“Nunca tivemos tantos médicos no meio do povo como após cubanos”

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03/09/2015

Em entrevista, o sem-terra formado em Cuba fala sobre a criação da Rede Nacional de Médicos Populares, a atual ofensiva sobre o sistema público de saúde e a categoria médica conservadora.

Por Luiz Felipe Albuquerque, da Página do MST

O sem-terra Antônio Marcos de Almeida atribui sua formação em medicina a dois processos históricos sociais: um se refere ao princípio internacionalista e de solidariedade do povo cubano; outro à organização das famílias Sem Terra. Antes destes dois elementos, não lhe era “permitido a possibilidade de sonhar estudar medicina”, afirma.

Atualmente, Marcos de Almeida constrói junto a outros médicos a Rede Nacional de Médicos e Médicas Populares. Em entrevista à Página do MST, ele explica como surge e qual a intenção da rede, e avalia a atual ofensiva sobre o sistema público de saúde brasileiro, que corre o risco de ser alterado ou até mesmo extinto.

Filho de assentados da Reforma Agrária no município de Vacaria, no Rio Grande do Sul, Marcos de Almeida iniciou sua trajetória no MST ainda quando criança, quando junto a seus pais e mais seis irmãos, se somaram à luta de outras centenas de famílias Sem Terra e se tornaram acampados no estado gaúcho em 1987.

Dois anos depois, em 1989, foram assentados. Vinte anos mais tarde, Marcos de Almeida se formaria em medicina na Escola Latino Americana de Medicina (Elam), em Cuba.

Após completar a graduação em 2009, o Sem Terra se especializou em medicina da família e comunidade no Ceará, e em 2011, voltou ao estado natal para trabalhar em áreas de assentamentos do MST.

Atualmente, trabalha com comunidades rurais na coordenação de atenção primária de saúde no município de Palmeiras das Missões (RS).

Para ele, o principal papel do Programa Mais Médicos foi ter trazido o debate da saúde ao povo brasileiro, trazendo importância da formação de profissionais e uma nova forma de cuidado da saúde da população.

“A população brasileira nunca teve na sua história tantos médicos no meio de seu seio com a chegada dos médicos cubanos. Essa identidade de que o povo se reconhece no médico e o médico se reconhece no povo é uma das grandes contribuições da medicina cubana e do Programa Mais Médicos”.

– Como surgiu e qual o objetivo da Rede Nacional de Médicos e Médicas Populares?

A Rede surge de uma necessidade concreta e objetiva de organizar os médicos de esquerda, que têm vínculos populares e que acreditam que o sistema público de saúde, o SUS, é uma política de inclusão e direito social que deve ser defendida dos interesses do capital internacional na área da saúde.

Ela surge com o objetivo de fazer o contraponto ideológico à categoria médica brasileira, que tem se expressado nos últimos anos como uma categoria altamente conservadora e reacionária, inclusive estimulando sentimentos xenofóbicos e discriminatórios, com o objetivo de manter sua reserva de mercado.

– Você considera que o sistema público de saúde está sofrendo um ataque?

Há uma ofensiva sobre o sistema público de saúde. Há uma recomendação do capital internacional, das grandes empresas dos EUA, que recomendam um investimento no mercado da saúde brasileira.

Nós partimos de um debate do conceito de saúde. As empresas entendem a saúde como uma mercadoria: quem pode comprar compra, quem não pode não compra. A construção do SUS tem toda uma história de luta popular. Nos últimos anos temos visto uma entrada do capital internacional que vem ocupando espaço.

Foi apresentado uma proposta no Congresso Nacional pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB), em que todos as empresas teriam que oferecer um plano de saúde a seus funcionários. Ele está propondo o processo anterior ao SUS, quando tínhamos o Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social), em que todas as empresas tinham seu plano de saúde, e as pessoas que não estavam vinculadas não teriam onde ser atendias.

A princípio esta política parece ser positiva, já que os trabalhadores teriam assegurado um plano de saúde garantido pela empresa. Qual seria o grande problema desse projeto?

Os que mais necessitam não são as pessoas na idade economicamente ativa, mas idosos, crianças e gestantes, que muitas vezes estão fora do mercado de trabalho.

