“Saúde depende de condições de vida das pessoas”, diz médico popular

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07/12/2015

Bruno Pedralva, médico da família, aponta que a luta por uma saúde melhor também envolve mudanças estruturais.

Por Catiana de Medeiros;

Para o Saúde Popular

Após participar de painel no 1º Encontro Nacional de Saúde das Populações do Campo, Floresta e Águas, em Brasília (DF), o integrante da Rede de Médicas e Médicos Populares, Bruno Pedralva, em entrevista ao Saúde Popular, falou sobre estratégias de promoção de Saúde e os benefícios que o programa Mais Médicos, do governo federal, e a vinda de profissionais cubanos trouxeram às populações que foram excluídas dos cuidados em saúde no país.

Neste sentido, Pedralva, que é médico de família e comunidade, repudia o financiamento privado da Saúde e defende a maior inserção de médicos na atenção primária e Sistema Único de Saúde (SUS). “Temos que ter, pelo menos, 40% dos médicos brasileiros trabalhando na atenção primária e no SUS, e não ganhando dinheiro nos planos privados de saúde”, destaca.

Confira a entrevista:

Saúde PopularQual o papel dos médicos para a construção de um ambiente saudável para os povos do campo, da floresta e das águas?

Vários companheiros e companheiras que estão no campo, nas águas e nas florestas correspondem a uma parcela da população brasileira que historicamente ficou alijada dos cuidados em saúde e prejudicada pelos modelos de desenvolvimento que tivemos no país e que sempre privilegiam a monocultura, a extração e a exportação. Muitas pessoas denunciam, no próprio encontro, o quanto sofrem com essa situação. E o médico, como qualquer outro trabalhador da saúde, além de cuidar das pessoas que sofrem essas consequências, tem que ser um catalisador, estimulador e educador popular para que as pessoas percebam o quanto seus problemas de saúde e suas doenças estão relacionados à política de saúde e de desenvolvimento do país.

– Quais são os impactos que um programa como o Mais Médicos, que tem como prioridades populações que foram excluídas por muito tempo da atenção em saúde, traz para essas populações?

O Mais Médicos para essas populações foi fantástico. A presença, em especial, dos cubanos nas periferias das grandes cidades, nas áreas indígenas e de difícil acesso tem sido louvável e, inclusive, mereceria ser reconhecida mundialmente por organizações como a Organização Mundial de Saúde (OMS), Organização das Nações Unidas (ONU) e Prêmio Nobel da Paz. Os médicos cubanos têm o reconhecimento da população brasileira, apesar da crítica injusta e mentirosa da direita de que eles não são bons médicos ou que vieram até o Brasil para fazer revolução. Eles são trabalhadores, e a maioria muito qualificados, que vem para cá com o espírito de contribuir para melhorar a saúde do nosso povo. O que está mostrando a realidade não é o discurso de ninguém, é a prática das médicas e médicos cubanos, a ponto de 95% da população brasileira dizer que está satisfeita com o trabalho

Que avanços foram proporcionados aos brasileiros e brasileiras por meio deste programa?

Conforme dados divulgados pelo Ministério da Saúde, temos em torno de 18 mil médicos trabalhando no Brasil através do Mais Médicos. Deste total, cerca de 12 mil são cubanos. Quase 73% dos municípios brasileiros estão cobertos por este programa, que ajudou a melhorar o número de consultas médicas e a diminuir o número de encaminhamentos aos hospitais. A este impacto inicial também vai se somar, a médio prazo, a redução da mortalidade e o aumento da expectativa de vida das populações cobertas. Outro aspecto importante do programa que agora também será debatido e estará no centro da política é a formação dos médicos brasileiros para reduzir a falta destes profissionais nas unidades de saúde e garantir médicos populares, que estejam ao lado do povo, trabalhando na atenção primária, cuidando dos mais carentes e nas áreas de difíceis acesso. Nesse contexto, a proposta do governo é abrir vagas nas graduações e ter mais vagas de residência. Temos esperança, mas também preocupações para que esse processo possa de fato existir, pois os setores mais conservadores da saúde e medicina no Brasil, em especial dos conselhos e associações médicas, pode ter grande resistência. Mas vamos torcer para que o governo tenha coragem e vontade de realmente fazer essas transformações. Temos que ter, pelo menos, 40% dos médicos brasileiros trabalhando na atenção primária, e queremos que esses médicos estejam no SUS, e não ganhando dinheiro nos planos privados de saúde.

