila Soma, o preconceito é a principal barreira para atendimento das famílias da ocupação. “As queixas de segregação dos hospitais públicos são frequentes entre os moradores. Há relatos de moradores que não conseguem vagas nos hospitais e veem uma pessoa de outro bairro conseguindo vaga, aguardam um tempo maior para atendimento ou até mesmo não são atendidos”, declarou.

Estudo

De acordo com uma pesquisa feita por médicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com o Sindicato dos Médicos de Campinas e com o Fórum Mundial de Saúde, 64% das crianças da Vila Soma estão com vacina atrasada. Os estudos e dados oficiais foram publicados para auxiliar o movimento a acionar o Poder Público municipal e órgãos do Judiciário.

Souza também destaca a questão do saneamento básico como um dos principais problemas da ocupação. “O esgoto corre a céu aberto, a água é comprada de caminhão pipa e armazenada em caixas improvisadas pelos moradores, não há tratamento preventivo de doenças. Os que mais sofrem são crianças e gestantes”, exemplificou.

Até o momento, os médicos já fizeram um mutirão contra dengue junto à população, deram orientações sobre água potável e promoveram ações para garantir o acesso e atendimento pré-natal de gestantes da comunidade no Sistema Único de Saúde (SUS).

Além disso, segundo Reque, a comissão elaborou um documento solicitando uma conversa com a Secretaria Municipal de Saúde daquela região para demandar necessidades da comunidade e denunciar as recusas de atendimento. “Essa mobilização junto aos equipamentos e setores de saúde tem sido fundamental para a ocupação”, disse o médico. Dessa forma, o tema da saúde tem se tornado um instrumento de mobilização e organização da comunidade.

Histórico

A comunidade da Vila Soma foi ocupada por trabalhadores sem teto em junho de 2012 e, desde então, diversas ameaças de reintegração de posse foram feitas. Os moradores relatam que é comum a presença da polícia para intimidar os integrantes da ocupação.

O terreno pertencia à antiga empresa Soma, produtora de equipamentos industriais que encerrou as atividades no começo da década de 1990. A área tem cerca de 500 mil metros quadrados, o equivalente a dois terços do Parque do Ibirapuera, e hoje é ocupada por mais de 10 mil pessoas.

Em janeiro deste ano, após ameaça de reintegração de posse, o ministro e presidente do STF, Ricardo Lewandovsky, suspendeu a reintegração, alegando a possibilidade de violação dos direitos humanos dos moradores e destacando a falta de garantia para realocar as famílias da ocupação.

O cadastro no Programa Minha Casa, Minha Vida foi feito há sete meses, após organização dos próprios moradores. Entretanto, mesmo com a liberação de verba para construção das 1,4 mil moradias pelo governo federal, a prefeita de Sumaré, Cristina Carrara (PSDB), ainda não assinou o Relatório de Viabilidade e a autorização para dar início às obras, e o projeto não saiu do papel.

Médicos populares

A Rede de Médicos Populares foi criada em julho de 2015. Segundo integrantes da Rede, ela foi criada da necessidade de fazer um contraponto à ofensiva conservadora também no setor da saúde, e tem o objetivo de defender o Sistema Único de Saúde (SUS) e o direito à saúde do povo brasileiro. Essa é a primeira vez que a Rede de Médicos Populares está atuando na região de Campinas.

O Saúde Popular procurou a prefeitura de Sumaré, mas não houve retorno até a publicação da reportagem.

Foto de capa: Reprodução/Ocupação Vila Soma
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