Além disso, essa proposta seria uma afronta a um direito social historicamente construído. Ela vai contra os princípios do sistema público de saúde. O SUS foi construído sobre o princípio da universalidade e da equidade.

Os planos de saúde tem um único objetivo: eles trabalham na lógica de uma empresa, o objetivo deles é ter lucro e trabalham a saúde enquanto uma mercadoria.

Na nossa percepção a saúde é um bem da sociedade, que tem que valorizar o conhecimento histórico e popular, as diferentes formas de cuidado e reconhecer o princípio da universalidade no sistema público.

– Há um antagonismo entre os interesses privados e a lógica de um sistema público de saúde?

É uma contradição do SUS. Sua constituição permitiu a saúde suplementar, que seria para complementar ações de saúde que o sistema público não desse conta. Mas na prática houve uma inversão dessa lógica.

No sistema privado, quem paga um plano de saúde tem uma devolução total do seu dinheiro investido na declaração do imposto de renda. Parece que a pessoa está pagando, mas na verdade está segmentando, porque cria um sistema melhor para quem tem mais dinheiro, e o SUS passa a ser trabalhado na lógica de que é um sistema pobre para cuidar de pobre.

– Uma das propostas do governo é que voltasse a CPMF e que este imposto fosse integralmente destinado ao sistema de saúde. Como avalia essa questão?

O sistema de saúde é subfinanciado. Há a necessidade de que haja uma cota maior de investimento. Não tem nenhum sistema público universal no mundo que sobreviva com uma quantidade de financiamento como o nosso. Todos tem um investimento maior.

Não temos no Brasil esse recurso pré destinado à saúde. Se a CPMF voltasse a ser cobrada seria positivo, porque seria um montante importante para a saúde, dialoga com as propostas de expansão (renderia R$ 80 bilhões anuais à saúde), formação, cuidado, atendimento e na atenção primária. Muitos trabalhadores da saúde estão subvalorizados, não há um plano de carreira para eles.

No entanto, a CPMF não resolve o problema, porque ao longo dos anos pode deixar de existir novamente, e o sistema voltaria a ser subfinanciado. É preciso avançar na constituição de uma política, de uma destinação do PIB para a saúde pública brasileira.

– No começo você falou sobre o lado reacionário da categoria médica brasileira. O que explicaria isso?

A categoria médica no Brasil é formada por uma classe média alta, produto de uma formação ideológica conservadora, antipopular e antidemocrática. Ela conta com uma reserva de mercado: para cada médico formado no Brasil tem pelo menos dois postos de trabalho.

Nem a crise, que tem aumentado o desemprego, afetou a categoria médica; não se vê médicos desempregados. Mesmo com a entrada de inúmeros médicos de outros países com o Programa Mais Médicos, não desempregou nenhum médico brasileiro.

A categoria vê o mundo e faz suas interpretações a partir de seus próprios interesses. Ela não está preocupada com os interesses da saúde e do cuidado da população. Obviamente que essa é a ideia hegemônica na categoria, o que não quer dizer que não haja médicos que pense diferente.

O perfil de médicos são pessoas da classe média alta que nunca trabalharam, e no momento que terminam o processo de graduação, passam por um processo de formação desvinculado da realidade brasileira.

Passa nos grandes centros hospitalares e universidades, onde se dá a formação médica. Quando esse profissional vai atuar na periferia, no campo, no interior, no sertão, na Amazônia, ele vive uma enorme contradição. Muitas vezes pode não ser culpa desse médico, mas o sistema que o formou que não o preparou para enfrentar a realidade.

E obviamente o sistema de educação também não dá a possibilidade de ingresso de pessoas da classe trabalhadora. É preciso que filhos da classe trabalhadora tenham acesso aos cursos de medicina, porque essas pessoas tem o conhecimento popular e cultural dessas comunidades, e estarão mais habilitadas a cuidar da saúde do que uma pessoa que vem da elite e dos grandes centros urbanos.

– Neste contexto, que papel cumpriu o Programa Mais Médico?

O Programa Mais Médico trouxe à sociedade brasileira o tema da saúde. Esse é um dos elementos do surgimento da nossa rede de médicos populares. Ele traz para o debate do dia a importância da formação de profissionais para cuidar da saúde do povo brasileiro.