Você afirma que o programa Mais Médicos por si só não será capaz de resolver os problemas de saúde existentes no Brasil. Que outras ações a Rede defende para que o país possa avançar neste ponto?

A saúde não depende só de médico, nem de remédio. Saúde depende de condições reais da vida das pessoas. Nesse sentido, a reforma agrária é uma política de promoção da saúde; e lutar e banir o agrotóxico no Brasil terá um impacto bastante positivo para a vida dos brasileiros. Garantir transporte, moradia e o direito ao trabalho e salário decente também são fundamentais, assim como pensar o financiamento do SUS. Não tenho dúvidas de que precisamos botar mais dinheiro na saúde pública e menos dinheiro nos planos de saúde e setores privados, além de melhorar a eficiência da gestão no país, que ainda é extremamente precária. Estes são alguns pontos fundamentais: temos que garantir direitos sociais, reformas estruturais, financiamento público e boa gestão. Se não avançarmos nisso, não vai ter saúde.

Quais os entraves que uma categoria conservadora, como a dos médicos tem se expressado, traz para o atendimento dessas populações mais necessitadas em saúde?

Nós médicos precisamos, antes de qualquer coisa, nos reconhecer como trabalhadores. Por mais que eventualmente esses profissionais tenham renda bem maior que a média da população brasileira, eles também são trabalhadores e estão submetidos, às vezes, às condições de trabalho nos postos de saúde, nas Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e hospitais deste país. Outro ponto importante é que tanto pela formação acadêmica e técnica quanto pela formação humana, nós médicos precisamos estar onde o povo precisa e não onde nós queremos estar. Necessitamos, sim, ter bons neurocirurgiões, cirurgiões plásticos e anestesiologistas, mas precisamos muito mais de médicos de família e comunidades, que topem ocupar as milhares de unidades básicas e cuidar de questões que são facilmente resolvidas com uma boa medicina, eficiente e solidária.

Como o saber científico dos médicos deve se relacionar com o saber popular dessas comunidades?

Acredito que esse é um desafio para todos os médicos formados na tradição da medicina científica e também para os gestores de saúde para o povo brasileiro. Pelas experiências que tive, posso dizer que não é o médico sozinho quem vai garantir todos os cuidados de saúde, então, que bom que temos cuidadores populares que conhecem a fitoterapia, Reiki, acupuntura, entre outras técnicas alternativas, e que tenhamos parteiras nas unidades à fora. Estes atores e sábios do povo têm que ser valorizados, reconhecidos pelos médicos e demais trabalhadores da área e incluídos na rede de cuidado de saúde do povo brasileiro.

A Rede de Médicas e Médicos Populares afirma que o “direito à saúde se constrói ao lado do povo”. Qual o significado deste posicionamento?

Apesar de sermos uma Rede de Médicas e Médicos Populares, estamos longe de achar que sozinhos conseguiremos garantir o direito à saúde no Brasil. A construção da rede veio para aglutinar esses médicos que são também negros, indígenas e de origem do povo trabalhador ou que têm identidade política com ele, para que possamos ter voz e fazer com que a população também reconheça que o médico brasileiro não é só o autoritário que está ganhando dinheiro no mercado privado de saúde. Uma parcela de médicos brasileiros também é o povo, é esse o recado que queremos deixar. Nesse processo, nós entendemos que estratégias de promoção de saúde são fundamentais. Por exemplo: melhorar a renda das pessoas é melhorar a saúde, e isso já está, inclusive, bem consolidado na literatura científica. Então a reforma agrária, que os movimento de luta pelo campo fazem, também é promoção de saúde. Não tenho dúvida alguma que o MST já melhorou muito mais a expectativa de vida dos seus acampados e assentados do que qualquer campanha de vacinação. Os movimentos de mulheres, populares e sindicais em geral são atores fundamentais na luta pelo direito à saúde no Brasil. Reconhecemos isto e queremos estar juntos com todos eles nessa luta.

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Um comentário sobre ““Saúde depende de condições de vida das pessoas”, diz médico popular

  1. Parabéns pela sua fala e prática Bruno Pedralva. Sempre na luta pela melhoria da saúde da população. Precisamos de mais médicos com o seu olhar.

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