Mortalidade materna e adoecimento coletivo: a saúde em tempos de crise

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24/08/2015

Pesquisadores Cesar Victora, Jairnilson Paim e Madel Luz traçaram um panorama do quadro vital da nação em debate ocorrido no final de julho

Da Redação, com informações da Abrasco

Confira, em vídeo, a exposição dos pesquisadores Cesar Victora, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Jairnilson da Silva Paim, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) e Madel Therezinha Luz, pesquisadora associada da Universidade Federal Fluminense (UFF), durante painel que discutiu a saúde dos brasileiros no congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), ocorrido no final de julho.

+ Confira a apresentação de Cesar Victora

Cesar Victora fala sobre a saúde das mães e das crianças brasileiras. O epidemiologista trouxe uma grande quantidade de dados, tanto recolhidos ao longo de mais de 30 anos em seus estudos de corte, quanto números oficiais do Ministério da Saúde. Em 1990, a mortalidade infantil no Brasil era de 50 por mil; já em 2013, era de 15 por mil. Essa redução é vista por Victora como um grande sucesso, tendo em vista que o objetivo de desenvolvimento do milênio era que o país alcançasse tal número em 2015.

Apesar do progresso na redução da mortalidade infantil, o Brasil não atingiu a redução da mortalidade materna como proposta pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, da ONU. “Estamos longe de atingir esta meta. É um desafio importante que ainda nos resta”, constatou.

O debatedor relacionou também as taxas de mortalidade materna e o aborto ilegal. “É uma questão de saúde pública. Não tem que ser lidado como uma questão religiosa”, defendeu. Segundo ele, a cada quatro gestações uma acaba em um aborto ilegal”.

+ Confira a apresentação de Jairnilson Paim

Jairnilson da Silva Paim explanou que os problemas do sistema de serviços de saúde envolvem determinantes políticos, econômicos e ideológicos. “As respostas a esses problemas podem ser entendidas como as políticas de saúde que atualmente contemplam um setor produtor de bens e de serviços e que não é um setor qualquer: é um locus de acumulação de capital. Portanto, diversos interesses vinculados ao capital se materializam nos âmbitos do sistema de saúde”.

O professor da UFBA listou algumas das conquistas alcançadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nos últimos anos: melhora no acesso à atenção básica e de emergência, por meio do SAMU, cobertura universal de vacinação e de assistência pré-natal e forte investimento na expansão de recursos humanos e em tecnologias, com grande esforço para fabricar vacinas e medicamentos essenciais no país.

Mesmo com bons indicadores, Paim lastimou a grave redução de verbas para o setor. Antes da implantação do SUS, em 1981, os recursos públicos financiaram 68% dos atendimentos e pagaram 75% das internações. Comparativamente, em 2008, os números foram reduzidos para 56% e 67%, respectivamente. Diante disso, Paim concluiu que “O Estado brasileiro, historicamente, estimulou o setor privado, promovendo a mercantilização da saúde”.

O pesquisador mostrou que cerca de 40% do gasto em saúde é público, número menor que nos Estados Unidos e México – países que não têm um sistema universal de saúde. A participação da União no financiamento do SUS caiu de 72%, em 1993, para 42,93%, em 2013. “São dados relativos. Os gastos do Ministério da Saúde quase que duplicaram, mas, quando se observa o percentual do PIB gasto pelo governo brasileiro, ele continua o mesmo. Ou seja, o país cresceu, porém, os investimentos em saúde, não”.

+ Confira a apresentação de Madel Luz

A pesquisadora Madel Therezinha Luz fez um recorte temporal à temática do adoecimento coletivo aos tempos de crise. “Esses tempos incluem não só o tempo brasileiro, mas também o do capitalismo internacional, de nossa vida coletiva e uma economia financeirizada e cujas crises abalam a nossa saúde”. Para Madel, o trabalho tem sido adoecedor. “A perda do poder aquisitivo é acompanhada pela aceleração do ritmo das atividades, que vem com a virtualização das informações e das tarefas e um aumento consecutivo da carga de trabalho sem nenhuma compensação, nem material, nem simbólica”.

O individualismo e a competição, valores dominantes na atualidade, repercutiram na perda dos vínculos sociais, o que tem levado ao isolamento e ao adoecimento, defendeu a palestrante. “Embora conectados, os seres humanos deste país se veem perdidos e sem iniciativa de participação civil coletiva, pois estar conectado não significar estar relacionado, nem que haja relação social”.

Tal cenário influencia diretamente na prática política. “Nós temos um decréscimo de valores de compromisso que está presente nos três poderes. Há uma fragilização da ética na política e isso influi também na saúde da população, porque ética e política são duas dimensões inseparáveis da vida social. São o verso e o reverso da mesma moeda”, definiu a professora. “Um adoecer social começa a se revelar. Ações coletivas de insegurança, desconfiança e agressividade mútua dos cidadãos são notadas cada vez mais nas grandes cidades”, salientou ela, destacando que problemas históricos – como discriminação de raça, gênero, crença, classe social e origem– e condutas cotidianas – como comer, trabalhar, dirigir – são agravados nos momentos de crise, dando condições para o surgimento de novas patologias e para o agravamento de adoecimentos.

A deterioração da ética tem causado a separação social, já que têm sido adotados valores sociais incompatíveis com a vida coletiva. “Estou achando que nós nos encaminhamos para uma sociedade desabitada de valores humanos, vazia do ponto de vista ético e que não se reconhece como um todo orgânico coletivo”, argumentou Madel, que concluiu sua participação com um elogio àqueles que lutam por valores de solidariedade, “uma vez que a sociedade capitalista apela ao máximo para a competição, individualismo e consumismo como uma forma de esquecimento do deserto em que se vive eticamente”.

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