O programa obedeceu uma série de parâmetros nacionais e internacionais, buscando médicos brasileiros para trabalhar nas áreas onde não havia médicos para cuidar da saúde da população. Somente pode julgar o programa essa população que está sendo beneficiada diretamente por ele. É muito complexo opinarmos sem conhecer a realidade.

Fui supervisor do Programa Mais Médicos e sabemos da felicidade que é para uma comunidade, uma família, ter um médico morando num município pequeno, trabalhando numa comunidade rural, na periferia das grandes cidades, da região Amazônica.

Temos o componente do médico cubano que traz uma nova forma de cuidado da saúde da população. Há inúmeros relatos de diminuição do uso de medicamentos, de diminuição do pedido de exames e na melhora do cuidado, porque produz uma forma diferente de cuidar. Não vê somente o corpo, o biológico. O médico cubano consegue entender esse sujeito no meio em que vive, como produto social desse meio, sua forma de vida, como se alimenta, no que trabalha, e consegue fazer uma análise da parte psicológica, coisa que a medicina brasileira não preconiza. Os médicos brasileiros são formados para cuidar de doenças, não da saúde.

O Programa Mais Médicos traz esse benefício direto para a população desassistida. Porém ele não resolve todos os problemas da saúde, porque não é uma política estruturante, é uma política conjuntural.

– O que seria para vocês a ideia de ‘médico popular’?

Temos que quebrar esse status do médico ser uma figura mítica. O médico é um trabalhador, um cuidador da saúde como qualquer outro profissional.

O médico popular é o profissional que está na comunidade, que compartilha e convive com a comunidade, que desfruta dos prazeres, alegrias e sofrimento da comunidade.

O médico popular está no meio da comunidade, vai jantar na casa das famílias, vai nas festas, faz parte da comunidade.

A população brasileira nunca teve na sua história tantos médicos no meio de seu seio com a chegada dos médicos cubanos. Essa identidade de que o povo se reconhece no médico e o médico se reconhece no povo é uma das grandes contribuições da medicina cubana e do Programa Mais Médicos.

A população que está sendo beneficiada no dia a dia tem uma identidade enorme com esse médico, e eles gostam e sabem o que fazem e são formados para isso. O Brasil ainda não conseguiu mexer no seu sistema formativo, e levará ainda um bom tempo para formar médicos como cuidadores, como guardiões da saúde.

– Quais seriam, portanto, os maiores desafios colocados para a Rede Nacional de Médicos e Médicas Populares?

Primeiro organizar a categoria médica. Não é simples, e a prática está nos dizendo isso. São pessoas que são bastante atarefadas, com grandes jornadas de trabalho. Depois, como criamos um sistema de organização nas regiões e nos estados que permita que essas pessoas estejam organizadas?

Como nos vinculamos com as lutas populares? A rede não pode ser a opinião de um grupo de médicos. Pode perpassar por nós, mas tem que representar a opinião da classe trabalhadora e dos movimentos populares.

Temos desafios que são inerentes ao que vivemos no Brasil. Temos que defender as conquistas dos direitos sociais e não podemos fechar os olhos para o processo de privatização do sistema público de saúde. É nosso dever bater e proteger ao mesmo tempo. É uma tarefa complexa, mas necessária.

Não podemos permitir que o Eduardo Cunha, por exemplo, represente os interesses do capital internacional por ter recebido financiamento de empresas da saúde para sua candidatura, assim como outros diversos deputados (Cunha recebeu R$ 250 mil de uma empresa de planos de saúde para sua campanha em 2014). É nosso dever fazer essa defesa e estar atendo a tudo que acontece e divulgar amplamente à sociedade com posições concretas.

– A rede também lançou recentemente o portal Saúde Popular. Que papel cumpre o portal?

O site cumpre um papel importante na conjuntura política e na organização dos profissionais, mas cumpre um papel mais importante para a sociedade.

Estamos num processo de construção, mas ele tem a função de divulgar o ponto de vista que não é mostrado pela grande imprensa, defender o SUS e o trabalho dos médicos cubanos no território brasileiro. O site apresenta uma visão diferenciada do nosso entendimento do que é fazer saúde na sociedade brasileira.

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