Da lama ao caos: os impactos psicossociais em Mariana

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02/11/2015

Psicóloga fala sobre a experiência em participar da brigada de solidariedade da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares em Mariana (MG).

Por Camilla Veras*

Dona Maria**, 74 anos, acordou em casa como em um dia qualquer. Colheu as plantas na horta e preparou o almoço do dia. Dona Maria viu a lama descer, arrastando tudo que via pela frente, uma verdadeira avalanche. Sorte que ainda era dia, e como todos dizem: se fosse à noite o desastre seria muito maior.

João, 36 anos, trabalhava na máquina no canteiro da barragem quando foi engolido pela lama. Até hoje, mais de 25 dias após do desastre, o corpo de João está entre os desaparecidos. Seu Francisco, 70 anos, perdeu o dinheiro que guardava toda vida, dona Roberta, 30 anos, sofreu um aborto. A avalanche de lama levou casas, carros, a quadra da escola, o posto de saúde, levou dona Joana e seu Antônio. A lama criminosa percorreu mais de 600 quilômetros matando pessoas, plantas e animais, contaminando rios, solos e o mar, soterrando histórias, sonhos e cidades inteiras.

Cheguei em Mariana no domingo, dia 22 de novembro, para compor a brigada de solidariedade promovida pela Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares. Tínhamos por objetivo inicial a realização de um diagnóstico situacional de saúde a partir de entrevistas com as pessoas atingidas pelo rompimento da barragem. Além disso, foi preciso agir em outras frentes, como atendimento em saúde e atividades junto ao Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), tendo em vista a realidade de descaso em que a população se encontrava.

Impressões

Após 25 dias, o cenário dos distritos e municípios atingidos na região de Mariana (MG) é de profundo sofrimento. De um lado, vemos a Samarco [empresa responsável pelas barragens de rejeitos] controlando todos os processos, desde o cadastramento das famílias atingidas ao suprimento da assistência à saúde, habitação, ao controle das informações e negociações, até a distribuição dos donativos doados. Como diria um morador: o criminoso cuidando da cena do crime. Do outro lado, uma estranha ausência e insuficiência do Estado, que curiosamente está em grande parte alojado dentro da empresa (Defesa Civil e Bombeiros).

Quando conversamos com a população, a trama se desenrola, são relatos de manipulação das informações, lentidão nos processos que vai desde a realocação das pessoas abrigadas nas pousadas à identificação dos corpos das pessoas desaparecidas, criminalização dos movimentos sociais presentes, tentativas de individualizar as negociações e assistência descontinuada e inadequada em saúde.

Buscamos os representantes da Secretaria de Saúde do município de Barra Longa e do município de Mariana. De fato, o plano de ação para atenção em situação de desastre adotado é muito interessante e completo. No entanto, as duas secretarias apontaram déficit de profissionais de saúde e estrutura para atender aquele contingente populacional. Faltam profissionais para fazer os atendimentos domiciliares e carros para acessar as áreas ainda isoladas pela lama. Os profissionais “estão carregando a cidade nas costas”, como disse a enfermeira da atenção primária do município de Barra Longa.

Assim, nos somamos para ajudar as secretarias nas visitas e atendimentos domiciliares, o que ainda é insuficiente. A demanda de cuidado vai dos moradores aos profissionais de saúde que estão trabalhando no local e que também foram atingidos pelo desastre. Os casos que chegam à Unidade Básica de Saúde são de diarreia e vômito, problemas respiratórios, dermatoses, conjuntivites por conta do contato com a lama e a poeira. Contudo, a maior demanda apresentada neste momento é de escuta e acompanhamento psicológico devido ao trauma ocorrido. Há também preocupações relativas aos impactos na saúde no médio e longo prazo por conta do contato com a lama tóxica e da contaminação da água, do solo e dos animais.

Impactos psicossociais

São muitos os impactos psicossociais causados à população atingida em um desastre deste porte. Para começar, o sofrimento das famílias que perderam seus entes queridos. Sofrimento que, em alguns casos, se prolonga ainda mais diante da forma como a Samarco tem conduzido os processos, gerando mais angústia nas pessoas que só querem enterrar os corpos dos seus com dignidade.

As perdas materiais levam consigo toda a história de luta e memórias das famílias. Famílias que perderam seus meios de subsistência, bens adquiridos frutos de anos de trabalho e sofrem por isso, sofrem ao ter que vestir roupas usadas e sobreviver a partir das doações. Sofrem quando se lembram de como eram suas casas, sofrem quando se lembram do que ficou para trás, da escola e dos seus álbuns de fotografias. Sofrem pela perda do território que jamais voltará a ser como antes. Território que era cenário dos laços sociais e afetivos constituídos, e agora fragilizados.

Surgem diversas demandas emergenciais de atendimento em saúde mental pós- desastre. São relatos de quadros depressivos, estresse pós-traumático, problemas no sono, pânico, ansiedade e angústia. Além dos danos simbólicos e imateriais irreparáveis, o sofrimento psíquico e o desajuste provocado pelo desastre custarão muito às famílias e as comunidades atingidas que precisarão encontrar mecanismos para dar novos sentidos e reconstruir novamente suas vidas.

Neste aspecto, a organização da população atingida pelo rompimento da barragem do Fundão coloca-se como uma alternativa terapêutica interessante. E o MAB tem potencial de ser este espaço catalizador, por permitir espaços de fala sobre o ocorrido, de elaboração das perdas e da reivindicação dos direitos junto ao coletivo, ajudando a restabelecer o tecido social fragilizado e canalizando o sofrimento em prol de uma luta comum.

**Os nomes utilizados são fictícios

*Camilla Veras, psicóloga e mestranda em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)

Foto de capa: Joka Madruga
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