Opinião – A civilização e os “leprosos”

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01/09/2015

Doenças negligenciadas pelas políticas públicas, pela pesquisa, pelo complexo médico-industrial, em geral, são pouco lucrativas para a economia capitalista e deixam “feios” os relatórios de gestão quando os indicadores são altos

nesio fernandes junior

 

 

 

 

 

Por Nésio Fernandes de Medeiros Junior*

Os livros dizem que, até poucas décadas atrás, muitas doenças eram definidas como “lepra”, por populares e médicos, como a sífilis, o pênfigo, o vitiligo, as micoses e uma dezenas de doenças da pele eram suficientes para entrar no conceito amplo da temível “lepra”. Hoje, a sociedade dos smartphones, da fibra ótica, da alta tecnologia médica, de todas as modas e os neologismos, persiste em ignorar a realidade do povo. Nossa “transição epidemiológica”, do envelhecimento populacional e do predomínio das doenças crônicas não transmissíveis sobre as doenças infectocontagiosas, muitas vezes fazem parte de um discurso dominante de civilização e desenvolvimento desconectado da realidade concreta.

Existe um conceito importante discutido nas academias e, pontualmente, presentes nos chatos e longos relatórios de gestão dos serviços de saúde, as doenças negligenciadas. Superficial e resumidamente são doenças negligenciadas pelas políticas públicas, pela pesquisa, pelo complexo médico-industrial, em geral, pouco lucrativas para a economia capitalista e que deixam “feios” os relatórios de gestão quando seus indicadores são altos. São exemplos de doenças negligenciadas, a malária, a doença de Chagas, a leishmaniose, a filariose linfática, assim como, a hanseníase.

Em especial, a hanseníase, trazida pelos europeus de pele clara e olhos azuis, caracteriza-se clinicamente por manchas com alterações de sensibilidade. Dizem que ela é causada pelo bacilo de hanse, um ser preguiçoso, que se reproduz muito lentamente, adora viver nos nossos nervos periféricos e nas regiões próximas da pele, de temperatura “mais frescas”: por isso se aloja principalmente nos cotovelos, mãos, pés, orelhas, ponta do nariz, bolsa escrotal, etc. Há séculos vive tranquilamente nos seres humanos. Hanseníase não mata, o bacilo não é burro, se mata o hospedeiro, ele também morre.

Mas nem sempre o hospedeiro o reconhece como um ser amigo e preguiçoso, nosso corpo reage e, ao reagir, pode destruir o próprio corpo, pois há um detalhe importante: o bacilo vive dentro das nossas células. Para matá-lo, temos que destruir as células infectadas. Alguns textos chegam a descrever que um paciente pode ter até 10% do seu peso corporal composto por células com bacilos.

Muitos ainda sustentam que a hanseníase foi erradicada de amplas regiões nos estados do Sul e Sudeste do Brasil. Do ponto de vista da epidemiologia, onde não se notifica, “não existe” a doença. Em nossas universidades, aprendemos de doenças raras, de ricos e com foco na “transição epidemiológica”, aprendemos de doenças do colágeno, de câncer, diabetes, cardiopatias de todos tipos. E de Hanse? Hanseníase é uma condição de saúde complexa, de forte determinação social no processo saúde-doença, ao mesmo tempo infecciosa, autoimune e de repercussão crônica. E aí, José?

Recentemente, um brilhante e simpático professor e médico do Instituto Lauro de Souza Lima de São Paulo, o catarinense Jaison Antônio Barreto apresentou relatos importantes e preocupantes: tem tratado e cuidado de pacientes de Santa Catarina e Rio Grande do Sul com hanseníase em estágios avançados de incapacidade física que estavam sendo tratadas como artrites raras, artroses, alergias, lúpus, micoses resistentes a tratamento e todo tipo de diagnóstico pouco preciso.

Fatos e reflexões:

80-90% das pessoas no Brasil, ainda que tenham contato com a doença, não irão desenvolver formas graves delas, características genéticas protegem o ser humano a determinadas doenças, entre elas, a hanseníase. Bom, de 200 milhões de brasileiros, restam de 20 a 40 milhões para serem infectados pelo “amigo da onça” bacilo da hanse. Detalhe, por ser um “bom amigo da onça”, que passa de geração em geração, os contatos comunicantes não investigados, de pacientes tratados há 10, 20, 30 anos atrás, que tiveram contato com as novas gerações que “mudaram o perfil epidemiológico” do Brasil, são todos potenciais portadores e transmissores silenciosos da hanseníase.

90% dos bacilos são mortos na primeira semana de tratamento e o portador deixa de ser transmissor. Hanseníase tem cura, artrite reumatoide, não! Entre uma ou outra, melhor ter hanseníase que qualquer reumatismo. Mas, como o bacilo se esconde por anos, sem provocar dano e sem poder ser detectados por modernos exames de sorologias e pelo bom e velho exame clínico, todos os contatos dos pacientes com hanseníase precisam ser avaliados anualmente, por pelo menos 10 anos.

Diagnosticar hanseníase clinicamente estabelecida, na maioria dos casos, não precisa de exame, precisa de sensibilidade e habilidade dos profissionais de saúde. Ou seja, médicos podem diagnosticar facilmente casos de hanseníase, enfermeiros, agentes de saúde, fisioterapeutas e até pajés também podem suspeitar e encaminhar para o tratamento e seguimento com profissional habilitado.

Nossa “transição epidemiológica” convive com o “silêncio epidemiológico” das “doenças negligenciadas”, ou melhor dos “seres humanos negligenciados”. Milhões de microrganismos, patógenos ou não, vivem na atmosfera, desde que fiquem longe de nós, os patógenos que vivem negligenciados, não há problemas. O importante são as pessoas, as vidas, não as doenças ou os microrganismos.

Concluo estas palavras dizendo que o “amigo da onça” de Hanse não mata e não segrega, mas a insensibilidade humana, o silêncio dos que governam, “o faz de conta” dos setores intermediários da “bur(r)ocracia pública”, a hegemonia da medicina capitalista e liberal e as diversas formas de preconceito geram formas mais profundas de sofrimento, segregação e morte existencial das vítimas, não do bacilo da hanseníase, mas as vítimas da nossa “civilização”. O que se atribui aos “leprosos” nada mais é do que a imagem em espelho de nossa “civilização” de classes.

 

*Médico e diretor-presidente do Centro de Saúde da Comunidade “Dr. Juca”1, em Palmas (TO).

 

1 Dr. João Carlos Haas Sobrinho (24/06/41 – 30/09/72), conhecido como “Dr. Juca”, jovem gaúcho, médico, atuou como médico e na luta contra a Ditadura Militar no Brasil, 1964-1986, nas regiões do Araguaia. Segundo o livro “Brasil: nunca mais”, de Don Evaristo Arns, foi o único médico assassinado pela Ditadura Militar. O mesmo prestou serviços médicos em Porto Franco, Sul do Estado do Maranhão, Xambióa, hoje Estado do Tocantins e em São Geraldo do Araguaia, Estado do Pará e foi reconhecido como jovem desprendido, ousado e educado, o mesmo destacou-se pela solidariedade e dedicação ao povo da região.

 

Foto de capa: Divulgação/Semsa
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